refugiados

 Dois irmãos fogem de um ataque a uma aldeia no Congo. Perdem em um incêndio os pais, os irmãos, os amigos, tudo. Na fuga, acabam separando-se e um dos jovens consegue chegar ao Brasil. No entanto, para além dos problemas que o levou à migração forçada, no novo país ele sofre de insônia e crises de angústia relacionadas à imagem de sua casa pegando fogo. Não há como recomeçar a vida.

Outro rapaz, imigrante vindo de Angola, não vê mais sentido na vida. Por questões políticas, seus pais, que eram professores universitários, foram mortos. Ele foi forçado a sair de sua terra natal e passou a viver na capital paulista.

As violências e humilhações vivenciadas por refugiados vêm sendo objeto de estudo no campo da psicologia política. “A imigração forçada [por motivos políticos, econômicos, de guerra ou climáticos] é um fenômeno que tem várias faces. Ela envolve aspectos sociais, políticos, de legislação, e de relações internacionais e, também, questões subjetivas e psíquicas. O recomeço em uma nova terra depende de como se dará a reorganização psíquica relativa às questões do desejo, das angústias e da atribuição de novos sentidos para a vida”, disse Miriam Debieux Rosa, coordenadora do Laboratório Psicanálise e Sociedade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e do Veredas – Psicanálise e Imigração, grupo que reúne uma série de pesquisas sobre as experiências de intervenção em instituições que acolhem essas populações na cidade de São Paulo.

Em palestra na FAPESP Week France, realizada entre os dias 21 e 27 de novembro de 2019, a pesquisadora afirmou que o tema da imigração e reassentamento de refugiados e seus desdobramentos culturais, subjetivos e políticos tornou-se uma prioridade no mundo – e o Brasil não é exceção.

Sofrimento sociopolítico

“Imigração diz respeito a um fenômeno que favorece o encontro com a alteridade, com outras culturas e línguas. No entanto, as atuais crises e conflitos políticos e econômicos promovem a imigração forçada de um grande contingente de pessoas, bem como políticas de fechamento de fronteiras. As crescentes segregação e discriminação contra os imigrantes têm consequências subjetivas, particularmente na saúde mental”, disse a professora.

De acordo com Debieux, a insegurança e o medo são afetos (conjunto das emoções que orientam os comportamentos) produzidos pela gestão política e econômica. No entanto, esses afetos politicamente manipulados induzem à busca de um culpado, um alvo imaginário a quem dirigir discursos odiosos, racistas e xenófobos.

“Essa gestão política dos afetos dá origem a uma política repressiva e a uma justificativa para a suspensão dos direitos humanos e das garantias constitucionais, a fim de supostamente garantir a segurança. Nesse contexto, o ódio aos imigrantes se torna uma agenda política.”

Debieux explica que ser indesejado e objeto de ódio no discurso social (além das outras violências no processo migratório) gera sofrimento sociopolítico que pode desorganizar psiquicamente o imigrante. A professora reuniu cerca 22 artigos de pesquisadores que tratam desse tema na coletânea As escritas do ódio: psicanálise e política, publicado pela Editora Escuta.

Psicoterapia não convencional

As pesquisas e o trabalho de extensão universitária do grupo Veredas estão focados nos processos de elaboração das violências sofridas nas imigrações forçadas. Buscam desenvolver estratégias clínico-políticas para que o imigrante possa “não só dar conta de uma elaboração das violências sofridas como de viver em uma nova terra, com culturas e hábitos diferentes”, disse.

O trabalho liderado por Debieux, ao longo de 15 anos, está registrado no livro apoiado pela FAPESP A Clínica Psicanalítica em Face da Dimensão Sociopolítica do Sofrimento , primeiro lugar na categoria Psicologia, Psicanálise e Comportamento do 59º Prêmio Jabuti, em 2018.

De acordo com Debieux, as intervenções com pessoas que foram forçadas a migrar não seguem a mesma linha de uma psicanálise convencional. “A metodologia foi sendo desenvolvida ao longo do projeto. Antes, seguíamos o modelo tradicional de psicanálise, como, por exemplo, dar prioridade para elaborar o luto. Porém, em processos que envolvem situações de violência produzidas nas relações sociais, vimos que a abordagem tem de ser outra”, disse.

