Voluntários responderam a um questionário online com perguntas sobre sua formação

Homens formados em educação física e sem especialização em gestão esportiva ou áreas correlatas. Essas são as características da grande maioria dos 22 gestores de clubes esportivos da cidade de São Paulo analisados na pesquisa de Cacilda Mendes dos Santos Amaral, doutoranda na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP.  No trabalho, intitulado Perfil do Gestor de Clubes Socioesportivos da Cidade de São Paulo, a pesquisadora compara dados que obteve em 2014 a um estudo de recorte semelhante realizado em 2006 pela professora Flávia da Cunha Bastos, sua orientadora. O estudo tem como coautora a mestranda Rosian Raduan Alexandrino, também da EEFE

Para esta pesquisa, Cacilda pediu aos voluntários que respondessem a um questionário online com perguntas sobre sua formação, dados demográficos e em relação a sua atuação. Os resultados apresentam profissionais com idade entre 30 a 59 anos, com destaque para a faixa de 50 a 59 anos. A comparação com os dados obtidos há oito anos mostra uma estagnação no cargo. Se em 2006, este profissional não buscava cursos de extensão e especialização para aprimorar seu ofício, a tendência continuou a mesma em 2014. A diferença é que, antes, os gestores tinham formação muito diversificada e hoje em dia esses profissionais são advindos da área da Educação Física.

Essa estagnação se reflete no salário: o pagamento obtido pelos gestores subiu, mas apenas de forma a acompanhar a inflação do período. Além disso, observa-se que pouco se evoluiu em relação à própria atuação do profissional em sua instituição. Os questionários apontaram para o fato de que esse funcionário não toma parte em discussões e decisões acerca do planejamento e das estratégias adotadas pelo local onde trabalha, sendo que sua atuação se restringe ao operacional. Como a pesquisa adotou uma abordagem exploratória e descritiva, os resultados não permitem confirmar as causas para tais constatações. De qualquer forma, a hipótese da pesquisadora é de que uma das razões pelas quais ele não participa dessas decisões seja sua falta de formação especializada.

Sem incentivo
Os motivos que levam o gestor dos clubes socioesportivos a não buscar aprimoramento profissional por meio de cursos de extensão ainda é uma incógnita. Cacilda explica que, dentre as razões plausíveis, é possível que haja, por parte da empresa, muito pouco ou nenhum incentivo neste quesito. Outro fator que talvez leve à pouca especialização é a falta de tempo — apesar de a maioria dos gestores possuir dedicação semanal acima de 35 horas, observa-se um número considerável que exerce outra atividade profissional à parte.

Comparando os dois estudos — de 2006 e de 2014 —, nota-se que a presença feminina ainda é muito rara no cargo. No primeiro trabalho foram analisados 10 profissionais e nenhum deles era mulher. Em 2014, apenas dois eram do sexo feminino. A doutoranda destaca que é difícil ver mulheres ocupando cargos gerenciais em instituições esportivas como um todo, não apenas em clubes. A resposta para justificar essa ausência talvez esteja em outro ponto levantado pela pesquisa: o tipo de ascensão na carreira.

As respostas do questionário apontam que a maioria dos profissionais foi admitida no cargo por meio de promoção ou por já pertencerem ao quadro de funcionários. Na opinião da pesquisadora, a mulher ainda enfrenta preconceito para atuar em algumas áreas como o futebol, por exemplo. “Se a mulher não está nem no corpo de funcionários da instituição, é complicado ela ascender e se destacar, chegando a um cargo gerencial”, diz.

Cacilda enfatiza que a intenção de seu estudo não é simplesmente apontar erros, mas entender a realidade para propor ações. “Conhecer e acompanhar a evolução do perfil profissional dos gestores de clubes sócio-esportivos pode servir de base para estudos futuros em outras realidades, ou mesmo um estudo mais aprofundado a respeito da formação e aperfeiçoamento deste profissional, como ela vem acontecendo nos últimos anos de desenvolvimento da gestão do esporte no Brasil e quais os obstáculos enfrentados pelos gestores em sua profissionalização”, afirma.

O estudo integra parte de seu mestrado — defendido na EEFE em 2014 — e foi apresentado no 6º Congresso Brasileiro e 3º Congresso Internacional sobre Gestão do Esporte, realizado dias 27 e 28 de Novembro no Rio de Janeiro. No evento, a pesquisa ganhou o Prêmio Lamartine DaCosta, destinado a pesquisadores em gestão do esporte. Em sua tese de doutorado, seu enfoque são os modelos de gestão das instalações esportivas. O objetivo é abranger a amostra para instituições de fora do município de São Paulo.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mais informações: (11) 3091-2247

Paula Bassi, da Seção de Relações Institucionais e Comunicação da EEFE
Agência USP

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