Meio Ambiente

seminário on-line

A construção de novas rotas de desenvolvimento econômico baseadas na valorização e na valoração da biodiversidade e dos serviços prestados pela natureza (ecossistêmicos), como o fornecimento de água e a regulação climática, será crucial não só para evitar crises desencadeadas por novas pandemias como para superar a atual.

A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do seminário on-line “Biodiversidade, crise climática, economias e pandemias”, que aconteceu em 22 de maio por ocasião do Dia Internacional da Biodiversidade.

Mata Atlântica em território brasileiro

A despeito do desmatamento em larga escala praticado nos últimos séculos, que reduziu a Mata Atlântica a pouco mais de 12% de sua área original, o bioma continua a ser um dos principais repositórios de biodiversidade do planeta. E, na contramão de um processo que parecia irreversível, a cobertura florestal apresentou indícios de crescimento em décadas recentes.

Para verificar esses indícios e compreender a dinâmica de degradação e regeneração dos fragmentos florestais, um estudo conduzido no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) comparou imagens de superalta resolução obtidas recentemente por satélites com fotografias aéreas georreferenciadas colhidas em 1962. Com auxílio de pesados recursos computacionais, foi possível rastrear nas figuras a evolução da cobertura florestal, utilizando como marcadores duas espécies pioneiras de árvores: Cecropia hololeuca (embaúba prateada) e Tibouchina pulchra (manacá-da-serra).

Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto

Estudo publicado na Nature Communications conecta pela primeira vez a demanda de certos países desenvolvidos por commodities agrícolas ao aumento do risco de malária em países fornecedores desses produtos.

O trabalho, conduzido por cientistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e colegas da Universidade de Sidney (Austrália), estima que cerca de 20% do risco de malária em hotspots de desmatamento é impulsionado pelo comércio internacional de itens como madeira, produtos madeireiros, tabaco, cacau, café e algodão.

A pesquisa abrange o período de 2000 a 2015 e foi desenvolvida no âmbito do projeto “Genômica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de Anopheles darlingi”, apoiado pela FAPESP.

Para estabelecer a metodologia – que cruzou rotas comerciais mundiais com dados de perda de cobertura florestal em países exportadores de commodities agrícolas em que ocorre a doença – Maria Anice Mureb Sallum, professora da FSP-USP, e seu aluno de doutorado Leonardo Suveges Moreira Chaves, primeiro autor do artigo, tiveram a colaboração de Manfred Lenzen, professor da Universidade de Sidney, e de sua equipe.

“Lenzen mantém uma base de dados sobre comércio internacional que inclui 189 países e fontes como a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, entre outras. Há dados que nos permitem saber quem vende, o que vende, para onde vende, quem compra, quem beneficia e para onde é vendido o produto beneficiado. Por exemplo: um país que compra cacau, produz o chocolate e exporta para o mundo inteiro. Todos os elos da cadeia foram considerados”, explica Sallum.

De acordo com Leonardo Suveges, com o uso de computação de alto desempenho, a equipe de Lenzen examinou mais de 1 bilhão de rotas de suprimentos de commodities internacionais. “Como a malária está muito ligada à alteração da paisagem pelo desmatamento, que favorece a proliferação dos vetores e a exposição do homem a esses insetos, conseguimos atribuir uma parte dos casos de malária ao desmatamento – à qual chamamos risco de malária: quantos casos haveria na ocorrência de desmatamento e na ausência de intervenções de controle, como mosquiteiros impregnados com inseticida e tratamentos com medicamentos combinados com artemisinina. E uma parcela desse risco está associada ao comércio de commodities”, resume.

Os cientistas selecionaram então os países com casos de malária em que há hotspots de desmatamento e cruzaram com os dados da cadeia de produção de commodities associada ao desmatamento nesses lugares, verificando para onde os produtos são exportados. Concluíram que cerca de 10% do risco de malária ligado ao desmatamento está conectado a apenas 10 nações compradoras: Alemanha, Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Países Baixos e Bélgica, onde a demanda por determinados produtos pode estar exacerbando o risco de malária para 10,7 milhões de pessoas em países de baixa renda, principalmente em países da África Subsaariana.

O risco em números

A Nigéria sofre o maior risco de malária com conexões identificadas ao desmatamento: 5,98 milhões de casos em 2015, em parte causados pela exportação de madeira para a China (em um total de US$ 332 milhões em 2015), grãos de cacau para os Países Baixos (US$ 334 milhões), Alemanha (US$ 72 milhões), Bélgica, França, Espanha e Itália (US$ 35 milhões) e carvão para a Europa (US$ 35 milhões).

