revista Radis

A reportagem da revista Radis acompanhou o movimento de mulheres, associação de moradores e usuários de uma reserva amazônica. Longas distâncias, difícil acesso aos serviços de comunicação, invasões de terras e atendimento à saúde precário são algumas das queixas deles. De 21 e 24 de março ocorreram a 27ª Assembleia Geral da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM) e o 13º Encontro do Movimento de Mulheres Japiim (MMJ), que reúnem, anualmente, representantes dos diferentes setores ligados à RDSM — considerada a maior reserva florestal do Brasil dedicada exclusivamente à proteção da várzea amazônica —, numa área de conservação que se distribui sobre os municípios de Alvarães, Fonte Boa, Japurá, Jutaí, Maraã, Tonantins e Uarini, e onde vivem mais de 10 mil pessoas, a maioria delas sobrevivendo da pesca.

De acordo com a matéria de capa assinada pelo editor Adriano de Lavor, a assembleia é uma das poucas oportunidades que os ribeirinhos de todos os setores da RDSM têm para se reunir, debater seus problemas e identificar suas demandas. “É nestas assembleias que os comunitários decidem o que querem para fortalecer seu trabalho”, explica José Ranolfo Pereira de Souza, o Pereira, atual presidente da Associação de Moradores e Usuários da Reserva Mamirauá Antônio Martins (Amurmam), que representa mais de 6 mil ribeirinhos. “Distantes das sedes dos municípios, eles nem recebem atendimento regular das equipes de Saúde da Família nem dos profissionais que atuam nos Distritos Especiais de Saúde Indígena (DSEIs). Em muitas comunidades, contam somente com o agente comunitário de saúde”, segundo a reportagem.

A RDSM ocupa nada menos que 1 milhão e 124 mil hectares. Em linha reta, está localizada a cerca de 600 quilômetros a oeste de Manaus, distância que varia de acordo com a forma de medir e a modalidade de transporte utilizada. Por rota fluvial, a capital fica a cerca 1.627 quilômetros, o que equivale a 72 horas de viagem em uma embarcação de transporte de passageiros — dado que merece registro, já que a região permanece de sete a 15 metros debaixo d'água por seis meses no ano.

Ela foi a primeira unidade de conservação desta categoria implementada no Brasil, em 1996, onde vivem cerca de 11 mil pessoas, distribuídas em 200 comunidades e 1.873 domicílios. Apesar da abundância hídrica, as águas subterrâneas apresentam grande quantidade de resíduos sólidos, elevado teor de ferro e de amônia, o que faz com que estas não sejam ideais para o consumo humano, sem um tratamento adequado. O regime das águas também interfere na ocupação do espaço pelos ribeirinhos, que habitam em casas tradicionais de várzea, construídas em palafitas a cerca de 1,5 metro de altura do chão — o que protege dos ataques animais —, e residências flutuantes, que possibilitam um melhor acesso à água, e têm maior mobilidade para acompanhar o movimento de subida e descida das águas — o que as torna menos suscetíveis aos prejuízos causados pelas cheias dos rios. A maioria dos participantes dos eventos não vive em Ingaioara, situada no setor da reserva chamado Panauã de Cima, e muitos deles têm que viajar até 24 horas em diferentes tipos de embarcações para chegar lá.

O pesquisador Marcílio Medeiros, da Fiocruz Amazonas, que durante os últimos quatro anos estudou as condições de vida e de saúde da região, para a produção de sua tese de doutorado, defendida em 2018, foi quem convidou a Radis para acompanhar a assembleia.  Existe preocupação com a água, pois a comunidade é praticamente inteira flutuante. “Tudo ali existe em função do rio, que promove o sustento e dá mobilidade às pessoas”, diz a matéria. Para Marcílio, é necessário entender e respeitar o modo de vida das populações ribeirinhas, cuja ecologia humana é fortemente marcada pelo ecossistema amazônico. Na entrevista em que concedeu à reportagem após a viagem, ele chama atenção para a importância da fauna aquática na vida e no imaginário de quem habita a reserva, seja na dispersão de sementes, seja na base da dieta alimentar da população ou ainda na fonte de renda ou na organização comunitária e sindical em torno da pesca.

Os ribeirinhos dizem que as equipes de saúde são raras na reserva Mamirauá. A equipe de saúde fluvial conta com uma dentista, uma técnica de saúde bucal, três enfermeiros, três técnicos de enfermagem (dois vacinadores e um responsável por fazer a triagem do Bolsa Família), um técnico em patologia e um agente comunitário de saúde, além do médico Ricardo Vásquez, cubano que acompanha a equipe de Saúde da Família. A presença da equipe de saúde mobilizou e agradou os participantes da assembleia, embora se comente que seja rara. “A gente nunca recebeu uma equipe como essa em nossa comunidade”, comenta Gilberto Almeida de Souza, representante da comunidade de Pãozal, situada no setor Solimões do Meio. Segundo ele, a assistência à saúde lá se restringe à presença de um agente comunitário de saúde, que apenas distribui “um pó para colocar na água”.

Leia aqui as demais matérias da Radis n° 201.

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