Fiocruz

Na última semana (de 30/9 a 2/10), o I Simpósio Fiocruz de Medicina Regenerativa, realizado no Auditório Aluízio Prata do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, unidade da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia (Fiocruz Bahia) teve como objetivo disseminar conceitos básicos sobre células-tronco e terapia celular. O evento encerrou na setxa-feira (2/10) com uma visita ao Centro de Tecnologia e Terapia Celular (CBTC), do Hospital São Rafael. A atividade gratuita foi uma iniciativa do Laboratório de Engenharia Tecidual e Imunofarmacologia (LETI), e abrange ainda um curso pré-simpósio. Na ocasião, foi realizada também uma homenagem ao pesquisador Ricardo Ribeiro dos Santos, pela contribuição à investigação em medicina regenerativa na Fiocruz Bahia.

A coordenadora do evento e pesquisadora-chefe do LETI, Milena Soares, explicou que a medicina regenerativa é uma disciplina que tem potencial para revolucionar os tratamentos de doenças crônico-degenerativas. "O desenvolvimento desta nova área do conhecimento depende da integração entre pesquisa básica e medicina translacional, com foco nas necessidades dos pacientes", informou. Segundo ela, o objetivo é substituir ou induzir o reparo de tecidos doentes através da aplicação de células, fatores celulares e biomateriais, restaurando as funções comprometidas.

Soares esclareceu que, para o desenvolvimento das pesquisas, é importante identificar oportunidades e definir estratégias para o fortalecimento deste campo no Brasil. "Este simpósio visa promover a integração de pesquisadores, expandindo o desenvolvimento da medicina regenerativa na Fiocruz", apontou. "Por ser um ramo em ampla expansão, a interação com pesquisadores de outros países onde esta área tem sido vista como prioritária poderá auxiliar nas discussões e promover parcerias internacionais", concluiu.

Campo de esperanças

De acordo com os pesquisadores que participaram do simpósio, as principais aplicações futuras com células-tronco são: diabetes, cardiopatias, hepatopatias, distrofia muscular, doença de Parkinson, lesão da medula espinhal, acidente vascular cerebral, dentre outras. Para tanto, foram convidados especialistas no assunto em nível nacional e internacional, a exemplo de Timothy Henry, do Cedars Senai Heart Institute, dos Estados Unidos. O pesquisador tem como interesses de pesquisa a cardiologia intervencionista, infarto agudo do miocárdio e novas terapias, incluindo células-tronco e terapia gênica, indicada para os pacientes que não são candidatos a técnicas de revascularização padrão.

Outra convidada a participar do simpósio foi a pesquisadora Rebecca Matsas, do Hellenic Pasteur Institute, da Grécia. Ela participou da mesa redonda Terapia Celular para doenças neurológicas, com a apresentação focada na doença de Parkinson. Vale ressaltar que o grupo de pesquisas liderado por Matsas foi o primeiro a introduzir a investigação sobre células-tronco neste país. Recentemente, a cientista em questão implementou tecnologias de reprogramação celular para geração de células-tronco induzidas a partir de fibroblastos da pele de pacientes com doença de Parkinson para estudar mecanismos de patogênese da doença e identificar novos alvos terapêuticos e de diagnóstico. Milena Soares também participou da mesma mesa redonda, com a apresentação voltada para o desenvolvimento de terapia celular baseada para lesão da medula espinhal.

Bruno Dallagionanna, da Fiocruz Paraná, e Bruno Solano, da Fiocruz Bahia, falaram sobre aspectos básicos em células-tronco e reprogramação celular. As técnicas de reprogramação celular estão sendo aprimoradas, permitindo a geração de células-tronco com capacidade de formar células funcionais a partir de tecidos do organismo adulto, como da pele ou do sangue. Segundo Solano, responsável pela implantação dessa técnica na Fiocruz, já estão sendo iniciados estudos clínicos no mundo utilizando células produzidas a partir de reprogramação celular.

Além desses, o evento contou também com a participação dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Henrique Rosado de Castro, e Antônio Carlos Campos de Carvalho, que coordena a Rede Nacional de Terapia Celular, apoiada pelo Governo Federal. Também participaram Paulo Roberto Brofman, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Os estudiosos falarão sobre aplicações de técnicas de imagem translacional em terapias celulares para acidente vascular cerebral e terapia celular para doenças cardíacas. O evento contou ainda com a presença de Marcelo Medeiros, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que falará sobre assuntos regulatórios sobre terapias com células-tronco.

Recrutamento de pacientes

Em Salvador, o Centro de Biotecnologia e Terapia Celular (CBTC), localizado no Hospital São Rafael, é o primeiro do Norte-Nordeste e um dos oito centros credenciados pelo Ministério da Saúde para manejo de células-tronco a nível de Boas Práticas de Manufatura, ou Good Manufacture Practice (GMP, sigla em inglês). "As experiências, que tiveram início em 2003, com pacientes vítimas de doença de Chagas e doenças hepáticas, atualmente passam por um processo de aprimoramento das técnicas", informou Bruno Solano, da Fiocruz Paraná.

Ele explicou que, em vez de fazer uma cirurgia no paciente, foram desenvolvidos, ao longo dos anos, procedimentos menos invasivos, onde as células-tronco obtidas da medula óssea são devolvidas ao paciente através de uma injeção percutânea guiada por tomografia no local exato da lesão. De acordo com Solano, esse procedimento permite que sejam feitas mais de uma aplicação nos pacientes evitando, também, possíveis riscos pós-operatórios. "O trunfo de nossas atividades está estritamente conectado com o fato de estarmos dentro de uma estrutura hospitalar complexa, onde as pesquisas vão da bancada à beira do leito", afirmou.

Atualmente, o CBTC está recrutando voluntários para tratamento com células-tronco. Os candidatos ao estudo devem preencher os critérios de um rígido protocolo de pesquisas científicas. O perfil dos pacientes está voltado para os acometidos por doença de Chagas, cirrose hepática, isquemia com indicação de amputação dos membros, comum em pacientes diabéticos, tabagistas e com aterosclerose.

Fiocruz Bahia

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