Leandro Karnal

A Universidade é um espaço de conhecimento, utopia e democracia, que enfrenta, com o avanço de tendências conservadoras na sociedade, um crescente número de inimigos. “Nunca a universidade teve tantos inimigos políticos como nesse momento, e tudo leva a crer que essa guinada conservadora vá se estender por vários anos. O ‘lado bom’ disso é que, com tanta gente nos olhando e criticando, teremos que ser melhores. É hora de a gente dar uma resposta muito eficaz e mostrar o valor de uma grande universidade pública”, afirmou o historiador Leandro Karnal, convidado da sexta edição do Simpósio de Profissionais da Unicamp (Simtec).

Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Karnal palestrou no último dia 27, no Centro de Convenções da Unicamp. Fez uma reflexão sobre o tempo e sobre a história, tendo como pano de fundo os cinquenta anos da Unicamp. O professor começou falando do prazer de estar na “sua” universidade. Passado, presente e futuro da instituição foram objeto de muitas colocações de Karnal que, com bom humor, a todo momento trouxe o debate para o cotidiano das pessoas.

O historiador começou a palestra falando sobre a origem da Universidade. “Somos uma instituição da década de 60, gerida a partir de uma área médico-biológica. A Unicamp foi idealizada num regime democrático, num ambiente de reformas de educação muito importantes, período de leis e propostas educacionais revolucionárias, mas sendo fundada já sob o signo do fechamento, do autoritarismo e do fim das liberdades democráticas”.

Segundo Karnal, a Unicamp começa “exatamente como ela está hoje”, num momento de polarizações e crise econômica, com a diferença de estar afastada dos centros onde a agitação maior ocorria. Há uma mudança significativa no país neste momento, que é a passagem de uma população predominantemente rural para as cidades. “A Unicamp vive esse momento de transição que vai resultar na diminuição de filhos por casal e diminuição do ritmo de crescimento do País”.

Leandro Karnal

A partir dessa mudança, Karnal passou a falar das gerações de alunos que frequentam a instituição. “A primeira delas, de nascidos após a Segunda Guerra, até 1964, ‘geração do baby boomer’, que viveu uma esperança enorme de desenvolvimento nos anos JK”. Esta geração foi educada tendo o trabalho “quase como uma obsessão” e viveu no Brasil um momento de estabilidade e de crescimento econômico. Depois veio a “geração X”, de nascidos até os anos 1970, “muito mais individualista e acostumada a benefícios”, seguida da “geração Y”, de nascidos até o início do século 21 e já plenamente tecnológica, voltada à conexão.

Entre o modelo de ensino que receberam e a que está acostumada boa parte dos professores da “geração baby boomer” e a “geração Y”, há um hiato de três séculos como explicou o professor. “É o caso de professores nascidos e, quase sempre, educados como eu, no século 20, dando aulas para alunos nascidos no século 21, alguns deles preparados para atuar no século 22”. De acordo com Karnal, as escolas são baseadas num modelo de pedagogia que determina uma aula formada por giz, professor e conteúdo a ser aprendido, tendo a ordem como eixo. O problema desse hiato de três séculos, afirmou, é que hoje “temos professores que ainda anseiam pela ordem e pelo conteúdo, e alunos que não estão mais aptos ao modelo de aula expositiva”.

Áreas do conhecimento
Para Karnal, um dos desafios que a universidade enfrenta hoje é a perda do diálogo entre as várias áreas do conhecimento. “A origem da Unicamp é a área médica, mas naturalmente, como todo instituto superior, ela tem um debate permanente entre as três áreas – humanas, exatas e biológicas. Uma universidade é concebida para ser um contato entre áreas diversas de conhecimento, por isso é uma universidade e não uma faculdade”.

O historiador lembrou que, na Idade Média, quando se concebeu “que as três grandes áreas do período histórico - medicina, direito e teologia - deveriam compartilhar o mesmo espaço, foi porque se achava que aos médicos seria importante ouvir sobre leis e teologia e seria importante, aos teólogos, ouvir sobre medicina e sobre leis, e seria importante a todos integrarem o sistema”.