Com isso, a equipe de pesquisadores começou a ter como base para as intervenções com migrantes e refugiados os estudos científicos sobre campos de concentração e violências de guerra. “Com isso, fazemos uma diferenciação entre o fato violento e a dimensão traumática, dando ênfase sobretudo ao sujeito e não à situação de violência. Isso permite trabalhar as questões ligadas à culpa e à vergonha e situar a imigração como escolha pautada na história pessoal, familiar e social. Desse modo, o sujeito pode romper com o silenciamento produzido pela impossibilidade de construir uma narrativa de si que inclua os fatos vividos e, dentro da sua própria história e desejo, encontrar o que o enlaça na nova realidade”, disse.

Recomeçar

Essa reorganização psíquica começa por encontrar um ponto de partida e se dá das mais variadas formas. O imigrante angolano, que não via mais sentido na vida, decidiu voltar a estudar. Os pais, professores universitários, valorizavam os estudos e esse retorno à escola era não só uma forma de homenageá-los, mas também de dar continuidade a sua história.

O jovem congolês só começou a sair da letargia – período chamado pelos psicólogos de silenciamento – quando entendeu que a causa principal de angústia era não saber o paradeiro do irmão. “No período de silenciamento, o rapaz não conseguia falar sobre si, pois era tudo muito doloroso e todos os acontecimentos apareciam desorganizados na sua própria construção de história”, disse.

“Só quando ele constrói esse ponto de partida – que é procurar o irmão –, ele passa a querer aprender português, procurar pessoas e entidades que o ajudem a entrar em contato com o irmão, ou seja, consegue se pôr em movimento. O sujeito se desloca dessa posição de paralisia e impotência para, a partir desse ponto, se reorganizar”, disse.

De acordo com Debieux, a questão da subjetividade é pensada como intersubjetividade, o que implica lidar com o modo como é visto nas relações sociais – no caso, relações em que predominam os preconceitos, as discriminações e o ódio dirigido a ele.

Olhar para dentro

As pesquisas realizadas desde 2006 pelo grupo Veredas geraram outros desdobramentos, que vão além da questão de refúgio e migração de um país para o outro. Um deles foi fazer uma correlação com os diversos tipos de migrações internas que ocorreram no Brasil, como os casos de populações rurais que migraram para as cidades ou do Norte e Nordeste para o Sudeste e Sul.

“Ao observar histórias como a do jovem congolês e do rapaz angolano que foram acolhidos no Brasil e, a despeito de toda a dificuldade, conseguiram se restabelecer é impossível não fazer um paralelo. O não acolhimento dessas populações rurais e do Norte e do Nordeste gerou, ao longo de nossa história, uma série de oportunidades perdidas”, disse Debieux.

De acordo com a pesquisadora, as levas de migrantes que não receberam nenhum atendimento ou serviço de acolhimento são exilados em sua própria pátria. “Os processos migratórios elucidaram a importância da cultura e da religião como suportes sociais aos processos psíquicos. Eles também mostram os efeitos desenraizantes da violência e da desconsideração desses aspectos na recuperação em situações de perdas e lutos”, disse.

Debieux ressalta que, embora esses migrantes nordestinos, nortistas e de regiões rurais sejam brasileiros e, portanto, tenham permanecido na própria pátria, viveram desqualificações intensas e desconsiderações da cultura de origem muito impactantes. “Isso desorganiza psiquicamente o sujeito e as suas próprias comunidades e possibilidades de fazerem vínculos comunitários no novo lugar. Isso tem a ver com um certo manejo político e o interesse de mantê-los em posição de submissão”, disse.

Por fim, para a pesquisadora, é uma grande lição o fato de tantas pessoas, ao longo dos 15 anos do Projeto Veredas, conseguirem se reestruturar. “Parece incrível, mas eles conseguem se restabelecer. Por sinal, esse é um dos desdobramentos das pesquisas e das intervenções. Surpreendemo-nos e aprendemos que, mesmo passando pelas situações mais violentas e radicais, quando há suporte social e psíquico os sujeitos reconstroem suas histórias”, disse.

O simpósio FAPESP Week France foi resultado de uma parceria entre a FAPESP e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Leia outras notícias sobre o evento em www.fapesp.br/week2019/france.

Maria Fernanda Ziegler, de Paris
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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