A economista Vanessa Moraes Lugli, autora da dissertação: "Não é possível ter um crescimento puxado pelos serviços sem que estes estejam articulados com a estrutura produtiva, em especial com a indústria"

Acompanhando o cenário mundial de longo prazo, a economia brasileira vem passando por uma mudança estrutural, representada pela retração da indústria e expansão no setor de serviços. Esta mudança não deve, necessariamente, ser considerada positiva, adverte a economista Vanessa Moraes Lugli, que acaba de finalizar estudo sobre o tema junto ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. 

De acordo com ela, a transformação na estrutura produtiva da economia brasileira vem sendo puxada pela expansão no setor de serviços envolvendo, sobretudo, atividades de baixos salários, baixa qualificação e menor potencial de desenvolvimento tecnológico. Tais atividades estão ligadas ao comércio e serviços pessoais e não a serviços mais sofisticados, relacionados, por exemplo, a empresas de tecnologia de informação e à indústria. 

“Estas atividades não são capazes de gerar crescimento e desenvolvimento econômico de forma sustentável para a economia brasileira. Minha análise é de que o cenário não seria negativo, por exemplo, se a indústria estivesse perdendo espaço e o setor de serviços avançando, desde que estes fossem de maior produtividade, com salários mais altos e de maior qualificação”, considera a pesquisadora da Unicamp. 

Vanessa Lugli explica que, nos últimos anos, a perda de participação de alguns grupos de serviços, em especial os ligados às empresas e indústria, teve como contrapartida o crescimento dos serviços pessoais, ou seja, a expansão do setor de serviços estaria ocorrendo sob a liderança de serviços de baixa produtividade, remuneração e qualificação.  

“Parte da explicação para este movimento está relacionada com a piora do desempenho do próprio setor industrial, impactando não apenas os serviços prestados às empresas, mas também outras atividades de suporte como os serviços de transporte e manutenção que possuem uma grande articulação com a indústria. A minha pesquisa aponta que não é possível ter um crescimento puxado pelos serviços sem que estes estejam articulados com a estrutura produtiva, em especial com a indústria”, observa. 

O estudo conduzido por ela como dissertação de mestrado analisou o setor de serviços brasileiro entre os anos de 2000 e 2012. A partir de uma investigação empírica junto aos dados do Sistema de Contas Nacionais (SCN) e da Pesquisa Anual de Serviços (PAS), Vanessa Lugli caracterizou este segmento, buscando compreender sua dinâmica e relação com os demais setores da economia.

O trabalho foi orientado pelo professor Célio Hiratuka, que atua junto ao Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia (NEIT) do IE. Houve financiamento, na forma de bolsa à pesquisadora, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). 

“A expectativa é que os resultados desta pesquisa possam, em alguma medida, contribuir para o debate sobre a mudança estrutural e o processo de desindustrialização da economia brasileira. E, desta forma, colaborar para o desenvolvimento do país. Trata-se de uma pesquisa que teve a proposta de analisar de forma detalhada o setor de serviços no Brasil, compreendendo melhor a sua estrutura e a sua dinâmica”, ressalta a economista graduada pela Unicamp. 

Ela contextualiza que nas últimas décadas iniciou-se um debate, nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, sobre a ocorrência de um processo de desindustrialização dessas economias, puxado pela retração do setor industrial em contrapartida à expansão do setor de serviços.

“Trata-se de um debate sobre a mudança estrutural, que pode ser entendida como uma transformação de longo prazo da estrutura produtiva de um país. Esta mudança estaria, portanto, relacionada ao desenvolvimento econômico. Neste caso, os setores e as atividades produtivas crescem a velocidades diferentes, alterando assim a sua participação na geração do produto e do emprego.”

Números

O estudo de Vanessa Lugli aponta números, tanto numa análise do setor de serviços de forma agregada entre os três grandes setores da economia brasileira (agricultura, indústria e serviços), quanto numa análise interna, entre as atividades que o compõem. De modo agregado, a sua análise demonstrou que, entre 2002 e 2012, a distância entre a indústria e o segmento de serviços vem diminuindo, por conta do melhor desempenho deste último.

