programa Ciência Aberta

A produção agropecuária brasileira não só é compatível com a conservação ambiental como pode aumentar nos próximos anos sem que ocorram novos desmatamentos, afirmaram os participantes do quinto episódio do programa Ciência Aberta de 2019, lançado nesta terça-feira (13/8).

O tema debatido no episódio foi Biomas e Biodiversidade. Participaram Carlos Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do programa BIOTA-FAPESP; Eduardo Assad, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Tecnológica em Informática para a Agricultura (CNPTIA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e Cristina Adams, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo os especialistas, os serviços providos pelos ecossistemas naturais, como a polinização e a preservação da água, são essenciais para garantir a produtividade das culturas agrícolas.

“Tendo como base 2005, reduzimos o desmatamento da Amazônia consideravelmente em 10 anos. Essa foi a maior política no mundo de redução de emissão de gases do efeito estufa por [redução do] desmatamento e mudança de uso do solo. Uma coisa extraordinária. E o que aconteceu com a agropecuária no período? Registrou aumento na produção”, disse Assad.

Segundo o pesquisador, a redução do desmatamento veio acompanhada da intensificação da agropecuária, com gado e plantações ocupando menos terreno e produzindo mais toneladas por hectare.

“Ficou muito claro que não é preciso desmatar para produzir. Basta fazer direito. Esse discurso de que é preciso expandir a fronteira agrícola para aumentar a produção precisa ser mais bem analisado. Intensificando e usando as tecnologias corretas, aumenta-se a produtividade. Nós defendemos, assim como várias outras instituições, que o Brasil pode dobrar a produção sem derrubar mais nenhum hectare”, disse.

Experiências

Bons exemplos de uso sustentável dos recursos naturais são encontrados principalmente na Amazônia, onde a castanha, o açaí e o pescado, entre outros produtos, chegam ao mercado beneficiando populações locais e, ao mesmo tempo, mantendo a floresta em pé.

“Existem várias experiências mostrando que é possível atender as expectativas tanto de quem está adquirindo o produto quanto das comunidades, sem causar um impacto negativo”, disse Adams.

A pesquisadora citou como exemplo a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, no Amazonas, que faz o manejo sustentável do pirarucu há 20 anos. Mais recentemente, na chamada Terra do Meio, no sul do Pará, foram criados mercados nos quais os coletores de castanha e de outros produtos da floresta negociam diretamente com empresas de outras regiões do Brasil.

Além dos sistemas de manejo feitos pelas populações tradicionais, Adams lembrou da política do governo federal para manejo sustentável comercial de madeira em unidades de conservação, como as florestas nacionais. A retirada é feita de maneira a garantir a continuidade de populações de espécies como o mogno e outras árvores de madeira nobre.

“Precisamos desses recursos, mas devemos usá-los de maneira sábia, respeitando sua capacidade de regeneração”, disse.

Segunda Revolução Verde

Ocorrida nas décadas de 1960 e 1970, a chamada Revolução Verde permitiu um aumento substancial da produtividade de alimentos no mundo todo, graças ao uso de maquinário agrícola, irrigação e sementes melhoradas.

De acordo com os participantes do programa, para o meio ambiente continuar fornecendo os recursos necessários para a vida torna-se cada vez mais necessária a Segunda Revolução Verde. A ideia é usar os avanços anteriores para alcançar uma produção agrícola que garanta a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, como polinização, estocagem de carbono e preservação dos recursos hídricos.

“[O modelo da primeira Revolução Verde] foi muito importante em um dado momento, mas requer áreas muito extensas, propriedades muito grandes, nas quais se pode aplicar tecnologia, maquinário e técnicas de custo muito elevado”, disse Joly.

A Segunda Revolução Verde, por sua vez, prevê usar toda a tecnologia existente, mas em paisagens multifuncionais e em áreas relativamente pequenas, se comparadas com as atuais, combinadas com mata nativa e criação de animais, como ocorre nas agroflorestas.

“Com isso, passa-se a ter um componente em que a produção é maior porque, além de proteger [de pragas] a área de cultivo, protegem-se os serviços ecossistêmicos, como a população de abelhas polinizadoras, por exemplo, extremamente importantes para a agricultura. Promove-se ainda a retenção de recursos hídricos. A água cai e penetra no solo, não corre superficialmente, causando erosão do solo e assoreamento dos rios. Tudo isso fixando carbono no solo, evitando liberá-lo na atmosfera”, disse Joly.

O episódio Biomas e Biodiversidade de Ciência Aberta teve a participação de alunos do curso de meio ambiente da Escola Técnica Estadual (Etec) Guaracy Silveira, do Colégio Joana D’arc, da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do ABC (UFABC), da Universidade Paulista (Unip) e de interessados que se inscreveram para participar do programa.

Ciência Aberta é uma parceria da FAPESP com o jornal Folha de S. Paulo. O programa é apresentado por Alexandra Ozorio de Almeida, diretora de redação da revista Pesquisa FAPESP.

O novo episódio pode ser visto em www.fapesp.br/ciencia-aberta, na página da Agência FAPESP no Facebook https://www.facebook.com/agfapesp e no YouTube https://www.youtube.com/user/fapespagencia e no site da TV Folha https://www1.folha.uol.com.br/tv/.

André Julião
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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