Em seguida vem a Tanzânia, onde 5,66 milhões de pessoas correm risco de malária relacionado ao desmatamento, em parte por conta das exportações de tabaco não beneficiado para a Europa e a Ásia (US$ 344 milhões), algodão cru para o sudeste da Ásia (US$ 41 milhões) e madeira serrada para a Índia (US$ 20 milhões).

Em Uganda, 5,49 milhões de casos de risco da doença estão associados ao desmatamento, potencialmente impulsionado pela exportação de café não beneficiado para a Itália (US$ 88 milhões em 2015), Alemanha (US$ 63 milhões), Bélgica (US$ 40 milhões) e EUA e Espanha (ambos US$ 21 milhões) e, em menor grau, de algodão cru para o sul e o sudeste asiáticos (US$ 15 milhões).

Em Camarões, também com 5.49 milhões de casos, parte do risco de malária atrelado ao desmatamento foi conectada à exportação de cacau para os Países Baixos (US$ 300 milhões), Espanha, Bélgica, França e Alemanha (que somaram US$ 79 milhões em 2015), madeira bruta para a China (US$ 175 milhões) e madeira serrada para o mesmo país, além de Bélgica, Itália, EUA e outros (somando US$ 440 milhões).

O artigo, intitulado Global consumption and international trade in deforestation-associated commodities could influence malaria risk, revela que os outros países com maior risco da doença atrelado ao desmatamento, em ordem decrescente, foram República Democrática do Congo, Índia, Zâmbia, Myanmar, República Centro-Africana e Burundi. Eles têm como maior parceiro comercial a China, para onde vendem sobretudo produtos madeireiros.

Em nota suplementar ao trabalho publicado, os autores calcularam ainda que as importações de commodities feitas pela China em 2015 responderam por 1,7 milhão de casos de malária nos países onde o desmatamento está ligado à sua produção e exportação. A Alemanha respondia por 1,5 milhão de casos, seguida do Japão (986 mil), dos Estados Unidos (770 mil), do Reino Unido (815 mil), da Itália (595 mil), dos Países Baixos (581 mil), da Espanha (466 mil), da França (463 mil) e da Bélgica (361 mil).

Compensação insuficiente

“Chama a atenção o fato de que Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Japão, alguns dos principais importadores citados como corresponsáveis pelo risco de malária, são os mesmos países que fornecem apoio financeiro para programas de controle da doença, especialmente na África Subsaariana”, aponta Suveges.

Mas a conta não fecha. Em 2017, o investimento global para controle e prevenção da malária foi de aproximadamente US$ 3,2 bilhões, com doadores de alta renda fornecendo 72% do financiamento. No entanto, afirmam os cientistas no artigo, os países endêmicos de malária arcaram com 28% do custo e o nível geral de financiamento foi menos da metade do necessário para alcançar uma redução nas taxas de morbidade e mortalidade pela doença, de acordo com a meta 3.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos para 2030 pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Sallum ressalta o fato de que, durante todo o período estudado, os países produtores e exportadores de commodities permaneceram nessa posição. “Sabemos por estudos já publicados que os efeitos sociais do desenvolvimento econômico têm impacto sobre a malária, porque as pessoas conseguem morar melhor, ter condições mais dignas de manejo da terra e tudo isso consegue protegê-las. Assim, se o país produtor de commodities se tornasse o fornecedor de manufaturados, poderia agregar um valor maior ao produto dele e posicionar a sociedade em uma situação mais vantajosa – o que poderia diminuir a necessidade de desmatamento e o risco de malária. Mas não há variação de papéis nessa cadeia comercial, o que demonstra a desigualdade que impera nessas relações, tendo em vista que os preços das commodities são estipulados pelos países compradores.”

Karina Ninni
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Imagens de satélite

A poluição atmosférica diminuiu consideravelmente em algumas capitais brasileiras em decorrência das medidas de distanciamento social estabelecidas para retardar a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Imagens de satélite do Instituto Real de Meteorologia dos Países Baixos (KNMI) mostram, na Região Metropolitana de São Paulo, redução de 33% nos níveis de dióxido de nitrogênio (NO2), poluente associado à queima de diesel por veículos e à produção industrial.

