Aedes albopictus

Duas pesquisas recém-publicadas na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz alertam para a importância das ações vigilância para o controle da febre amarela e das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Em um artigo, cientistas relatam a primeira infecção por febre amarela do Rio de Janeiro em 2019. Registrado em um macaco, o caso ocorreu em Casimiro de Abreu, na Região das Baixadas Litorâneas – mesmo município onde, em março de 2017, foram diagnosticados os primeiros pacientes com a doença no estado após mais de 80 anos. De forma inédita, o trabalho revela a persistência do vírus na Mata Atlântica por três estações de transmissão, apontando a possibilidade de circulação silenciosa. Em outro estudo, pesquisadores apresentam um panorama da resistência do mosquito A. aegypti aos compostos que foram, por muito tempo, os principais inseticidas utilizados para controle do vetor no Brasil. Com base em mais de 700 avaliações em 146 municípios, a pesquisa evidencia a difusão da resistência ao larvicida temefós e ao adulticida deltametrina no país. Os dois trabalhos foram liderados por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Resposta rápida

A combinação de diferentes ferramentas para vigilância permitiu a rápida identificação da primeira infecção por febre amarela do Rio de Janeiro em 2019, registrada em um macaco no município de Casimiro de Abreu, na Região das Baixadas Litorâneas. No artigo recém-publicado, os pesquisadores responsáveis pelo achado relatam que receberam a informação sobre um bugio doente avistado em uma área de mata no dia 9 de janeiro. Em menos de 48 horas, a confirmação do diagnóstico foi informada às Secretarias estadual e municipal de Saúde, permitindo a adoção de medidas para evitar a disseminação da doença. Para chegar ao resultado, os pesquisadores seguiram até a cidade, onde encontraram o animal já morto. O exame de necropsia e a coleta de amostras foram realizados no local. Em laboratório, testes identificaram a presença do genoma do vírus da febre amarela.

A decodificação da sequência genética levou a um achado sem precedentes. Em março de 2017, casos humanos de febre amarela registrados em Casimiro de Abreu marcaram a volta da doença ao Rio de Janeiro após mais de 80 anos. Ao longo de duas estações de transmissão (2016/2017 e 2017/2018), o surto se espalhou por mais de 50 cidades do estado, com cerca de 300 pacientes infectados, incluindo 97 mortes, além de quase cem infecções em macacos. No estudo, os pesquisadores verificaram que o genoma do vírus detectado em 2019 apresentou mais de 99,7% de semelhança com sequências genéticas de vírus referentes a casos de Casimiro de Abreu e cidades vizinhas em 2017, apontando a persistência da circulação viral na região pela terceira temporada de transmissão seguida.

Os autores do trabalho destacam que pesquisas anteriores indicavam um máximo de duas temporadas de transmissão consecutivas na Mata Atlântica, uma vez que a morte dos macacos em consequência da febre amarela leva ao fim o ciclo silvestre da doença. Considerando que não foram detectados casos humanos ou em animais em Casimiro de Abreu em 2018, os pesquisadores alertam para o potencial de circulação silenciosa do agravo. “Nosso estudo claramente demonstra que a circulação do vírus da febre amarela pode ser silenciosa na costa do Sudeste e que a transmissão pode ganhar força e ressurgir como epizootias quando as condições são adequadas. A persistência local do vírus e a possibilidade de re-emergências sazonais reforçam a necessidade de manter vigilância contínua e alta cobertura vacinal”, afirmam os cientistas no artigo.

O estudo foi realizado a partir da colaboração entre quatro laboratórios do IOC/Fiocruz: Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários, Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus, Laboratório de Aids e Imunologia Molecular e Laboratório de Genética Molecular de Microorganismos. O mesmo grupo de pesquisadores publicou, no ano passado, achados importantes relacionados às características genéticas do vírus ligado aos surtos recentes de febre amarela no Brasil e às rotas de dispersão do patógeno. Também colaboraram com a pesquisa o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e a Secretaria estadual de Saúde do Rio de Janeiro (SES/RJ).

Levantamento abrangente

O larvicida temefós e o adulticida deltametrina foram, por muito tempo, os principais inseticidas empregados no combate ao Aedes aegypti no Brasil, mas tiveram que ser substituídos por causa do alto índice de resistência entre os vetores. O levantamento mais abrangente publicado sobre o tema reúne dados de mais de 700 avaliações em 146 municípios das cinco regiões, incluindo resultados inéditos de mais de cem testes e a revisão da literatura científica de 1985 a 2017. De acordo com os autores, o estudo fornece evidências de como a resistência pode se espalhar, o que coloca em questão o controle vetorial baseado unicamente em inseticidas e ressalta a necessidade de monitoramento constante.

Aedes resistentes
Aedes resistentes (vermelho) ou com resistência incipiente (laranja) foram encontrados em todas as regiões do país. Ensaios com larvas (A) apontaram vetores suscetíveis (verde) ao temefós quase exclusivamente em São Paulo e na região Sul. A resistência dos mosquitos adultos à deltametrina foi observada em testes qualitativos (B) e quantitativos (C) (Imagem: Denise Valle e colaboradores / Arte: Jefferson Mendes)

 O levantamento aponta que, entre 457 avaliações do temefós, realizadas de 1998 a 2015, 80% indicaram níveis de resistência suficientes para reduzir a eficácia do larvicida. Entre mais de 140 cidades contempladas nas cinco regiões, apenas cerca de 30 apresentaram larvas suscetíveis ao produto em pelo menos um teste, sendo quase todas na região Sul e em São Paulo. Os autores destacam que a região mais fria do Brasil apresenta historicamente menores índices de arboviroses. Já o estado de São Paulo conta com o maior número de municípios monitorados e a maior frequência de avaliações, refletindo um programa forte e coordenado para manejo da resistência.

Com relação à deltametrina, o artigo traz 274 análises, realizadas de 2005 a 2015. Testes com duas metodologias confirmaram a disseminação da resistência entre os mosquitos adultos: o método indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que todas as populações de vetores testadas eram resistentes, enquanto a técnica recomendada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, identificou resistência em mais de 90% dos insetos. A gravidade do problema foi verificada ainda em outro experimento, que aponta a chamada ‘razão de resistência’ – taxa que indica quantas vezes maior é a concentração de inseticida necessária para combater os mosquitos coletados em determinada localidade em comparação com uma população de A. aegypti suscetível mantida em laboratório. Em testes realizados com vetores de todas as regiões do país, o indicador variou entre sete e 95, índices que apontam necessidade de substituição do produto.

Lembrando que existem poucas alternativas disponíveis, os cientistas enfatizam a necessidade de respeitar o caráter complementar do controle químico nas ações de combate ao Aedes. “Os inseticidas devem ser reservados para o tratamento de criadouros que não podem ser eliminados e para locais e situações específicas, como o bloqueio de surtos ou intervenções em pontos estratégicos”, afirmam no artigo. O estudo foi realizado por pesquisadores do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus, Laboratório de Fisiologia e Controle de Artrópodes Vetores, Instituto de Biologia do Exército e Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Entomologia Molecular. Os dados inéditos apresentados foram produzidos pelos cientistas como parte das ações da Rede Nacional de Monitoramento da Resistência de Aedes aegypti a Inseticidas (Rede MoReNAa), que atuou de 1998 a 2012, sob coordenação do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde.

Maíra Menezes
IOC/Fiocruz

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