Alina Perlowagora

No contexto do centenário de resgate de independência da Polônia, IOC presta homenagem à pesquisadora Alina Perlowagora-Szumlewicz por seu legado no combate a endemias brasileiras

Alina Perlowagora. Assim como seu sobrenome – ‘montanha de pérolas’, na tradução do polonês – é o legado deixado pela cientista. Refugiada de seu país de origem para sobreviver ao nazismo, Alina fez história em território brasileiro ao implementar uma metodologia para o diagnóstico da febre amarela, na década de 1940. Manipulou o vírus amarílico em laboratório, inoculando e acompanhando a infecção em camundongos, morcegos e macacos, além de estudar as curvas de anticorpos em primatas. Enfrentou outras grandes endemias: a esquistossomose – destacando-se com trabalhos sobre biologia e fisiologia dos moluscos transmissores, ações dos moluscicidas e a resistência dos vetores à sua aplicação –, e doença de Chagas, à frente de pesquisas sobre medidas de controle do barbeiro, conjugando métodos biológicos e químicos.

Para relembrar esses e outros feitos da cientista, assim como resgatar um pouco do contexto histórico que trouxe Alina para o Brasil, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realizou nesta quinta-feira, 22/11, o evento ‘Alina Perlowagora-Szumlewicz: homenagem a uma pioneira da pesquisa biomédica no contexto do resgate do centenário de independência da Polônia’. Integrado à programação do Centro de Estudos do IOC, a atividade marcou a doação de acervo da cientista à Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), unidade da Fiocruz que, dentre suas atribuições, está dedicada à guarda de acervos históricos da Fundação. Os itens, que incluem fichas funcionais, foram gentilmente cedidos pelo pesquisador Carlos José Moreira, do Laboratório de Doenças Parasitárias do IOC, que trabalhou diretamente com Alina. A sessão, moderada e mediada pelo chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC, Ricardo Lourenço, que também conviveu com a pesquisadora, contou ainda com a exibição de vídeo em homenagem à expoente, produzido pelo Serviço de Jornalismo e Comunicação do Instituto, que também montou uma exposição sobre a cientista no hall do auditório onde foi realizado o evento. Assista abaixo:

 Mosaico científico
Durante a mesa de abertura, o diretor do IOC, José Paulo Gagliardi Leite, destacou a pluralidade de nacionalidades, idades, saberes e culturas que compõem o quadro de colaboradores da instituição. “Considero o nosso mosaico institucional uma riqueza. Por meio dele vemos o quanto o IOC teve, e tem, portas abertas para tantas pessoas, de diferentes regiões do mundo, como a Alina. A inclusão dela no quadro de pesquisadores do Instituto reflete o direcionamento que a ciência precisa: ser aberta à troca de experiências em todos os sentidos”, frisou. O diretor referiu-se, ainda, ao legado da cientista e seu valor para a sociedade. “Que a memória da Alina sirva pra mostrar a competência de todos os pesquisadores, sejam poloneses ou brasileiros”, finalizou.

Por sua vez, o diretor da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Paulo Elian, parabenizou o Instituto pela iniciativa de associar a efeméride de 100 anos de resgate da independência da Polônia com uma homenagem à cientista que deixou sua pátria para assumir o Brasil como nova residência. “Alina é exemplo de que uma ciência livre não é compatível com regimes totalitários. Acionar a memória é sempre um trabalho importante porque, com isso, não estamos discutindo questões do passado: estamos discutindo o presente”, afirmou. Sobre a doação de documentos para a guarda da COC, suas palavras foram de agradecimento. “É uma satisfação muito grande receber esse material”, destacou, acrescentando que os itens serão incorporados a outros documentos relativos à pesquisadora que já integram o acervo da Unidade.

evento AlinaDa esquerda para a direita, o pesquisador Carlos José, os diretores José Paulo Leite (IOC) e Paulo Elian (COC) e Aline Lacerda, chefe do Departamento de Arquivo e Documentação da COC, em momento pós assinatura do termo de doação do acervo de Alina: união de esforços em prol da preservação da memória da Fiocruz - Foto: Gutemberg Brito

Representando a Presidência da Fiocruz, o vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa de Oliveira, comentou as contribuições científicas da cientista no campo da esquistossomose. “Eu conheci a Dra. Alina por meio de suas importantes publicações científicas, já que o trabalho dela inspirou minha tese de doutorado, que envolvia cercárias de Schistosoma mansoni [parasito causador da doença] irradiadas. Ela foi uma das pioneiras no tema”, relatou. “Os trabalhos dela conduziram à descrição de antígenos de Schistosoma mansoni hoje investigados como potenciais alvos de vacinas. Foram investigações com impacto mundial”, contextualizou.

