“Virgínia Schall tinha um olhar apurado sobre o óbvio; o comum também era de seu interesse”, diz Lúcia Rotemberg, do Instituto Oswaldo Cruz durante homenagem à pesquisadora

Curiosa, persistente, inovadora, generosa, pioneira e criativa. Esses foram alguns dos adjetivos que permearam a fala de amigos, colegas e familiares de Virgínia Schall (1954-2015) durante o evento em homenagem à pesquisadora, que de agora em diante emprestará seu nome à Tenda da Ciência. Da concepção à implantação, Virgínia foi peça chave para a criação do espaço. Por meio de discursos carregados da emoção de quem conheceu e trabalhou com Virgínia Schall, os convidados puderam relembrar ou conhecer a personalidade multifacetada da mulher que tanto contribuiu com a divulgação da ciência na Fiocruz e no Brasil.

Chefe do Museu da Vida, departamento responsável pela tenda, Diego Bevilaqua relacionou o trabalho de Virgínia com os resultados alcançados pela integração entre arte e ciência na Fiocruz. A Tenda da Ciência já abrigou mais de 10 produções teatrais, atingindo um público estimado de 350 mil pessoas desde sua implantação em 1997. Para ele, no entanto, a obra da pesquisadora é difícil de ser contabilizada: “A tenda é sem dúvida um dos símbolos materiais da presença de Virgínia, mas seu trabalho está espalhado pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e fora dos portões da Fundação.

A mineira de Montes Claros ingressou no antigo Departamento de Biologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em 1985, onde trabalhou ao lado do pesquisador Pedro Jurberg, então chefe do setor. Ele evocou a imagem de uma jovem Virgínia, sempre dedicada à criação, fosse na pesquisa ou em outra área. “Uma vez, ao chegar, deparei-me com ela, que carregava uma maquete com o dobro do seu tamanho pelos corredores do [pavilhão] Lauro Travassos. Era o projeto embrionário da Tenda da Ciência”, relembrou.

Outra característica da pesquisadora era elaborar uma avalanche de projetos, dia e noite, em um processo quase incansável, e uma produção incessante. Foi responsável pela criação do atual Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde (Leas) no IOC, mais tarde expandido para o Centro de Pesquisas René Rachou - Fiocruz Minas (CPqRR), onde atuava desde 1999.

Pesquisa, educação e divulgação científica marcaram carreira

Virgínia ganhou 23 prêmios, entre os quais o prêmio José Reis de divulgação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1990. “A atuação da Virgínia ficará marcada pelo pioneirismo, a interdisciplinaridade, sobretudo ao trabalhar temas de importância para a saúde de forma lúdica”, disse Simone Souza Monteiro, atual chefe do Laboratório criado por Virgínia.

Simone contou que na época em que alguns bolsistas – ela, inclusive – orientados por Virginia propuseram a criação de um jogo educativo sobre a Aids, a orientadora não somente apoiou, mas embarcou no projeto. O Zig-Zaids foi concebido a partir de um estudo que abordava a visão de escolares sobre o tema. “A Virgínia formou muitas pessoas, e eu fui uma delas. É um privilégio ter convivido com sua ternura, seu afeto, sua competência. Nos resta o compromisso de espalhar seu grande legado para a ciência e para a humanidade”, destacou Simone.

O patrimônio deixado por Virgínia estende-se para além do campus da Fiocruz em Manguinhos, no Rio. Na Fiocruz Minas, além de formar mestres, doutores e alunos de iniciação científica, elaborou projetos, livros, e coordenou o primeiro programa de pós-graduação, em 2002. “Quando conheci a Virgínia, estava ainda na iniciação científica, mas já reconhecia essa capacidade agregadora. Foi ela quem conseguiu reunir os pesquisadores em torno da criação do programa da pós-graduação. Em Minas, ela deu continuidade às construções dela em Manguinhos”, destacou a pesquisadora da Fiocruz-Minas Denise Pimenta, que atua no Laboratório onde Virginia conduziu suas atividades mais recentes.

A diretora do Centro de Pesquisas René Rachou - Fiocruz Minas, Zélia Profeta, falou sobre o papel da pesquisadora, celebrado nos 20 anos em que ela trabalhou na unidade da Fiocruz em Minas. “Virgínia chegou a Belo Horizonte com muita disposição para o trabalho. Em 2001, ela criou o Laboratório de Educação em Saúde e trabalhou muito a questão da popularização da ciência em vários bairros da cidade. Implementou também o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, o Pibic, no René Rachou”, apontou Zélia, ao destacar também o papel importante desempenhado por Virgínia na criação dos programas de pós-graduação em Ciências da Saúde e em Saúde Coletiva.

Elementos do cotidiano serviam de inspiração a Virgínia Schall

Lúcia Rotemberg, do Leas/IOC, contou que do objeto inicial de pesquisa de Virgínia – o comportamento do caramujo hospedeiro do parasita da esquistossomose –, originaram-se outros trabalhos, entre os quais estudos sobre a estrutura ocular do animal, além da produção de material educativo, com linguagem acessível ao público infanto-juvenil, e até mesmo uma patente.