“As imagens mostram que a emissão do gás diminuiu mais de 30% em São Paulo na comparação entre os meses de março e abril do ano passado e deste ano. Também é possível identificar uma grande redução de NO2 em outras regiões metropolitanas, como as de Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e Vitória (ES). A queda está fortemente ligada à diminuição da atividade industrial e dos transportes”, diz Eduardo Landulfo, pesquisador do Centro de Lasers e Aplicações do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

O pesquisador destaca ainda que, como São Paulo é a cidade com a maior frota de veículos e atividade industrial, é possível ver com mais clareza uma diminuição drástica e identificar em que áreas a atividade cessou na região metropolitana. “O curioso é que, no caso da Grande São Paulo, a área que está um pouco mais avermelhada, portanto com maior concentração de NO2, é a região da marginal Tietê e do viaduto para Santana do Parnaíba [Cebolão para a rodovia Castelo Branco], mostrando que ali ainda permanece tráfego intenso de caminhões. Já a região sudeste/sul está bem limpa, inclusive Santo Amaro e o ABC paulista”, diz.

Por meio de vários projetos financiados pela FAPESP, o pesquisador vem desenvolvendo o radar de laser denominado Lidar (sigla em inglês para detecção de luz e medida de distância), que permite o sensoriamento remoto ativo da atmosfera para a detecção de poluentes.

“Trabalhamos em colaboração com a Agência Espacial Europeia, que nos forneceu as imagens de satélite. Cuido da parte de monitoramento, mas usando sensoriamento remoto com o uso de laser e da validação desses dados de satélite”, diz. A base das imagens foi gerada e cedida pelo pesquisador Henk Eskes, colaborador do KNMI.

Os dados sobre a redução da poluição na Região Metropolitana de São Paulo serão importantes para estudos que estão sendo realizados por pesquisadores que integram o projeto apoiado pela FAPESP sobre o comportamento dos gases de efeito estufa.

A coordenadora do projeto, Maria de Fátima Andrade , afirma que os dados obtidos neste período de quarentena vão permitir medir níveis de poluentes que geralmente são apenas estimados.

“Pretendemos contribuir com o balanço de emissões de gases de efeito estufa da cidade de São Paulo. É também interessante notar que as imagens de satélite confirmam a análise feita anteriormente com dados da Cetesb [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo], sobre a redução da poluição”, diz Andrade (leia mais em: agencia.fapesp.br//32892/).

Na comparação dos dados da Cetesb foi observada a diminuição de cerca de 50% de poluentes primários como o monóxido de carbono (CO) e os óxidos de nitrogênio (NOx) entre as semanas dos dias 15 a 21 e 22 a 28 de março.

Além da redução significativa dos poluentes primários, diretamente ligados à emissão veicular, também houve diminuição de cerca de 30% de material particulado inalável. Entre os poluentes estão o MP 10 (material particulado com até 10 micrômetros de diâmetro), relacionado à poeira do solo levantada pelos veículos, e o MP 2.5 (com até 2,5 micrômetros de diâmetro), formado por processos secundários que ocorrem após a queima de combustível.

A equipe de pesquisadores está fazendo medições com radares em três áreas da cidade para identificar a produção de gases do efeito estufa. “O projeto temático tem o objetivo de entender quanto a cidade de São Paulo produz de gases do efeito estufa. O foco principal são o dióxido de carbono [CO2] e o metano, mas outros gases, como o CO e o próprio NO2, são importantes por serem resultado da queima de combustíveis em veículos. Esse índices auxiliam na interpretação dos dados como um todo”, diz Landulfo, que também integra a pesquisa coordenada por Andrade.

Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

contêineres com equipamento para coleta de dados atmosféricos

Pesquisadores coletam diariamente, na Amazônia e em outras regiões brasileiras, milhares de dados sobre as condições da atmosfera, entre eles a concentração de material particulado e de gases, as propriedades de nuvens e os parâmetros meteorológicos como temperatura, umidade e velocidade dos ventos. Essas informações ajudam a entender, por exemplo, o impacto da poluição no clima e no ciclo hidrológico. Também permitem estimar como determinadas localidades serão afetadas pelas mudanças climáticas.

Boa parte dos dados gerados não é publicada e permanece inacessível à grande maioria dos cientistas. Com o objetivo de mudar esse panorama e de contribuir para a melhoria do sistema de ciência e tecnologia do país, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) firmaram um acordo com o Oak Ridge National Laboratory, do Departamento de Energia dos Estados Unidos. A instituição tem 27 anos de experiência na gestão de dados ambientais e atmosféricos.

A cooperação envolve a troca de conhecimento (compartilhamento de dados e softwares de código aberto) e o intercâmbio de pesquisadores para o aprendizado de técnicas e mecanismos de gerenciamento de dados, integração, compartilhamento, modelagem e visualização de dados. O tema foi debatido no 5º Workshop on Data Science – Challenges in Brazilian Context to Promote Atmospheric Data Management , realizado em fevereiro, na Escola Politécnica (Poli) da USP.

