Deputado federal Chico Alencar e historiadora Virginia Fontes participam de debate na Ensp/Fiocruz

A Residência Multiprofissional em Saúde da Família realizou, de 2 a 6 de maio, a 11ª edição do Ciclo de Debates Conversando sobre a Estratégia de Saúde da Família da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz). Ao longo de uma semana de intensas discussões, estiveram em pauta a atual conjuntura do país, a Política de Saneamento no Brasil, as contradições entre a expansão da Estratégia de Saúde da Família e o modelo assistencial, a Política de Saúde Mental e a Política Nacional de Residência, além da tradicional formatura do curso. No primeiro dia de atividades, o debate contou com a participação do deputado federal Chico Alencar e da historiadora Virginia Fontes. Sob a coordenação da pesquisadora da Ensp/Fiocruz Sandra Venâncio, os palestrantes refletiram acerca do momento pelo qual passa o país. Segundo Alencar, estamos vivendo uma crise de destino na sociedade, uma crise civilizatória. Sobre o dia de votação na Câmara dos Deputados, em 17 abril, na opinião do deputado, aquele momento expressou a política dominante no Brasil, que, infelizmente, é a política da família como elemento de amálgama para a reprodução de mandatos, e não das Estratégias de Saúde da Família.

Antes de dar início ao debate Democracia á beira do caos: direitos ameaçados, foi realizada uma breve solenidade de abertura com a participação do diretor da Ensp/Fiocruz, Hermano Castro, e da coordenadora geral da Residência Multiprofissional em Saúde da Família, Maria Alice Pessanha. Na ocasião, o diretor afirmou ser possível, sim, ter uma saúde 100% pública e de qualidade. “Essa é a bandeira que vocês devem defender durante todo o curso. Como dizia Carlos Marighella – guerrilheiro e escritor brasileiro –, a única luta que se perde é a luta que se abandona.” Ao dar boas-vindas aos alunos da 12ª turma de Residência e se despedir daqueles que seguem na luta por um Sistema Único de Saúde universal, Maria Alice reforçou: “SUS é democracia, e sem democracia não há SUS”.

Chico Alencar iniciou sua fala contando um pouco do que fez no rio de Janeiro ao chegar de Brasília. Entre uma história e outra, regada de boas gargalhadas de uma plateia empolgada, o deputado defendeu que momentos como aquele é que ajudam a ter energia para enfrentar certos ambientes, referindo-se à Câmara dos Deputados, com sua verdadeira cara. “Nós que estamos lá já conhecíamos a verdadeira cara daquele lugar. A introdução de diversos senhores naquele 17 de abril revelou muito sobre o sistema político que nos rege. Aquele momento, que alguns diziam histórico, mas eu desconfio que seja histérico, é revelador do nosso processo histórico. E o que temos hoje é uma democracia inconclusa, limitada, na qual as maiorias sociais, inclusive por não terem oportunidade de organização e consciência, não são maiorias políticas” lamentou.  

Para Chico, cada deputado, naquele dia, expressou a política dominante no Brasil, que é a política da família, mas como elemento de amálgama para a reprodução de mandatos, de colocação do privado no lugar do público e da pequena política com seu intestino grosso, em detrimento da política formada por ideais, causas, projetos de nação e visão de mundo. “Estamos vivendo uma crise de destino na sociedade, uma crise civilizatória. Os nossos rumos, que não serão resolvidos da noite para o dia, mostram a tremenda encruzilhada que estamos. Quando olhamos a realidade do Senado, vemos um ambiente de estelionato eleitoral para todos os lados. Do que a Dilma propôs para seu segundo mandato, pouca coisa avançou, e boa parte do que foi realizado vai contra o que a levou a receber 54 milhões de votos. Ela se aproximou da pauta mais conservadora, regressista, do estado mínimo, do ajuste que recai, sobretudo, sobre os mais pobres e as políticas públicas que fazem bem ou garantem direitos a essa grande massa dos mais pobres no Brasil”, analisou ele.

A respeito das manifestações que vem acontecendo desde 2013 e se multiplicam a cada dia, Chico foi categórico ao afirmar que não importa de que lado se está; o importante é estar nas ruas, pois, segundo ele, é o lócus principal de uma construção democrática embrionária no país. Para o deputado, os movimentos que começaram em 2013 não tinham o perfil mais diretamente político da direita ou de mera resistência da esquerda, foi uma insatisfação generalizada com a insuficiência das políticas públicas, inclusive da política propriamente dita naquele momento. “Estamos em vias de mais uma transição intransitiva. Sem dúvida, o que temos hoje, chamado ou não golpe, é uma grande armação dos setores dominantes, principalmente da indústria do agronegócio. Há uma força, um bloco de poder que quer trocar o síndico, mas eles nunca deixaram de estar no condomínio”, destacou. 

Chico apontou ser o escravismo uma marca constitutiva da nossa sociedade, que, em parte, explica a estrutura psíquica de vassalagem que temos até hoje. Segundo ele, o patrimonialismo que se traduz na concentração da propriedade tem expressão política, visto que a Câmara dos Deputados brasileira está cheia de filhos, netos e bisnetos de oligarcas modernos, contemporâneos e urbanos, mas ainda reproduzem os elementos da dominação. Na exposição do deputado, se não fosse a crise econômica pela qual o pais está passando, não estaríamos falando em impeachment. “Se o cenário atual fosse aquele dos anos Lula, não tenho dúvida, ninguém estaria falando em impeachment. O substrato agora é o mal estar da população, o desemprego que é real, a inflação que atinge produtos básicos, mas ainda assim o Brasil continua sendo o maior parque industrial e manufatureiro da América Latina”, comentou.

Se encaminhando para o fim de sua apresentação, Chico questionou o que, de fato, tem a ver tudo aquilo que estava sendo discutido com as Estratégias de Saúde da Família, com a Saúde Pública. E ele mesmo respondeu: tudo; desde o mais concreto, com a proposta da presidente Dilma da desvinculação de receitas da União. “É claro que não basta só ter receita vinculada para a Saúde e para a Educação. É preciso democratizar o gasto, garantir a transparência, gerir bem os recursos, pois a máquina estatal também é um sorvedouro de gastos inadequados e um caminho muito forte para a corrupção”, comentou. Ao finalizar, o deputado afirmou ser a família, ao contrário daquela invocada em 17 de abril por interesses meramente particulares e eleitoreiros, um espaço especial de convivência humana em sua diversidade, unida por laços de afeto, um laboratório de convivência humana no qual você começa a se socializar e enxergar o mundo.

Sobre saúde, Chico garantiu que o bom convívio é fundamental para uma vida saudável. Para ele, boa parte do que nos adoece vem da nossa subjetividade. Se uma pessoa está triste e infeliz, ela tem mais chances de ficar doente; se está feliz e de bem com a vida, resiste até mesmo a doenças consideradas letais. “Nosso país apresenta uma estrutura política adoentada, envenenada; então, é óbvio que as políticas de Saúde vão expressar isso. Nossa tarefa, agora, é organizar a indignação e resistir. Espero que esse debate seja um bom sintoma disso. Não devemos ser pessimistas, embora seja preciso o pessimismo da razão, sabendo que é possível lutar, é possível ter um caminho de esperança. A Ensp e a Fiocruz, com suas excelências e suas dificuldades, são um sinal concretíssimo de que nem tudo está perdido. É possível colher morangos mesmo estando à beira do abismo. Vamos juntos. Estou a serviço de vocês no meu mandato”, concluiu. 

Continue a leitura do texto no site da Ensp/Fiocruz.

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