“Virgínia tinha um olhar apurado sobre o óbvio; o comum também era de seu interesse”, disse Lúcia. Durante um passeio de férias, no Nordeste, Virginia recebeu a informação de um taxista de que a planta coroa-de-cristo, abundante no local, era tóxica. Passou a investigá-la e descobriu a sua propriedade moluscicida, que poderia ser utilizada no controle do caramujo. “Ela aproveitava esses elos para produzir seu trabalho”, pontuou Lucia.

Carla Gruzman, do Museu da Vida, destacou o esforço da pesquisadora em promover a participação da população em decisões mais políticas e éticas: “Ela queria ir além e criar novas formas de falar para os diversos públicos”. Parceira de Virgínia na publicação de diversos artigos e trabalhos, Miriam Struchiner, do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Nutes/UFRJ), fez um resgate de dez anos de troca de e-mails com a pesquisadora e contou o quanto isso a comoveu: “Embora não tenhamos partilhado o cotidiano, tivemos uma relação intensa de troca de ideias, de princípios, de cumplicidade. Sinto-me emocionada de fazer parte dessa história”.

Durante o evento, o diretor da COC, Paulo Elian, destacou a paixão pelo trabalho que caracterizava Virgínia. “Falar de Virgínia é falar de um brilho no olhar [...]. Virgínia foi uma das grandes personagens da Fiocruz contemporânea no campo da educação e da divulgação em ciência”, declarou. “Nomear a Tenda da Ciência com o nome de Virgínia é um ritual estratégico pelo seu significado político, simbólico e cultural”.  Segundo Elian, a Tenda da Ciência Virgínia Schall torna-se um lugar de memória e da promoção do encontro entre ciência, educação e cultura.

“Virgínia Schall abordava educação como força transformadora”

Diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Wilson Savino evocou um dos elementos que marcaram a trajetória de Virgínia: a promoção da educação em saúde a partir de metodologias lúdicas. “Virgínia trouxe algo muito poderoso para a instituição como um todo, que é a educação através da alegria, seja ela em forma de peças, jogos ou poesia. A peça apresentada aqui na tenda reflete bem a homenagem, porque é carregada o tempo todo de emoção. Temos que nos emocionar com a perda, mas, sobretudo, com a vida”, comentou, em referência sobre o espetáculo O rapaz da rabeca e a moça Rebeca, encenado no início da homenagem.

A vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, descreveu a pesquisadora como uma pessoa dedicada e criativa, que contribuiu para uma visão mais integrada da instituição no âmbito da ciência, da educação e da arte. “Virgínia participou de vários projetos importantes na Fiocruz no campo da pesquisa e da educação, e foi uma construtora de diversos espaços institucionais”, lembrou Nísia. “É o momento de fazer dessa comemoração uma visão de futuro. Virgínia vive! Vive, porque coloca a educação como uma força transformadora, mensagem principal da cientista e educadora”, afirmou. “Esse espírito de uma educação que leve a uma prática reflexiva é que devemos manter vivo, recuperando as boas contribuições da ciência e a colocando-a efetivamente a serviço da vida”.

Familiares recebem homenagem

O evento que deu o nome de Virgínia Schall à Tenda da Ciência foi marcado ainda por uma homenagem aos seus familiares pelo presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, e pela vice-presidente Nísia. Na oportunidade, Gadelha destacou a contribuição da pesquisadora para ampliar o acesso da população à Fiocruz.

“Antes do Museu da Vida, o que tínhamos eram algumas peças de acervo da história da Fundação enclausurados em uma sala no Castelo, só exibidas quando recebíamos alguma visita ilustre. Pareciam aquelas salas de visita que eu via durante minha infância, no Nordeste. Era um lugar que ficava separado da casa e que só se utilizava quando vinha alguém de fora”, relembra. O presidente pontuou ainda que foi de Virgínia a ideia de transformar a tenda em uma estrutura permanente. O espaço fora utilizado pela Fiocruz durante a Conferência Rio 92.

As homenagens foram recebidas pela bióloga Brunah Schall e Pinto, filha de Virgínia, que também atua no campo da divulgação científica, e Roberto Emerson de Matos Pinto, marido da pesquisadora. “Fico muito emocionada e feliz em ver que minha mãe está viva na memória de tantas pessoas, que ela deixou uma marca”, declarou Bruna.

Após o descerramento da placa que rebatiza a Tenda da Ciência com o nome de Virgínia Schall, a irmã da pesquisadora agradeceu a homenagem e lembrou a sua trajetória. "Ela sempre fazia as coisas, mesmo que por um caminho alternativo. Não aceitava não, mas também não fazia barulho. Conseguia com educação tudo o que sonhava", disse Ana Maria Schall Gazzola. Sobrinho de Virgínia, Marcello Augusto Schall Gazzola destacou a influência positiva que ela exerceu sobre profissionais que atuam em áreas afins do conhecimento e relembrou o convívio com a tia. "Fiquei muito surpreso e feliz com a homenagem às contribuições que ela fez [...]. Eu não conhecia a Virgínia Schall; para mim, ela foi sempre a tia Gina", emocionou-se.

A atividade foi promovida pela Vice-Presidência de Ensino, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), pelo do Centro de Pesquisas René Rachou - Fiocruz Minas, pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

Fundação Oswaldo Cruz
Fiocruz

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