O acordo visa apoiar o desenvolvimento de um sistema e de serviços computacionais para que a gestão e a curadoria dos dados atmosféricos possam ser feitas nas instituições brasileiras, a começar pelas informações coletadas em projetos apoiados pela FAPESP, como a campanha científica GoAmazon (Green Ocean Amazon) e o projeto “O ciclo de vida de aerossóis e nuvens na Amazônia”, vinculado ao Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

“Estima-se que mais de 80% dos dados atmosféricos coletados não são publicados. E, em geral, eles são obtidos com recursos públicos. São, portanto, dados públicos. Avançar na gestão desse conhecimento, disseminando-o e tornando-o acessível aos demais cientistas, é otimizar o uso dos recursos. Contribui ainda para o avanço da ciência, pois mais pesquisadores e a sociedade como um todo poderão ter acesso a essas valiosas informações”, disse Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e membro da coordenação do PFPMCG.

A iniciativa tende a solucionar um gargalo importante na pesquisa como um todo. No mundo, há maior coleta do que análise de dados. Isso porque, enquanto o investimento em infraestrutura e o avanço tecnológico permitiram avançar nas formas de coleta, ainda é necessário muito tempo e capital humano para análises baseadas em big data. Esse é o foco do Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Big Data da Poli-USP, organizador do evento.

“A soberania do país está relacionada com a capacidade de gerir esses dados, fazer descobertas a partir deles e desenvolver uma infraestrutura brasileira. É importante criar essa competência. Nossa ciência atmosférica é muito avançada e é preciso também capacitação e infraestrutura para trabalhar com grandes volumes de dados atmosféricos, que permitam a gestão e a curadoria integrada, envolvendo desde a aquisição, o processamento, a publicação e até a análise das informações”, disse Pedro Luiz Pizzigatti Corrêa, professor do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Poli- USP e coordenador do acordo.

Segundo Corrêa, a formalização do convênio com o laboratório do Departamento de Energia dos Estados Unidos vai permitir que cientistas brasileiros possam aplicar o conhecimento de outras iniciativas de gestão de dados atmosféricos, além de se capacitar para desenvolver uma infraestrutura adequada ao cenário nacional. “O objetivo é trazer essa competência para o Brasil, gerando uma infraestrutura computacional adequada ao nosso ambiente de pesquisa e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores capazes de gerir essa infraestrutura”, disse Corrêa.

De acordo com Artaxo, em todas as áreas da ciência é extremamente importante fazer o gerenciamento e a otimização do uso de dados e o acordo é um passo importante para facilitar o compartilhamento do conhecimento. “A quantidade de dados ambientais coletada atualmente é enorme e ferramentas de visualização e disponibilização de big data são absolutamente necessárias. São dados importantes, às vezes históricos, mas, por causa do grande volume, impossíveis de serem analisados e publicados por um único grupo de pesquisa ou pesquisador. Acabam sendo colocados na gaveta ou deixados no hard disk de um computador qualquer. Apesar de serem únicos, provavelmente estarão perdidos daqui a 10 ou 20 anos, com informações valiosas financiadas pelo Estado”, disse Artaxo, que também é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU).

A ideia é que, com a colaboração, os dados fiquem abertos para a população em geral acessar, assim como já acontece em plataformas como o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) do Inpe, que traça o histórico dos últimos 30 anos de focos de desmatamento na Amazônia.

“O objetivo é integrar. Com a colaboração será possível agregar dados de diferentes naturezas: de emissão atmosférica, de mudanças climáticas, variáveis meteorológicas e de desmatamento. Assim, será possível, por exemplo, verificar em uma única plataforma se em um ano de muita poluição havia muito foco de queimada”, disse Luciana Varanda Rizzo, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.

Outra vantagem do projeto está em incentivar a interdisciplinaridade. “É muito dado para pouca gente trabalhar. Ao compartilhá-los, é possível que pesquisadores de outras áreas façam correlações, por exemplo, ajudando a identificar o impacto da poluição na população de uma determinada espécie”, disse Rizzo.

No acordo, o Atmospheric Radiation Measurement (ARM) – programa responsável pelo desenvolvimento de ferramentas computacionais do Oak Ridge National Laboratory – vai fornecer recursos para gestão, compartilhamento e visualização de dados atmosféricos para que pesquisadores da USP, Unifesp e Inpe possam operacionalizar um Centro de Gestão de Dados Atmosféricos, com grandes bancos de dados, sistemas de compartilhamento e de inteligência artificial para o melhor aproveitamento das informações coletadas.

