site do Observatório Saúde

Uma verdadeira aula de jornalismo e de análise midiática. O Centro de Estudos do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), realizado na última terça-feira (7/6), que teve como objetivo o lançamento do site do Observatório Saúde na Mídia, projeto do Laboratório de Comunicação e Saúde do Icict (Laces/Icict), ofereceu uma oportunidade preciosa de diálogo entre mídia e academia. O evento reuniu no auditório do Icict/Fiocruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, a jornalista Ana Lúcia Azevedo, ex-editora de ciência e saúde do jornal O Globo, o jornalista Vitor Orlando Gagliardo, da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), e a doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo Cláudia Malinverni.

Na abertura da mesa, Katia Lerner, coordenadora do Observatório Saúde na Mídia, comemorou o lançamento, que encerra um ciclo de oito anos e coloca novos desafios para o futuro do projeto. “Esse é um passo importante para levar o trabalho do Observatório a um público mais amplo, um projeto que não está na internet fica invisível”, avaliou. Coordenadora executiva do projeto, Izamara Bastos também destacou a importância desse marco e reforçou o papel do Observatório. “Acredito que a mídia tradicional será sempre importante na formação de sentidos sobre a sociedade e a saúde”, ponderou. “Nossa intenção é, diante do difícil cenário, contribuir para a consolidação do campo e para os esforços em prol da democratização da comunicação, em especial no campo da saúde, e da melhoria do SUS”, finalizou.

Jornais e epidemias

Com uma experiência de 27 anos de jornal o Globo, 25 deles na cobertura de ciência e saúde, Ana Lúcia Azevedo falou sobre o amadurecimento da cobertura do tema nos jornais brasileiros e sobre a própria organização do fazer jornalístico em seu dia a dia. “As pautas precisam ser organizadas em editorias, em algum momento isso é compartimentado, se falar sobre funcionamento de um hospital, vítimas, o assunto vai sair em editorias locais; se tiver um viés mais político, vai pra nacional”, ponderou. “São decisões do dia a dia, a dengue começou em 'Ciência', foi para editoria 'Brasil' e depois se concentrou em 'Rio', com a recorrência de epidemias. Já a Aids, até pela importância do noticiário internacional, sempre ficou em 'Ciência', por exemplo.”

A jornalista também destacou o caso atual da zika, que classificou como uma experiência muito diferente da cobertura cotidiana da área, uma oportunidade de ver o conhecimento sendo construído de perto. “A zika foi a doença que causou mais preocupação desde a Aids. Nós, jornalistas, ficamos perplexos com a perplexidade dos cientistas diante do problema, no início acreditamos que havia um exagero nessa reação”, confessou ela. “Tem sido fascinante acompanhar esta epidemia desde o início, é uma situação diferente em que o pesquisador não sabe muito além do que você sabe.”

Em razão do grande espaço conquistado pela doença no jornal, mesmo em meio a um conturbado noticiário político, ela acredita que o episódio pode ajudar a reforçar nos veículos de comunicação a importância da saúde, assunto que nem sempre consegue destaque. A jornalista também ressaltou a importância da seriedade com que as pautas precisam ser tratadas. “Credibilidade é tudo. Na área de saúde o cuidado deve ser muito grande, porque o  efeito também é muito grande”, ponderou.

Comunicação pública em pauta

A valorização da comunicação pública foi o tom da fala do jornalista Vitor Orlando Gagliardo. Ele valorizou o empenho dos funcionários concursados no atual momento de turbulência política e, mesmo reconhecendo erros no período, reforçou a determinação de todos em prol do fortalecimento da comunicação pública no Brasil. “A EBC não é de um governo ou de outro, ela é do povo brasileiro, precisamos fortalecê-la”, argumentou. “Ficamos chateados de ver jornais dizendo que a EBC gasta dinheiro demais. Temos poucos recursos, a falta de estrutura atrapalha, mas nossa intenção é de nos destacar pela qualidade de nosso trabalho.”

Um dos maiores problemas da TV Brasil, para o jornalista, é a indefinição de suas prioridades e de sua própria forma de atuação. “Se ficarmos presos ao factual, como agora, produzindo matérias de um minuto e meio, vamos sempre perder para as emissoras comerciais, com mais estrutura. Mas esse não deve ser o nosso papel”, ponderou. “Por que não focar em matérias maiores, com mais tempo para trabalhar os assuntos, aprofundar, discutir, sem nos importarmos em ter ganchos para abordar determinados assuntos que são de interesse da população? É uma questão de prioridades.”