O historiador lamentou que a universidade esteja perdendo isso porque, em geral, ressaltou, “nós convivemos com colegas de outras áreas em decisões burocráticas, não em produção de conhecimento”, e “o mundo contemporâneo exige essa integração, gente que tenha uma especialidade, mas que navegue por várias áreas”. Karnal complementou, exemplificando: “falta a nós historiadores, filósofos, antropólogos e cientistas políticos, um pouco da objetividade da engenharia e falta, aos engenheiros, um pouco da subjetividade da área de humanas; acho que os dois lados cresceriam muito”.

Pessimismo
O presente, observa o docente, dominado pela crise econômica e política, é marcado pelo pessimismo. “O pessimismo dominante é a marca do momento que estamos vivendo”, observou. O professor sintetizou que “uma parte importante do país está convencida que a outra parte é criminosa e não serve ao bem do país. Uma parte importante do país não reconhece, na outra parte, o estatuto da brasilidade ou da cidadania”. Muitas pessoas, nesse momento, não estão mais ouvindo ninguém, “apenas estão colocando seu ódio”.

O problema é que, de acordo com o professor, o pessimista não age. Ele é parte do problema, mas não de sua solução. Foi nas Olimpíadas e Paralimpíadas, quando todos achavam que tudo ia dar errado e deu certo, que Karnal afirmou ter “começado a notar” que estava excessivamente pessimista, talvez influenciado por textos das redes sociais. “É preciso usar as redes homeopaticamente, é preciso restaurar o equilíbrio da discussão, do argumento, de vida. Decididamente está faltando equilíbrio às pessoas em quase todos os campos”.

Futuro
Na trajetória para os próximos cinquenta anos de Unicamp, o professor arriscou um exercício de “futurologia”. O cenário futuro é de declínio da população brasileira. Em 30 anos, o Brasil pode se tornar um país similar à Europa na quantidade de pessoas mais velhas recebendo aposentadoria, enquanto há menos jovens em idade de trabalhar.

Isso significa que, nas próximas três décadas, a Unicamp ainda estará recebendo muitos alunos. Depois, a hipótese é de que o número de ingressantes na graduação diminuirá. “Pode ser que haja um encolhimento das universidades, que, a partir dos anos 80, se expandiram enormemente”.

Neste cenário, com mais pessoas mais velhas, aumentará a procura por qualificação. “Deveríamos pensar em muitos cursos de qualificação, cursos a distância e voltados a profissionais já formados”, salientou.

Para chegar bem no futuro ele considera que a instituição não pode se deixar levar por seu sucesso e precisa pensar estrategicamente. “O fato de sermos produtivos, de estarmos entre os melhores do país, de sermos uma referência, é nosso problema hoje”, refletiu. Karnal defendeu a lei das cotas raciais, e afirmou ter visto alunos negros em cursos de Medicina, o que lhe pareceu o início da superação de um problema.

O historiador disse ainda que a Universidade precisa aumentar sua visibilidade.  “Isso é fundamental para que as pessoas entendam que a ciência brasileira depende exclusivamente das universidades públicas, ou dos laboratórios públicos. A ciência brasileira não cresce nas instituições privadas. A pesquisa, os avanços que melhoram a vida das pessoas, as patentes, tudo sai da universidade pública”.

Aumentar a visibilidade da instituição é um desafio assim como a internacionalização. Karnal defendeu que a Unicamp precisa estar cada vez mais focada no mundo, falando inglês mas, sobretudo, a serviço do conhecimento. “Minha existência aqui é irrelevante. A universidade deve ser um espaço do conhecimento, e eu, um professor; os funcionários, todos nós, servimos a causa do conhecimento”.

O professor terminou a palestra falando que a universidade é um laboratório da democracia, um espaço onde o autoritarismo deve ser especialmente combatido. “Num mundo de crescentes radicalizações antidemocráticas, a universidade tem que reforçar a democracia, no espaço de trabalho, nas congregações, nos conselhos universitários e assim por diante”. E também precisa ser um espaço de utopia. “Não sei onde nós estaremos no futuro, mas sei onde eu gostaria que nós estivéssemos, nesse patamar da utopia. Quanto mais ela existir, melhor”

Texto: Patrícia Lauretti
Fotos: Antoninho Perri
Edição de Imagens: André Vieira
Jornal Da Unicamp

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