Vista parcial da área onde foram feitas as pesquisas: Mata Atlântica conta com mais de 20 mil espécies vegetais

Acaba de ser lançado o Guia ilustrado para identificação das plantas da Mata Atlântica - Legado das Águas - Reserva Votorantim. Essencialmente constituído por fotografias acompanhadas de notas explicativas, o livro pretende servir de guia para identificação de espécies vegetais ocorrentes na Floresta Ombrófila Densa, tendo como cenário o Legado das Águas – Reserva Votorantim, com 31 mil hectares, uma das maiores propriedades particulares voltadas para a conservação da Mata Atlântica.  As espécies apresentadas foram amostradas durante quatro expedições realizadas na área por uma equipe de seis pesquisadores vinculados à Universidade de São Paulo (Esalq – Piracicaba), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Instituto Florestal (IF), acompanhados por 25 alunos de pós-graduação, das duas primeiras instituições. Os pós-graduandos cursavam a disciplina “Taxonomia de Campo”, oferecida pelo Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e coordenada pelos professores Ricardo Ribeiro Rodrigues e Vinicius Castro Souza, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq – USP–Piracicaba) e do Programa de Pós-Graduação de Biologia Vegetal, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, que contou com a participação dos professores convidados Alexandre Salino (UFMG), Natália M. Ivanauskas (IF) e Jorge Yoshio Tamashiro, professor aposentado da Unicamp. Além deles, foram primeiro e segundo organizadores da publicação Thiago Bevilacqua Flores e Gabriel Dalla Colletta, alunos de doutorado da Universidade.

A maior parte do trabalho de campo foi realizada durante uma expedição, de cerca de 15 dias, de que participaram todos os docentes e discentes do grupo, organizada para a coleta e identificação preliminar de material botânico. Essa etapa se completou em 30 dias no Laboratório de Sistemática do Departamento de Ciências Biológicas da Esalq e no Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp, onde as identificações preliminares foram confirmadas através de bibliografia especializada, comparação com material de herbário e consulta a especialistas.

Posteriormente, três outras expedições, com duração em torno de 15 dias cada uma, constituídas por alunos da pós-graduação, foram realizadas para obtenção de imagens fotográficas de plantas em floração e/ou frutificação. Nas quatro ocasiões coletaram-se cerca de duas mil amostras de plantas, representando 768 espécies vasculares, grande parte delas apresentadas no guia.

Thiago FloresA propósito, Thiago Flores, aluno de doutorado da Unicamp, lembra que um país com tamanha biodiversidade como o Brasil precisa de ferramentas que facilitem a identificação de plantas.  Ele acredita que a publicação traga contribuições para que isso ocorra mais facilmente, permitindo maior agilidade e qualidade dos diagnósticos ambientais. Apaixonado por plantas, ele particularmente espera que o livro mude a visão das pessoas sobre a floresta: “Que a floresta não seja vista apenas como “mato” ou uma área desocupada. É preciso mostrá-la como o lugar de que se extraem milhares de informações decorrentes da sua enorme biodiversidade, que podem vir a ser utilizadas, por exemplo, na formulação de medicamentos e de alimentos funcionais. É fundamental que as pessoas sejam informadas da importância e da riqueza das florestas, porque não se conserva o que não se conhece. O conhecimento leva as pessoas a dar valor e a conscientizar-se da necessidade da preservação. Ninguém preserva o que não conhece. Possibilitar o conhecimento das florestas é parte do nosso trabalho”.

Mata Atlântica

O bioma Mata Atlântica é um dos locais de maior biodiversidade do planeta, contendo mais de 20 mil espécies vegetais, das quais oito mil são endêmicas, isto é, só ocorrem nesse ecossistema. Além do que, abriga sete das maiores bacias hidrográficas brasileiras, sendo também fonte de alimentos e recursos diversos.

Originalmente a cobertura vegetal de Mata Atlântica distribuía-se por 17 estados brasileiros em toda a costa, chegando à Argentina e ao Paraguai. Atualmente a área remanescente representa apenas 7,5% de sua cobertura original, sendo seu desmatamento ainda um dos maiores desafios para a sociedade. Além do que, com a acentuada urbanização, que levou mais de 80% da população brasileira a viver nas cidades, o convívio com a vegetação nativa tornou-se distante da maioria da população. 

Apesar desse quadro, os organizadores do guia lembram a existência de iniciativas louváveis na contramão do desmatamento, a exemplo do Legado das Águas – Reserva Votorantim, que transformou uma área de 31 mil hectares de Mata Atlântica no Estado de São Paulo em um espaço aberto às práticas sustentáveis.  O Grupo Votorantim protegeu essa área, a partir da década de 1950, para garantir a conservação das nascentes da bacia do Rio Juquiá, onde estão instaladas sete de suas usinas hidrelétricas, utilizadas na produção de alumínio. A conservação da floresta teve como propósito a manutenção da regulação climática e a proteção do ecossistema. Além da proteção de grandes porções da floresta, com o passar do tempo, ocorreu também recomposição natural da mata em áreas degradadas, criando um maciço florestal que se integra harmonicamente com parques estaduais da região e compõe um corredor riquíssimo de Mata Atlântica no sudeste do país. 

