Geografia da Fome

A Fiocruz iniciou, nesta terça-feira (18/10), no auditório do Museu da Vida, no Rio de Janeiro, as atividades da 13ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) com a mesa Geografia da Fome, em alusão à obra homônima de Josué de Castro, pioneiro no movimento nacional contra a miséria e a fome. Participaram do evento o presidente da Fundação, Paulo Gadelha, a vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), Nísia Trindade, o chefe do Museu da Vida (COC/Fiocruz), Diego Bevilaqua, a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Rosana Magalhães, e os pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Gilberto Hochman e Rômulo de Paula Andrade.

Paulo Gadelha destacou a importância do evento como oportunidade de aprendizado não só da população, como dos próprios cientistas. Ele também falou sobre o papel e da ciência e tecnologia (C&T) em geral no desenvolvimento do país. “É impossível imaginar um projeto de futuro para um país sem um grande investimento tanto na educação, como na ciência e tecnologia. Além disso, é necessário promover a interação entre as instituições de ciência e tecnologia e seus pesquisadores e a população. A sociedade precisa não só se apropriar dos conhecimentos como também ser capaz de interferir sobre o rumo da ciência, porque ela impacta o seu cotidiano, sua vida, as gerações seguintes. Também precisamos superar uma certa arrogância do mundo acadêmico e trabalhar com saberes distintos, com a ideia de co-produção de saberes”, explicou.

Nísia ressaltou que a escolha de Josué de Castro para abrir a SNTC 2016 na Fiocruz traz uma diversidade de perspectivas necessárias para refletir sobre o tema deste ano: Ciência Alimentando o Brasil. Segundo ela, a interdisciplinaridade da obra do autor entre as ciências sociais e biomédicas, e sua interface com o desenvolvimento social e econômico, continua atual. “Josué de Castro conseguiu colocar a questão da fome na agenda política. E acho que isso tem tem um sentido maior nesse no momento em que nós estamos, em que as políticas sociais estão em xeque, colocando um teto para os gastos com saúde e educação”, pontuou ela. A respeito da redução dos recursos públicos para a realização desta edição da STNC, a vice-presidente alertou: “gostaria de destacar a importância de nós não desmobilizarmos essa semana nacional, de nós não deixarmos que essa chama se apague. Porque é fundamental dar continuidade a essas políticas”. Nísia parabenizou ainda as unidades da Fiocruz por sua intensa mobilização e apontou que o evento permite não só uma maior interação entre elas, como da Fundação com a sociedade em geral.

Geografia da Fome

Após a mesa de abertura, os pesquisadores Rosana Magalhães, Gilberto e Rômulo debruçaram-se sobre o legado do livro Geografia da Fome e traçaram um paralelo com questões da atualidade. A obra, cuja primeira edição foi publicada em 1946 e traduzida para 25 idiomas, mapeia o Brasil a partir de suas características alimentares. O livro, pela primeira vez, refuta a tese determinista de que fenômenos naturais são os únicos responsáveis pela fome no Brasil, em especial na região Nordeste, ao atribuir também fatores econômicos e sociais à sua origem em uma abordagem transdisciplinar.

Rosana, estudiosa de Josué e autora de Fome: uma (re)leitura de Josué Castro, apresentou Geografia de Fome e pontuou que, embora esteja circunscrita às questões de seu tempo, a obra continua dialogando com questões atuais sobre o tema. “O autor está sempre debatendo com questões da sua época, mas, ao mesmo tempo, a obra segue viva e continua exigindo interpretação. Por isso, construir novas perguntas sobre a fome é importante para atualizar o legado do Josué de Castro de um compromisso científico e político no projeto nacional de redução das desigualdades sociais e da fome”, defendeu. A pesquisadora destacou ainda que o autor inovou o entendimento da fome em muitos aspectos. “Geografia da fome explora evidências e cria um modelo de análise que conjuga questões sociais com nutrição. Ele articula os avanços da bioquímica, da fisiologia, da endocrinologia, com uma abordagem antropológica e sociológica, incluindo aspectos históricos e geográficos. Através da interdisciplinaridade, ele vai construindo um modelo mais abrangente para pensar a questão alimentar e nutricional e isso é um grande legado”, destacou ela. 

Rômulo, por sua vez, acrescentou a possibilidade de intervenção na realidade, expressa na obra e na trajetória de vida de Josué de Castro, como contribuição importante e atual. “No campo da Geografia, ele pertence à Escola Possibilista. Em oposição à Escola Determinista, que acredita que a fome é um caminho inexorável, para os possibilistas, a fome não é natural: ela é fruto de história e das questões postas pela nossa trajetória. Para Josué há possibilidade de intervenção da realidade e isso é uma coisa muito importante”, explicou.

Gilberto falou sobre as contribuições que surgiram em reedições de Geografia da Fome ao longo dos anos. “Na edição de 1946, o livro questiona junto às elites intelectuais do país a atribuição das questões climáticas e raciais aos males do país. Já nas edições de 1955, 1956, 1960, ele aborda o dilema do pão ou aço, ou seja, entre a opção de investir no desenvolvimento da agricultura ou industrial”, detalhou. O pesquisador defende que vivemos um momento em que reler e debater Josué de Castro é útil para refletir sobre as consequências possíveis no caso de um desequilíbrio entre os investimentos sociais e o desenvolvimento econômico.

Como parte da da programação da SNTC, a Fiocruz oferecerá diversas atividades gratuitas em seu campus, em Manguinhos, até sábado (21/10). E, até domingo (22/10), oferece também exposição no museu itinerante Ciência Móvel, em Petrópolis. A programação completa está disponível no site do Museu da Vida e no site do evento.

Mônica Mourão
Agência Fiocruz de Notícias

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