O jornalista criticou, também, a pouca variedade de fontes ouvidas pela imprensa e a forma como a mídia tradicional aborda o Sistema Único de Saúde (SUS). “A imprensa só busca notícia negativa, faz matérias desequilibradas. Precisamos falar mais de saúde, mas queremos mostrar e divulgar o que é bom também, sem deixar de criticar o que tem problemas”, afirmou.

A mídia sob análise

Um contraponto da academia foi dado pela doutora em saúde pública Cláudia Malinverni. No mestrado e no doutorado, a pesquisadora estudou processos de produção de sentidos na epidemia midiática da febre amarela de 2007 e 2008. A pesquisadora demonstrou como os jornais dedicaram à doença um enorme espaço (na Folha de São Paulo, seu objeto de estudo, foram quase 50 edições seguidas de cobertura e 15 capas), sempre a retratando como um inimigo letal, e influenciaram a explosão da busca pela vacina contra a febre amarela na ocasião.

“Na Folha, a doença se espalhou por todo o jornal, capa, ‘Esporte’, ‘Ilustrada’, ‘Opinião’, criou-se um enorme efeito de onipresença. O mesmo tipo de cobertura foi feito por outros veículos, gerando efeitos de acumulação e de consonância”, avaliou. “A fabulação midiática colocou a vacina como uma poção mágica e recomendou seu uso irrestrito, levando a uma explosão da demanda nacional e ao caos no atendimento. Só no início de fevereiro de 2008 é que o agendamento começou a perder força, pelos números de reações adversas: mais de 40 casos, contra cerca de 20 de febre amarela causada pela picada do mosquito”, relembrou.

Além de analisar reportagens do jornal, a pesquisadora também entrevistou jornalistas para entender melhor o cotidiano dentro das redações. Os resultados apontaram diversos fatores que influenciam o trabalho do dia a dia, desde a precarização da profissão, até constrangimentos auto-impostos pela classe - por exemplo, o fato de os próprios jornalistas não sugerirem determinadas matérias ou enfoques pela certeza de que o jornal não as publicaria ou por achar que com outro viés ganharia maior destaque, dada a linha editorial do veículo.

O episódio demonstra como a cobertura noticiosa sobre um episódio é constitutiva daquela realidade e não um mero relato - e reflete uma infinidade de fatores. “Há muita coisa envolvida no fazer jornalístico, constrangimentos pessoais, sociais, culturais e ideológicos, fatores mercadológicos, econômicos, entre outros”, afirma Malinverni. Outra questão observada pela pesquisadora é política: a tendência de fazer “sangrar” gestões às quais o jornal se opõe, com a manutenção de uma pauta prejudicial em evidência por longos períodos. “Nesse episódio da febre amarela, percebemos também esse componente, afinal como se mantém a febre amarela no jornal por 48 edições seguidas, sem indícios de epidemia real?”, indaga a pesquisadora.

Cláudia Malinverni destaca, porém, que não é só a grande mídia que erra. Pelo contrário: o episódio da febre amarela também reflete um problema grave de comunicação do SUS. “O modelo de comunicação do sistema, ou a falta dele, é muito ruim, Não existe uma política nacional na área. A comunicação é entendida de forma instrumental, o que gera fragilidade nas estruturas, lógica de balcão de atendimento de demandas e funcionamento de forma reativa”, defende. “A linguagem e o modo de circulação de informações oficiais foram apontadas como problemas, sobretudo o conceito de área transição viral, definidor da população-alvo da vacina.”

Sobre o Observatório

O debate em curso no evento foi um belo “gostinho” do trabalho do Observatório. No novo site é possível encontrar toda a produção científica de seu corpo de pesquisadores, formado por profissionais do Laces e de instituições atualmente parceiras, a Fiocruz Brasília, a Fiocruz Pernambuco e a Universidade Federal do Espírito Santo. Além de artigos, dissertações e teses, também estão disponíveis textos de análise opinativos e vídeos que descrevem melhor a proposta e as metodologias utilizadas. Semanalmente, novas análises serão publicadas no espaço, sempre na tentativa de dar conta das questões de saúde em evidência na mídia. O site também reúne referências a textos publicados em outros espaços na rede sobre a área de comunicação e saúde, além de destacar produções de outros grupos que se dedicam ao estudo da área.

Marcelo Garcia
Icict/Fiocruz

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