Voleibol Brasileiro

Apesar dos investimentos públicos bilionários para os Jogos Olímpicos de 2016, sobretudo em infraestrutura, apenas um centro esportivo (CT) de alto rendimento do país se enquadra aos padrões de excelência internacional. A constatação é de uma pesquisa da Unicamp que analisou nove CTs de alto rendimento que receberam investimentos do governo federal em razão das Olimpíadas que serão disputadas neste mês no Rio de Janeiro.

Conforme o estudo, conduzido pela educadora física Mariana Antonelli, apenas o Centro de Desenvolvimento do Voleibol Brasileiro (CDV), localizado em Saquarema (RJ), está de acordo com os padrões internacionais de excelência. A pesquisa também avaliou outros oito centros de modalidades como judô, boxe, natação, canoagem, atletismo, handebol, vôlei de praia e ginástica artística.

A meta do governo brasileiro é que o país esteja classificado, pela primeira vez em sua história, entre os dez melhores da competição. A previsão de gastos para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos deve chegar a R$ 37,5 bilhões, segundo levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Centro de Desenvolvimento do Voleibol Brasileiro

“Apesar de ainda não poder ser considerado como um CT de excelência, o Centro de Treinamento de Canoagem Slalom, em Foz do Iguaçu, é bastante completo também. Já os outros estão bem aquém deste patamar internacional. Mas o problema geral é que, no Brasil, sequer existe uma política que defina critérios de como estes centros poderiam alcançar um patamar de excelência internacional. Sem esta política, o esporte de alto rendimento infelizmente se mantém de um modo voluntarista, com esforço de atletas, técnicos e familiares”, constatou a pesquisadora da Unicamp.

Mariana Antonelli esclarece que não se trata de apenas criticar o que existe no Brasil no tocante à infraestrutura e recursos humanos. Segundo a pesquisadora, os locais investigados não deixam de ser referências para o esporte do país. Ela aponta que investimentos, pesquisas e políticas esportivas de médio e longo prazo nestes CTs podem permitir que, no futuro, eles sejam considerados de excelência nos moldes dos padrões internacionais.

“Com as Olimpíadas estão sendo investido muitos recursos em infraestrutura. Mas é uma pena porque não há uma política esportiva para o alto rendimento. Entrevistei muito gestores e treinadores, alguns falavam que os investimentos eram suficientes, mas, muitas vezes, não se tem claro qual o melhor direcionamento dos recursos. Se, por exemplo, o melhor é investir em recursos humanos, espaço físico, capacitação, pesquisa, gestão, etc. Esses investimentos, que foram feitos em caráter emergencial, não são fruto de planejamento de médio e longo prazo. Portanto, o que vai ser destes centros em 2017, após os Jogos, ainda não está definido.”

O estudo de Mariana Antonelli integra dissertação de mestrado defendida pela educadora física recentemente. A pesquisa foi conduzida junto ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, na área de Biodinâmica do Esporte. O mestrado foi orientado pelo professor Roberto Rodrigues Paes, que atua no Departamento de Ciências do Esporte da FEF. A pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), insere-se no âmbito do Grupo de Estudos em Pedagogia do Esporte (Gepesp), coordenado por Roberto Paes.

Centro de Treinamento de Canoagem Slalon

Requisitos mínimos

A pesquisadora da Unicamp informa que países como Espanha, Portugal, Estados Unidos e França têm requisitos mínimos bem definidos para considerar ou criar centros de alto rendimento de excelência. Na Espanha, por exemplo, há categorizações detalhadas e documentadas pelo Conselho Superior de Desporto (CSD) para que se tenha um pilar estruturado referente à infraestrutura para os CTs.

Por já estar documentado e disponível na literatura científica, a pesquisadora da Unicamp utilizou como referência os requisitos mínimos da Espanha para categorizar um CT como Centro de Excelência Esportiva e de Alto Rendimento.

Mariana Antonelli assinala que os critérios mínimos espanhóis são: dispor de instalações de caráter multidisciplinar ou monodisciplinar, com equipamentos esportivos de alta qualidade; contar com alojamentos, residências amplas, localizadas em áreas silenciosas, próximas dos espaços esportivos e de centros educacionais; possuir áreas de estudo e de convivência; dispor de órgão de gestão administrativa que controle o funcionamento da instalação; contar com equipe técnica esportiva e de serviço médico esportivo para a prevenção e tratamento de lesões, enfermidades e de reabilitação física; dispor no local de departamentos científicos e de investigação que ajudem tanto aos treinadores como aos esportistas nos seus objetivos de rendimento; e contar com um centro educacional, na própria instalação ou próximo a ela.

Instalacoes Olimpicas

“Encontramos, pontualmente, uma série de limitações nos centros pesquisados. Muitos gestores têm outras funções que não a de gestor, além da falta de formação acadêmica adequada. Isso caracteriza uma gestão amadora e não profissional. Há falta de equipamentos de qualidade compatíveis com exigências de excelência, acarretando condições precárias de treino. Apenas no Centro de Voleibol há, na própria instalação do CT, um centro educacional voltado aos atletas que treinam por um período mais longo. Há, no geral, uma carência de pesquisas científicas e parcerias com universidades e instituições de pesquisa”, revela.

