sociedade grega antiga

Partindo de “Ilíada” e “Odisseia”, estudo mostra como o ato de tecer era forma de expressão para mulheres daquela sociedade

A palavra “texto”, que atualmente tem o sentido de “estruturação de palavras”, “composição literária” ou “narrativa escrita”, originalmente significava “tecer” ou também “material de tecido”. Essa informação ajuda a compreender a importância das vestimentas como meio de comunicação e expressão do poder feminino encontrado nos dois textos mais antigos da literatura ocidental: Ilíada e Odisseia, obras atribuídas ao grego Homero. A própria existência do poeta e também a autoria dessas duas obras são questões polêmicas, como nos conta Lilian A. Sais, em artigo publicado na revista Criação & Crítica: “Não sabemos muito sobre a forma como os poemas foram compostos“. Embora, aparentemente, não tenham sido escritos antes do século VI a.C. , tudo indica que são, na verdade, “fruto de uma tradição épica de composição oral“.

A proposta da autora é revelar o lado oculto da história da submissão das personagens femininas nas referidas obras – já mencionada na conhecida música Mulheres de Atenas, de Chico Buarque – e contar como as “vestes” aparecem nos poemas homéricos: “A tecelagem, sendo um trabalho exclusivamente feminino em Homero, é importante para que as mulheres obtenham prestígio e fama“. Se Ilíada conta a guerra de dez anos entre gregos e troianos, Odisseia conta a saga do  grande guerreiro grego Odisseu e sua volta para os braços de Penélope, revelando ao leitor, nas duas obras, a ligação entre “a tecelagem, a astúcia e a fala“, pois só as mulheres fiam e tecem: “A  ligação entre tecelagem e engano está bem enraizada no texto homérico, […] o verbo ‘tecer’ pode ser usado no sentido literal, de tecer vestes, astúcia, ou um engano“.

Mulher Grega
De acordo com artigo, diversos são os mitos gregos que abordam o poder de comunicação pictórico dos mantos e das vestes produzidos pelas mulheres – Foto: Pixabay / CC0

Na sociedade grega antiga, não se dava a palavra à mulher, mas nem por isso ela se calava, segundo a autora: “Em vez de falar, elas tecem. As mulheres, silenciadas, tecem […] fazendo  um  ‘material  silencioso falar'”. Na obra Odisseia, Helena não deixa de ser também a narradora da Guerra de Troia, porque passa a “tecer” os acontecimentos aí desenrolados, em que a heroína nos mostra que, “ao mesmo tempo em que as mulheres podem ser vozes da verdade, como profetizas e professoras, podem também dar à mentira forma e aparência de verdade“, explica Lilian Sais, observando também que, por seu trabalho perfeito com a tecelagem, Helena de Troia adquiriu fama e prestígio, “como se a veste fosse um símbolo das mãos que a produziu […] sugerindo uma associação impossível de ser desfeita entre o objeto e o seu criador“.

Estampa
Foto: Pixabay / CC0

Nas duas obras, nota-se que as vestes são símbolos de liberdade, meios de comunicação e expressão femininas.”Numa sociedade machista em que a mulher era constantemente silenciada, a tecelagem era uma das poucas formas que ela tinha de se comunicar. Não são poucos os mitos que abordam o poder de comunicação pictórico dos mantos e das vestes produzidos pelas mulheres “, conclui a autora.

Lilian Amadei Sais é doutoranda em Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

SAIS, Lilian Amadei. Vestes que falam – A tecelagem e as personagens femininas dos poemas homéricos. Revista Criação & Crítica. São Paulo, n. 15, p. 7-19, 2015. ISSN: 1984-1124. Disponível em:<http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/102115>. Acesso em: 03 out. 2017.

Jornal Da USP

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