Akira Homma

A Campanha Nacional de Multivacinação 2016 começou na segunda-feira (19/9) com o objetivo de atualizar as cadernetas de vacinação das crianças menores de cinco anos e também aquelas com nove anos até 15 anos incompletos. Para isso, o Ministério da Saúde enviou aos postos de saúde de todo o país 19,2 milhões de doses extras de 14 vacinas: hepatite A, VIP (polio inativada), meningocócica C, rotavírus, HPV, pneumocócica 10, febre amarela, varicela, pentavalente, tetraviral, dupla adulto, DTP, tríplice viral e VOP (poliomielite oral).

A campanha até 30 de setembro nos cerca de 36 mil postos fixos de vacinação, e envolve 350 mil profissionais de saúde. O dia de mobilização nacional está agendado para o sábado (24/9), e o campus da Fiocruz em Manguinhos será um dos palcos dessa “festa da vacinação” com a 23º edição do Fiocruz pra Você. Sobre o evento, e o esforço de mobilização popular em torno da vacinação, conversamos com o consultor científico sênior do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz), Akira Homma.

Bio-Manguinhos: Akira, qual a diferença entre a atividade rotineira de vacinação e a campanha?

Akira Homma: A campanha é o período do ano em que conseguimos adesão da sociedade, das personalidades, num esforço de mobilização que permite a todos ter informações mais amplas sobre a necessidade da vacinação.

Bio-Manguinhos: Pode ser mais explícito?

Akira Homma: É uma atividade que envolve centenas de milhares de pessoas, muitos voluntários, para transmitir a importância da vacinação. Aqui na Fiocruz mesmo, já tivemos nos passado a presença da Xuxa, do Oscar Schmidt, durante as campanhas de vacinação contra a paralisia infantil.

Bio-Manguinhos: A própria estratégia de campanha se relaciona bastante com a estratégia de erradicação da poliomielite, não?

Akira Homma: Sem dúvida. O uso da chamada “vacina sabin”, a vacina oral, prevê a necessidade de cobertura ambiental, termos altas taxas de cobertura vacinal no menor espaço de tempo possível. Aliás, essa é uma das batalhas que travamos que ainda precisa ter seu desfecho final.

Bio-Manguinhos: Por isso a alteração na composição da vacina oral?

Akira Homma: Sim, em respeito ao que foi decidido pela Organização Mundial da Saúde. Além da vacina inativada, estaremos aplicando a vacina oral para os poliovírus de tipo 1 e 3.

Bio-Manguinhos: Falando da vacina oral da pólio, como o senhor encara o sucesso que o personagem Zé Gotinha alcançou na sociedade brasileira?

Akira Homma: Acho fenomenal. 30 e tantos anos depois de sua aparição, podemos dizer que foi altamente positiva a ideia de criar esse personagem. Ele aproxima as crianças, afinal a atividade de vacinar não é muito, digamos, apreciada por elas. A ideia do Zé Gotinha foi tão positiva que aqui em Bio-Manguinhos criamos como marca uma gota humanizada, apesar da maioria das vacinas ainda ser injetável.

Bio-Manguinhos: A Fiocruz, Bio-Manguinhos em particular, contribuem não apenas com o esclarecimento e participam como posto de vacinação mas também produzindo parte das vacinas que são usadas nessa campanha?

Akira Homma: Sim, participamos dessa verdadeira festa com a entrega de vacinas e com o Fiocruz pra Você, quando aproveitamos para divulgar as informações sobre prevenção, de forma geral, e a vacinação em particular. Ao mesmo tempo em que se faz a vacinação aqui no campus de Manguinhos aproveitamos para esclarecer a população sobre a necessidade da vacinação.

Bio-Manguinhos: E qual é o recado a se passar?

Akira Homma: Ultimamente as doenças infecciosas, preveníveis por vacinação, não causam tanto impacto na população. A poliomielite foi erradicada, não temos mais sarampo no país, a rubéola foi eliminada e o tétano neonatal praticamente conseguiu o mesmo no país. A coqueluche, por sua vez, diminui bastante sua circulação.

Praticamente não há mais notificação dessas doenças, então isso desarma os pais e responsáveis das crianças em relação a importância da vacinação. É preciso manter a cobertura alta, precisa-se vacinar todas as crianças.

Não podemos ter o relaxamento de que a pequena incidência dessas doenças seja encarada como desculpa para a não vacinação. É justamente o contrário: nosso esforço é vacinar a todos para não termos populações suscetíveis, vulneráveis, que em última análise podem vir a gerar novas epidemias.

A campanha é importante por isso. Permite a observação da carteira de vacinação das crianças para que fique assegurado a cada uma delas o direito de se proteger. É isso que veremos, por exemplo, aqui na Fiocruz.

Paulo Schueler
Bio-Manguinhos/Fiocruz

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