A educadora física também encontrou infraestrutura precária, sem manutenção adequada e sem medidas nos padrões oficiais de treinamento. Segundo ela, constataram-se, ainda, falta de serviços multidisciplinares; inexistência de planejamento a médio e longo prazo; e ausência, em muitos casos, de interlocução entre o esporte de alto rendimento, o esporte de base e a iniciação esportiva. Neste último ponto, Mariana Antonelli ressalva que em alguns centros foi possível perceber “um diálogo” entre o esporte de base e o de alto rendimento.

“A inexistência de serviços multidisciplinares no local, como tratamento médico, fisioterápico, psicológico e nutricional, obriga o atleta a buscar outro lugar que não o CT para tratamentos e acompanhamentos que deveriam ser feitos e oferecidos dentro da própria instalação. No que tange à política, verificou-se falta de clareza de critérios das confederações sobre como se dá o funcionamento do CT e que tipo de atleta, por exemplo, pode frequentá-lo. Não há também definição sobre as competências dos profissionais que atuam no local.”

Plano Brasil Medalhas

Como critério para a escolha dos nove centros de treinamento de alto rendimento, Mariana Antonelli se baseou no Plano Brasil Medalhas, elaborado pelo Ministério do Esporte em 2012. Por meio do Plano, cujos investimentos totais ultrapassam R$ 1 bilhão, nove centros esportivos receberam recursos adicionais da ordem de R$ 661 milhões. Segundo o Ministério do Esporte, os investimentos extras destinam-se a CTs cujas modalidades têm maior expectativa de conquistar medalhas olímpicas em 2016.

“A ideia do governo brasileiro foi investir ainda mais nas modalidades que já tinham chance de ter medalha. Portanto, por esta lógica, os esportes com menos chances ficaram com menos investimentos”, problematiza a pesquisadora.

Os centros que foram analisamos por ela são: Centro de Desenvolvimento do Voleibol Brasileiro (CDV), em Saquarema (RJ); Centro Pan-americano de Judô, em Lauro de Freitas (BA); Centro de Treinamento de Boxe, em Santo Amaro (SP); Núcleo de Alto Rendimento (NAR), em Santo Amaro (SP); Centro de Treinamento Time Brasil (Lutas/Natação/Judô), em Deodoro (RJ); Centro de Atletismo (Arena Caixa), em São Bernardo (SP); Centro de Treinamento de Canoagem Slalom, em Foz do Iguaçu (PR); Centro de Desenvolvimento do Handebol, em São Bernardo (SP); e Centro de Ginástica Artística, em São Bernardo (SP).

A educadora física investigou também, como piloto para a metodologia, o Centro de Treinamento de Alto Rendimento (Cear), localizado em Campinas, no complexo Swiss Park. Ela esclarece que os critérios de inclusão para escolha dos CTs estudados foram contemplar modalidades com expectativa de medalhas pelo Ministério do Esporte, além de atender atletas de seleções brasileiras. “Já os critérios de exclusão foram estar em fase de construção e não contemplar o esporte de alto rendimento.”

Pesquisas futuras

Mariana AntonelliA metodologia do estudo da FEF contemplou pesquisa bibliográfica e documental, entrevistas semiestruturadas, questionários, fotos, filmagens e diários de campo. Mariana Antonelli visitou todos os CTs analisados. Durante a visita, a pesquisadora realizou entrevistas semiestruturadas com os gestores e conversas informações com atletas, treinadores e funcionários.

Houve, conforme a educadora física da FEF, categorização dos dados para análise de conteúdo. As informações obtidas foram estruturadas em três categorias: infraestrutura física e equipamentos; estrutura organizacional; e recursos humanos. Mariana Antonelli acrescenta ainda que o objetivo é que o estudo conduzido por ela não se esgote com a dissertação de mestrado.

“A intenção é continuar visitando alguns centros. Existem outros centros que ainda estão ficando prontos e que eu gostaria de visitar. No total são quatro: o Centro de Formação Olímpico de Fortaleza, que abrange 26 modalidades; o complexo da Barra da Tijuca; o complexo de Deodoro, que é o centro olímpico mesmo; e tem mais um que não é púbico, que é a Esefex (Escola de Educação Física do Exército), também do Rio de Janeiro. Portanto, a ideia é visitar também estes centros e, com os resultados do Brasil nos Jogos Olímpicos, tentar compreender em que medida o local de treinamento e a infraestrutura contribuíram ou não para os resultados.”

Publicação

Dissertação: “Diagnóstico dos centros de treinamento de alto rendimento do Brasil cujas modalidades atendidas têm expectativa de conquista de medalhas nos Jogos Olímpicos de 2016”
Autora: Mariana Antonelli
Orientador: Roberto Rodrigues Paes
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)
Financiamento: Fapesp

Texto: Silvio Anunciação
Fotos: Antonino Perri
Divulgação
Roberto Castro/Ministério do Esporte
Miriam Jeske/Brasil2016.gov.br
Edição de Imagens: André da Silva Vieira
Jornal Da Unicamp

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