Também presente na cerimônia, a cônsul da Polônia do Brasil, Dorota Bogutyn, se disse honrada por conhecer a trajetória da cientista. “Que seu legado seja passado para frente. Ela foi uma mulher, polonesa, que não fez tanto somente para e pelo Brasil, mas também para e pela Polônia, seu país de origem”, ponderou. A cônsul observou que a cientista nasceu numa região judaica, que sofreu impactos diretos e severos durante a II Guerra Mundial. “Considero que Alina teve muita sorte de ter nascido no início dos anos de 1900. Sendo assim, já tinha idade para conseguir planejar estratégias de fuga antes da eclosão da II Guerra”, acrescentou, realçando que a ciência precisa continuar sempre acima da política, uma vez que é capaz de unir povos e nações.

evento AlinaA senhora Cônsul e o vice-presidente foram uníssonos ao considerarem de extrema importância o resgate da memória da expoente da biomedicina - Foto: Gutemberg Brito

Refúgio como salvação
Seja por questões de raça, religião, opinião política ou conflitos armados, muitos são os motivos que levam pessoas a se refugiarem em lugares onde possam reconstruir suas vidas. Estima-se que essa seja a realidade de mais de 25 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com dados da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados. Para debater o tema, o Centro de Estudos recebeu o geógrafo e especialista em estudos migratórios, Helion Póvoa Neto.

Em relação a Alina, o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comentou que a pesquisadora provavelmente chegou pela Ilha das Flores, localizada no interior da baía de Guanabara, no município de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro. Na região funcionou a primeira hospedaria de imigrantes do Brasil. “A Polônia é um país que contribuiu para a migração em diversos países. No período entre guerras, um grande número de pessoas se refugiou no Brasil, país que mais recebeu poloneses entre 1870 até 1918”, explicou Póvoa.

evento Alina"Estima-se que Alina tenha se convertido ao catolicismo para conseguir sair do país e sobreviver ao regime nazista", sugere o pesquisador Helion Póvoa - Foto: Gutemberg Brito

Helion relembrou ainda um período de nossa história difícil para os refugiados. “Uma diretriz secreta do Estado Novo, regime político instaurado pelo então presidente Getúlio Vargas, proibia que populações semitas se refugiassem no país – assim como ocorreu em outras regiões. No entanto, alguns embaixadores desobedeceram tal determinação e permitiram a entrada de judeus para que conseguissem salvar suas vidas. Alina foi uma dessas pessoas. E, graças a isso, pode refazer sua vida e deixar um legado para a nossa sociedade”, constatou Povoa, que também coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM) da UFRJ. “O nacionalismo contra os imigrantes é uma atitude covarde”, completou, referindo-se à característica ‘nacionalista’ do governo Vargas, que, dentre outras ações, fechou escolas que utilizavam outros idiomas no ensino de estrangeiros refugiados. “No contexto do pós-guerra, o Brasil se aliou a instituições internacionais que tinham como objetivo receber e proteger refugiados – no entanto, limitava-se a cidadãos europeus. Somente a partir da década de 1990, outros povos foram abraçados por nosso país”, salientou.

Para o professor, o refugiado é sempre um sobrevivente, que mostra imensa capacidade de recuperação e tem muito a contribuir no nosso país. “O Brasil é fundamental para o acolhimento desse grupo. Precisamos considerar que há outras "Alinas" vindo por aí, querendo contribuir para a nossa sociedade. Precisamos aprender a recebê-las”, enfatizou.

Para saber mais sobre a vida e obra de Alina Perlowagora-Szumlewicz (1911-1997), clique aqui.

Reportagem: Vinicius Ferreira
Edição: Raquel Aguiar

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