Celso Lafer, presidente da FAPESP (à esquerda) foi recebido pelo presidente da comissão, deputado Orlando Bolçone

As atividades da FAPESP ao longo do ano passado, em especial o apoio a pesquisas em áreas estratégicas para o Estado de São Paulo, como o combate à dengue e o abastecimento de água, foram apresentadas na quarta-feira (17/07) pelo presidente da Fundação, Celso Lafer, à Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação da Assembleia Legislativa, em reunião no plenário Tiradentes.

Celso Lafer foi recebido pelo presidente da Comissão, deputado Orlando Bolçone. Também participaram da reunião o deputado Fernando Capez, presidente da Alesp, e os deputados Barros Munhoz, Carlos Neder, Davi Zaia, Delegado Olim e Reinaldo Alguz, membros efetivos da Comissão.

Bolçone destacou o papel da pesquisa científica no desenvolvimento de São Paulo. “Sem conhecimento não é possível avançar. Por apoiar fortemente os pesquisadores e as instituições que se dedicam a desenvolver o conhecimento em torno de questões tão importantes para São Paulo, a FAPESP é a instituição mais importante para a constituição do futuro do estado”, disse o deputado.

Lafer, por sua vez, destacou a importância da integração da comunidade científica e acadêmica com o Legislativo e o Executivo na própria concepção e criação da FAPESP. Anos depois, por ocasião da Constituinte Estadual de 1988-1989, o Legislativo também teve papel decisivo na ampliação do percentual de recursos destinados à Fundação, de 0,5% a 1% dos impostos estaduais.

“Esses recursos provenientes de percentuais da arrecadação do Estado fazem com que a FAPESP automaticamente se ajuste às circunstâncias orçamentárias, para cima e para baixo, conforme as flutuações da atividade econômica”, disse Lafer. Isto assegura a continuidade das atividades de pesquisa. Destacou ainda que 95% ou mais do orçamento da Fundação “são dirigidos para a atividade fim, que transfere recursos diretamente à pesquisa científica e tecnológica”.

Dengue

Durante a reunião, Lafer disse que o trabalho da FAPESP afeta diretamente a vida da população e apresentou aos deputados exemplos do apoio contínuo a estratégias científicas para o enfrentamento de questões urgentes no Estado de São Paulo – entre elas a dengue, que vem recebendo atenção da instituição há mais de duas décadas.

De acordo com ele, entre 1993 e 2015 a FAPESP apoiou 322 projetos de pesquisa relacionados à doença, dos quais 264 já foram concluídos. O presidente da FAPESP citou uma série de trabalhos com resultados promissores.

“Com o apoio da FAPESP, uma vacina contra dengue está em desenvolvimento no Instituto Butantan e aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a terceira fase de estudos clínicos, que inclui testes em seres humanos”, enfatizou.

Lafer falou também de pesquisas em andamento nas universidades paulistas, citando trabalhos conduzidos por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“Na Unesp de Botucatu foram descobertos fatores que tornam o mosquito Aedes aegypti refratário ao vírus da dengue, o que poderá levar a estratégias que ajudem a bloquear a transmissão da doença. Já na de Rio Claro foi criada uma substância capaz não só de repelir o mosquito como matá-lo. Sua eficácia já foi confirmada em laboratório e o próximo passo é baratear o processo de criação para permitir sua produção industrial”, contou.

Uma pesquisa da UFSCar e da USP identificou a curcumina, molécula presente no açafrão, que prejudica o desenvolvimento das larvas do Aedes aegypti e impede que elas cheguem à fase adulta, e o Instituto de Física de São Carlos é capaz de detectar a doença antes de surgirem seus primeiros sintomas.

Foram citadas ainda pesquisas conduzidas no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que já produz mosquitos esterilizados geneticamente para controlar infestações e agora investiga os hábitos das fêmeas transmissoras dos vírus, e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que recomenda desde 2009 a adoção do exame de sangue para detectar o antígeno NS1 como o método mais rápido e eficaz para o diagnóstico de dengue.

“Vejam que no controle do mosquito, no diagnóstico e na imunização, a contribuição da pesquisa financiada pela FAPESP tem sido importante para a tentativa de resolução desse problema”, disse Lafer.

O dirigente também tratou de alguns dos 11 mil estudos financiados pela FAPESP sobre temas relacionados à água, outra questão enfrentada pelas políticas públicas no estado.

“São inúmeros os enfoques, como tratamento, análise de qualidade, reservatórios, mananciais, abastecimento, efeitos de estiagem, saneamento básico, regimes de chuvas, consequências de alagamentos, sensores que permitem prever inundações iminentes, impacto de canalizações de rios e córregos”, disse.