“Observando o último ano da série, de 2012, os dados mostram que a produtividade dos serviços atingiu 50% do valor da indústria; e o salário médio, 70%. Já a massa salarial do setor de serviços alcançou 94% do valor pago na indústria; e o volume de emprego, 137%. Em 2007, por exemplo, a produtividade atingia apenas 46,5% da indústria. Já o salário médio se manteve estável, com 71,6%. A massa salarial do segmento de serviços foi equivalente a 79,8% do valor da indústria; e o volume de emprego, 111,5%”, compara. 

Em relação às atividades que compõem o setor, os serviços sofisticados, ligados às empresas, apresentaram a maior produtividade no período entre 2007 e 2012. Quando comparados a este, os serviços pessoais atingiram, em média, 26,2% desta produtividade, chegando a 30,4% em 2012. Os serviços sofisticados também apresentaram a maior média salarial e, novamente, os serviços pessoais manifestaram um desempenho inferior, com 38,5% do valor do salário médio dos sofisticados.

“Preocupa o fato de que, ao longo do tempo, os serviços sofisticados perderam participação no total, enquanto os serviços pessoais tiveram aumento. Isso significa um padrão de mudança negativo, na medida em que setores menos produtivos e com menor remuneração vão ocupando mais espaço na estrutura econômica”, alerta.

Ainda de acordo com a economista, a geração de valor adicionado dos grupos de serviços somou R$ 675,2 bilhões em 2012. Apenas os serviços às empresas foram responsáveis por mais de 50% deste valor, embora o percentual dessa participação tenha sofrido pequena queda ao longo da série. Em contrapartida, o grupo de serviços pessoais elevou o seu percentual de participação sistematicamente ao longo do período, saindo de 10,7% para 13,3% em 2012. Este percentual equivale a R$ 89,7 bilhões. 

“Com relação à massa de salários, do total pago em 2012, R$ 227 bilhões, a maior parte, novamente, veio dos serviços às empresas, com o equivalente a 53,2% de participação. Como segundo grupo de importância, tivemos os serviços de transporte e manutenção, com 27,5%, e os serviços pessoais ficaram com 14,3%”, acrescenta.

Os números dimensionam também o volume de empregos registrados em cada atividade. De 2007 a 2012, o segmento de serviços apresentou um crescimento de 44,2%, atingindo 11,9 milhões de trabalhadores em 2012. Os serviços às empresas empregaram em torno de 48,8% do total de 2012, com destaque para os serviços não sofisticados dentro desse grupo (26,6% do total de empregos de 2012). Os serviços pessoais atingiram 23% em 2012, equivalente a 2,8 milhões de empregos. 

“Analisando a estrutura e a dinâmica interna do setor de serviços, percebe-se que os serviços às empresas, mais especificamente os sofisticados, se destacam na geração de receita, valor adicionado, volume de salários, produtividade e salário médio por trabalhador, embora tenham perdido participação ao longo do tempo”, analisa Vanessa Lugli. 

Ela informa ainda que o segmento de serviços não sofisticados, realizados junto às empresas, concentrou a maior parte dos empregos e da média de trabalhadores por empresa. “Porém, quando é analisada a variação da participação dos grupos ao longo do tempo, percebe-se que os serviços pessoais têm ganhado espaço em detrimento aos demais grupos, em especial dos serviços às empresas, sobretudo no que se refere à geração de receita, valor adicionado e empregos”, pondera.

Características

Conforme a pesquisadora do IE, o segmento de serviços no Brasil tem como característica principal uma grande heterogeneidade. Ela explica que o segmento é, em geral, analisado de modo agregado com todas as atividades não pertencentes à agropecuária ou à indústria. “Isso o tornou uma categoria residual e muito heterogênea, caracterizada pela convivência entre serviços sofisticados; tradicionais; sociais, prestados pelo governo; e ainda diversos outros que possuem uma dinâmica própria.”

Tal heterogeneidade dificultou a análise e as possíveis conclusões a respeito da mudança na estrutura da economia, reconhece a estudiosa da Unicamp. “Fizemos um esforço no sentido de conceituar e classificar as atividades de serviços, de modo a captar da melhor forma essa peculiaridade do setor”, justifica.

Publicação

Dissertação: “Mudança estrutural e o setor de serviços no Brasil”
Autora: Vanessa Moraes Lugli
Orientador: Célio Hiratuka
Unidade: Instituto de Economia (IE)
Financiamento: Capes

Texto: Silvio Anunciação
Fotos: Antoninho Perri
Edição de Imagens: Fábio Reis
Jornal Da Unicamp

Pin It