Global Research Council

A interação entre universidades e empresas no Brasil, além de ter impactos sociais, econômicos e ambientais, também exerce efeitos positivos na produtividade acadêmica. Pesquisadores e grupos de pesquisa que se engajam em colaborações com o setor produtivo são cientificamente mais produtivos, ou seja, o impacto intelectual e científico da parceria é positivo.

A constatação, resultado de estudo conduzido por Renato de Castro Garcia, professor no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi apresentada na 8ª Reunião Anual do Global Research Council (GRC).

O evento, organizado pela FAPESP, pelo Consejo Nacional de Investigaciones Científicas e Técnicas (Conicet), da Argentina, e pela German Research Foundation (DFG), da Alemanha, reúne até 3 de maio, em São Paulo, líderes de agências de fomento de dezenas de países.

O estudo foi publicado na revista Science and Public Policy e é resultado de um questionário respondido por 1.005 pesquisadores e representantes de centros de pesquisa, que declararam ter interação com o setor produtivo e que estavam cadastrados em base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os dados são de 2002 a 2008.

“Dividimos os pesquisadores entre aqueles que interagiram mais e os que interagiram só uma vez com o setor produtivo. Descobrimos que os fatores comerciais são importantes para os dois grupos. Porém, aqueles que têm uma interação mais constante dão mais importância para os benefícios intelectuais, como novas ideias para projetos ou publicações de artigos, por exemplo”, disse Garcia à Agência FAPESP.

Garcia organizou o livro Estudos de caso da interação universidade-empresa no Brasil, com Márcia Rapini (Universidade Federal de Minas Gerais) e Silvio Cário (Universidade Federal de Santa Catarina). Disponível gratuitamente on-line, o livro mostra resultados de estudos realizados em vários países sobre interação universidade-indústria.

“No Brasil, os setores que interagem com as universidades muitas vezes não são aqueles considerados intensivos de ciência, que estariam próximos da fronteira do conhecimento, como o setor eletrônico, o farmacêutico e o aeroespacial, por exemplo”, disse Rapini, também presente na reunião do GRC.

De acordo com a pesquisadora, um exemplo está em Minas Gerais, onde mineração e siderurgia se destacam na interação com as universidades. “São setores tradicionais, consolidados e que estão focados na exportação. Observamos casos como esse em todos os estados brasileiros”, disse.

No exemplo da mineração e siderurgia, Rapini ressalta que esses setores são obrigados a interagir com universidades por força de lei. “Não é uma interação espontânea. Isso nos fez enxergar que a interação é definida pela existência de uma demanda por parte da empresa”, disse.

Outro achado apontado pela pesquisadora é que a interação ocorre em empresas que têm área de pesquisa e desenvolvimento interna. “Quando a empresa gera conhecimento dentro dela, tende a buscar interações com as universidades. Já a que apenas sobrevive não gera conhecimento. Isso foi um aprendizado, se a empresa não quer, não adianta. Se não tem demanda básica, não tem interação”, disse Rapini.

Já nas áreas em que é possível fazer pesquisa aplicada e publicar artigos, a interação é mais óbvia. “Existem áreas em que as parcerias ocorrem, pois sem interagir com a indústria, empresas ou fazendas produtivas, o pesquisador não consegue fazer pesquisa ou saber se o produto desenvolvido pode ser produzido em escala, nem se é economicamente viável”, disse.

O livro conta com três níveis de análise: estudos setoriais, áreas do conhecimento e estudos de empresas.

“O livro foi viabilizado por uma equipe que trouxe casos da realidade de cada estado. Alguns capítulos analisam setores não tradicionais da interação universidade-indústria. Obtivemos resultados diferentes dos relatados em outros estudos internacionais, mais ancorados em países desenvolvidos. Aprendemos sobre a nossa realidade”, disse.

Rapini comentou que o livro mostra ainda que o foco excessivo na cooperação com empresas pode levar centros de pesquisa a ignorar oportunidades de fazer parcerias com outros setores, como ONGs e o setor público (prefeituras ou secretarias). “Essas parcerias podem ter um impacto econômico e social muito grande para países em desenvolvimento e devem ser valorizadas”, disse.

Mais informações sobre a 8ª Reunião Anual do Global Research Council: www.fapesp.br/eventos/grc.

Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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