Pesquisa voltada à aplicação

Sobre as atividades da FAPESP em 2014, Lafer destacou que foram contratados 11.609 novos projetos de pesquisa e mantidos o apoio às 11.179 bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado vigentes, além do financiamento a projetos em seus diversos programas especiais.

“A FAPESP financia a pesquisa em todos os campos do conhecimento e não faz distinção entre pesquisa básica e pesquisa aplicada porque sabe que as duas são sempre interdependentes”, disse Lafer, acrescentando que, apesar disso, “o apoio com vistas a aplicações tem recebido nos últimos anos mais da metade dos recursos totais da FAPESP”, o que correspondeu, em 2014, a 52% do total de aproximadamente R$ 1,2 bilhão.

Destacou ainda os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela FAPESP, pela sua amplitude. “Os CEPIDs são apoiados por períodos de até 11 anos e têm como missão desenvolver investigação fundamental ou aplicada, com impacto comercial e social relevantes, contribuir para a inovação por meio de transferência de tecnologia e oferecer atividades de extensão para professores e alunos do ensino fundamental e médio e para o público em geral”, disse.

São 17 CEPIDs em atividade, sediados em cinco cidades paulistas – São Paulo, São Carlos, Campinas, Ribeirão Preto e Araraquara – e dedicados à pesquisa em áreas como obesidade, biomedicina, problemas urbanos, alimentos, óptica e fotônica, matemática aplicada à indústria, ciências computacionais, genoma humano, terapia celular, células-tronco, doenças inflamatórias, fármacos, neurociência e novos materiais, entre outros.

Lafer também chamou a atenção para a crescente interação da FAPESP com o setor produtivo por meio de iniciativas como o Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Em 2014 foram investidos R$ 23,4 milhões em financiamentos nessa modalidade, 51% a mais do que em 2013.

“Trata-se de um aspecto da atuação da FAPESP que tem a ver diretamente com a vida e o bem-estar da população paulista por estimular a inovação em pequenas empresas. Desde a criação do PIPE, em 1997, 3.410 projetos foram apoiados em 120 cidades do estado, resultando na criação de milhares de empregos e incalculável aumento da atividade econômica nesses municípios”, destacou.

O presidente da Fundação falou em seguida do Programa FAPESP de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), que tem como objetivo intensificar o relacionamento entre as universidades e os institutos de pesquisa de São Paulo com empresas localizadas no estado, em outras regiões e no exterior.

“Desde o seu lançamento, em 1995, o PITE já aprovou 344 projetos de instituições paulistas de pesquisa com empresas como Microsoft, Agilent, Vale, Braskem, Biolab, AstraZeneca, CSN, Petrobras, Rhodia, Suzano e TetraPak, entre outras”, contou.

Foram destacados ainda os centros de pesquisa em engenharia que a FAPESP tem criado – ou estão em processo final de constituição – com empresas para áreas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico.

“São programas de longo prazo, de vários anos, com investimentos de monta – entre eles, o Centro de Pesquisa para Inovação em Gás Natural, com a BG Brasil, o Centro de Excelência para Pesquisa em Química Sustentável, com a GSK, o Centro de Pesquisa Aplicada em Bem-Estar e Comportamento Humano, com a Natura, e o Centro de Pesquisa em Engenharia Urbano Ernesto Stumpf, com a Peugeot Citroën.”

Transparência

Para Celso Lafer, a autonomia de que a FAPESP desfruta é um dos pilares para o bom desempenho de sua missão. O presidente enfatizou a importância da transparência nesse processo.

“Autonomia neste caso não é o mesmo que a autarquia do isolamento. A autonomia da FAPESP não é autorreferida. Ela tem uma contrapartida, que é a rigorosa prestação de contas à sociedade, da qual este encontro faz parte”, afirmou.

O presidente da FAPESP falou ainda do processo de internacionalização pelo qual passa a instituição, que tem hoje 135 acordos vigentes com instituições de outros países.

“Como todos sabemos, mais do que nunca, a ciência só é de fato efetiva quando feita em cooperação com outros países. A FAPESP nos últimos oito anos firmou 130 novos acordos de cooperação com universidades, agências de financiamento, institutos de pesquisa e empresas do exterior e, com isso, colocou definitivamente São Paulo no mapa mundial da ciência, aumentando o impacto da pesquisa produzida no estado e reforçando o soft power paulista.”

Diego Freire
Agência FAPESP

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