Os organizadores da publicação entendem que, embora existam alguns livros relativos a esse bioma focados principalmente nas árvores, outras formas de vida como arbustos, ervas e lianas continuam pouco divulgados e, portanto, de difícil identificação, principalmente para o grande público. Conhecer o nome popular, o nome científico e ter acesso a outras informações proporcionam familiaridade, valorização e, consequentemente, estimulam a preservação das espécies, acreditam eles. Consideram que conhecer e divulgar a biodiversidade da Mata Atlântica de forma didática, como adotada no guia, constituem uma grande contribuição para a conservação dos remanescentes florestais.

O Legado das Águas – Reserva Votorantim, inserida nos municípios de Juquiá, Tapiraí e Miracatu, é uma das maiores reservas privadas de Floresta Atlântica que, somada às unidades de conservação estaduais, representa valioso corredor ecológico na Serra de Paranapiacaba, possuindo grande potencial para se transformar em um laboratório vivo, em que estudos de fauna e flora, ecologia, entre outros, podem ser conduzidos e gerar grande valor científico.

Conjugação de Fatores

Thiago esclarece que o projeto do livro nasceu em decorrência do programa da disciplina “Taxonomia de Campo” oferecida a cada dois anos no curso de pós-graduação de Biologia Vegetal do IB da Unicamp. A ideia da disciplina é a de levar os alunos, acompanhados dos professores, para uma área específica e estudar a flora do lugar e treiná-los em botânica sistemática. Ele conta: “Logo na segunda semana do curso, com todo o grupo reunido no Legado das Águas, vislumbrou-se a possibilidade e a oportunidade da publicação. Ocorria a conjugação de vários fatores favoráveis: estávamos diante de um ecossistema riquíssimo, que é a Reserva Votorantim; constituíamos um grupo com mais de vinte pós-graduandos com competências em várias áreas da botânica, mas que estavam lá para serem introduzidos em outras áreas que ainda não dominavam; contávamos com professores altamente especializados; e, além disso, o professor Vinicius Castro Souza e eu tínhamos sido coautores, juntamente com Harri Lorenzi, do livro Introdução à Botânica – Morfologia (editora Plantarum), destinado a cursos superiores. Essa feliz conjugação permitiu o desencadeamento do projeto”.  Sua experiência editorial e o envolvimento com o trabalho o levaram à condição de primeiro organizador. Em decorrência ainda do estudo, está para ser publicado em periódico internacional um artigo liderado por Gabriel Dalla Collettanicamp, relacionando todas as espécies encontradas na Reserva da Votorantim nas várias incursões do grupo.

Thiago Flores enfatiza que o mérito da publicação que resultou do levantamento das espécies nativas na Floresta Ombrófila Densa é de todos os professores e alunos de mestrado e doutorado da USP e Unicamp liderados pelos professores Ricardo Ribeiro Rodrigues e Vinicius Castro Souza. Para ele, “além da produção de um trabalho útil o projeto possibilitou um grande aprendizado e treinamento para todos nós alunos da pós-graduação”.

Para a realização do trabalho, o grupo todo ficou inicialmente 15 dias hospedado em Tapiraí, nos alojamentos da Votorantim. Thiago conta com entusiasmo o desenvolvimento do estudo: “Começávamos as atividades de campo às oito horas, almoçávamos um lanche e voltávamos no fim da tarde. Depois do jantar tínhamos aulas e seguíamos até as dez na noite identificando os materiais coletados. Foi uma imersão maravilhosa”. Cansativo? “Não, quando você faz o que gosta”, responde.  

Para ele esse tipo de trabalho muda a percepção dos pós-graduandos sobre a atividade científica e leva a um olhar diferente do adquirido quando se observam as plantas secas de um herbário. O projeto da publicação não se finalizou na disciplina, pois precisava de mais aporte científico e de mais dados. Então, depois de sua conclusão ele, Gabriel e um grupo menor de alunos o continuaram, realizando mais três incursões de 15 dias cada uma à área estudada, em grupos de cerca de dez alunos. Por tudo isso ele considera que a realização constitui um grande trabalho de grupo, que não foi simples e exigiu grande esforço, energia e envolvimento de todos os participantes.

Texto: Carmo Gallo Netto
Imagens: Divulgação
Antoninho Perri
Edição de Imagens: Fábio Reis
Jornal Da Unicamp

 

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