Carlos Raul Etulain

Carlos Raul Etulain é professor-doutor do curso de Administração Pública e do Grupo de Políticas Públicas da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp. Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, com doutorado sanduíche na Université de Paris 8, França, é mestre em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp. Foi bolsista do CNPq. Atuou como Consultor Sênior do programa do PNUD/Banco Mundial para a Argentina e como professor em universidades na Argentina e no Brasil.Leia entrevista para o Portal Unesp:

Portal Unesp: O que a sociedade espera hoje do administrador público? Quais devem ser os seus atributos?

Carlos Raul Etulain: O momento atual exige administradores públicos que elevem a qualidade do setor publico e ampliem a abrangência e efetividade dos programas. A complexidade da sociedade contemporânea e das demandas sociais exige do Estado, em todos seus níveis organizacionais e em todas as suas instituições, recursos humanos dotados de conhecimentos especializados e ao mesmo tempo interdisciplinares. Isto porque as políticas públicas se organizam e executam contando com a destreza de profissionais preparados para entender os problemas sociais e para saber combinar equipamentos, recursos e pessoas com capacidade para gerenciar ações e alcançar resultados. Tudo se dá, entretanto, na amalgama dos valores coletivos e dos princípios que compõem o chamado ethos republicano. A sociedade precisa avançar no sentido de transformar as suas condições de existência criando mecanismos que diminuam as assimetrias sociais e as injustiças, o administrador público e, em geral, todos os gestores que direta ou indiretamente se vinculam através do seu trabalho com a esfera pública, devem ter conhecimentos das ciências sociais e humanas, das áreas aplicadas dessas ciências, do direito, da política e da economia, devem combinar metodologias quáli-quantitativas de estudos e análise dos problemas sociais e devem conhecer acuradamente o Estado, suas regras e o seu funcionamento. Em resumo, trata-se de uma formação humana e interdisciplinar com acuidade para observar a realidade social e com profundo compromisso com o bem público e os valores coletivos.

JU: Em que direção caminham as pesquisas da área e a própria formação profissional dos que ingressam no curso?

Portal Unesp: O ponto de partida para entender o lugar que ocupa hoje a política pública e a formação dos  profissionais do seu campo de atuação está diretamente vinculado ao desenvolvimento das nações. Do ponto de vista acadêmico, o século XXI colocou as políticas públicas no centro das discussões sobre desenvolvimento. Sabemos que o termo desenvolvimento se refere a processos em que a ampliação e crescimento da esfera econômica, território efetivamente ocupado pelo mercado, se dá acompanhada pela distribuição dos frutos do trabalho e do progresso técnico. As políticas públicas ganharam notoriedade crescente por ter evidenciado depois de mais de um século de formação capitalista no Brasil que são capazes de promover processos de melhorias na distribuição da riqueza e de avanços sociais virtuosos. O desenvolvimento requer programas e planos de enfrentamento às condições que produzem o atraso e o empobrecimento das populações. As políticas públicas são decorrentes desta ideia de desenvolvimento que exige que através de programas e ações que contam com o apoio parcial, quando não total, do Estado, sejam superadas as condições que produzem situações de vida regressivas, caracterizadas pela falta de acesso aos bens públicos, marcadas pelas carências de educação, saúde, cultura, e pela omissão do exercício dos direitos constitucionais. As pesquisas do campo de públicas têm mostrado a preocupação em relação ao enfrentamento dos problemas sociais, prova disto são os numerosos artigos científicos dedicados ao assunto, a multiplicidade de cursos superiores ao longo do país voltados para a formação de gestores e administradores públicos, a divulgação nas mídias do termo políticas públicas e a organização de redes de estudantes, eventos de estudantes, profissionais e pesquisadores da grande área denominada 'campo de públicas' (ENEAP, FENEAP, dentre as mais tradicionais) e a recente fundação da Associação Nacional de Ensino e Pesquisas do Campo de Públicas (ANEPCP) que formaliza o campo interdisciplinar já reconhecido pelo MEC. Em relação à formação dos profissionais de políticas públicas destacam-se a variedade de cursos e de abordagens metodológicas, as práticas voltadas para a atuação na gestão pública, a preocupação com o contato direto dos estudantes com os problemas sociais, a formação de lideranças, as visitas im loco nos territórios aonde as demandas são produzidas devido às carências de equipamentos públicos e ao funcionamento excludente da economia mercantil e dos processos de especulação. Esta realidade demanda formações diversas, abordagens interdisciplinares e estratégias com alto grau sofisticado de conhecimento que são produzidos em mais de 120 cursos no Brasil. Não há uma direção única na formação do campo de públicas, sendo evidente a convicção de que a formação deve combinar teoria e prática com multiplicidade de metodologias e com a formulação humana necessária para perceber, descrever e organizar a realidade social que não se apresenta segmentada em áreas de conhecimento espacializado tal como a maioria das vezes é apresentado o mundo na tradição científica.

Portal Unesp: Quais as tendências e perspectivas da área para o futuro?

Carlos Raul Etulain: As perspectivas no campo de públicas são auspiciosas. Ao avaliarmos a administração e a gestão pública contemporânea no Brasil devemos considerar  a dimensão política e histórica destes profissionais no sentido da ação social que eles contribuem a implementar. O século XX no Brasil poderia se resumir neste sentido a um largo período de formação da esfera pública, de construção do aparelho estatal e de consolidação, embora com processos contraditórios e conflitivos, de uma organização social baseada em princípios constitucionais. Todavia, não podemos deixar de considerar que ate poucas décadas atrás o Brasil, como muitos dos países latinoamericanos, não possuía direitos constitucionais aprovados e em exercício, assim apresentava e ainda apresenta vazios estatais apropriados pelos interesses privados. O avanço da democracia é resultado dos avanços na formalização de diretos, da implementação de normas, na organização de uma burocracia estatal pautada por regras de meritocracia. Todos este processo histórico ainda inconcluso requer de profissionais de qualidade e, portanto, de escolas e pesquisadores dedicados mediante ensino, pesquisa e extensão que com suas atividades aprofundam e consolidam a evolução dos cursos do campo de públicas no Brasil.

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