Desde 2015, a maior parte dos dados do projeto GoAmazon é depositada no ARM. A outra parte está no repositório do Instituto Max Plank, na Alemanha. “Estamos trabalhando com a USP nos últimos cinco anos para o compartilhamento de dados, padrões de dados abertos e gerenciamento de dados. Nos próximos três anos, trabalharemos inicialmente no sentido de compartilhar conhecimento e desenvolver algumas ferramentas. O acordo que estamos desenvolvendo vai permitir também a mobilidade de alunos para a capacitação", disse Giri Prakash, diretor do Data Center do ARM.

Atualmente, o gerenciamento de dados dos projetos de pesquisa é feito exclusivamente pelo pesquisador. “Como hoje temos uma quantidade brutal de dados sendo coletada, nem todos os pesquisadores têm o conhecimento, a infraestrutura e o tempo necessário para disponibilizar esse material. Por isso, serão construídas ferramentas para facilitar o trabalho desses pesquisadores”, disse Artaxo.

Desde 2017, a FAPESP exige um Plano de Gestão de Dados entre os anexos obrigatórios de propostas submetidas, especificando quais dados serão produzidos e como serão gerenciados, compartilhados e preservados.

Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

fragmentos de ossos do Neokotus sanfranciscanus

Foram descobertos, no norte de Minas Gerais, os restos fósseis de uma espécie de lagarto que viveu na região há mais de 130 milhões de anos. O animal, denominado Neokotus sanfranciscanus, é o mais antigo representante da ordem Squamata (grupo de répteis com escamas que inclui lagartos e serpentes) encontrado na América do Sul. Seu achado mostra que esses lagartos já estavam presentes no continente pelo menos 20 milhões de anos antes do que se pensava. E que faziam parte de uma distribuição global muito mais ampla, em contraste com os altos níveis de endemismo das faunas modernas.

O estudo foi coordenado por Jonathas Bittencourt, ex-bolsista de pós-doutorado da FAPESP, atualmente professor na Universidade Federal de Minas Gerais. E contou com a participação de Max Langer, professor do Departamento de Biologia da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), outorgado a Bittencourt, e da FAPESP, por meio de auxílio a Projeto Temático liderado por Langer.

Tucano de bico preto

Nas últimas décadas, pesquisas têm mostrado como a perda de florestas tem impacto direto na diminuição do número de espécies. Agora, um grupo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstra que mudanças na paisagem causadas pelo desmatamento, perda de área e fragmentação florestal resultam não apenas na diminuição de espécies, mas também de suas interações ecológicas. O trabalho, publicado com destaque na capa da revista Biotropica, teve apoio da FAPESP.

“Em ecologia, sabemos muito sobre a relação espécie-área, mas pouco ou quase nada sobre a relação interações-área. Neste estudo, utilizamos redes ecológicas para desvendar como interações de dispersão de sementes respondem à perda de área e à fragmentação da paisagem. Conforme os fragmentos florestais ficam menores, perdemos interações ecológicas importantes para o funcionamento das florestas e manutenção da biodiversidade”, disse Carine Emer, primeira autora do artigo, produzido durante seu pós-doutorado no Laboratório de Biologia da Conservação (Labic) do Instituto de Biociências (IB) da Unesp, em Rio Claro.

A pesquisa integra o Projeto Temático “Consequências ecológicas da defaunação na Mata Atlântica”, coordenado por Mauro Galetti, professor do IB-Unesp. Para este trabalho, os pesquisadores compilaram dados de 16 estudos, cada um sobre um fragmento florestal diferente de Mata Atlântica, formando um gradiente de perturbação humana inferido pelo tamanho da área remanescente de cada fragmento. Foram cruzadas informações como número de espécies de aves, de plantas e de interações entre esses organismos. Os pesquisadores concluíram que, quanto menor o fragmento florestal, menor é o número de espécies e de interações que ali conseguem persistir. No estudo, a interação considerada foi a dispersão de sementes por aves frugívoras, essencial para a constante regeneração da floresta.

Florestas e interações

A floresta mais conservada e extensa do estudo, situada no Parque Estadual Intervales, no sul do Estado de São Paulo, tem 42 mil hectares e apresentou a maior diversidade de espécies (81 de aves frugívoras e 185 de plantas frutíferas) e de interações planta-dispersor de sementes (1.100 ou 3,65 por espécie).

No outro extremo do gradiente, um fragmento de seis hectares que se regenera há pouco mais de oito anos em Piracicaba, por sua vez, apresentou um número bem menor de aves frugívoras (28 espécies) interagindo com poucas espécies de plantas frutíferas (6). Foram registrados, portanto, apenas 169 interações de dispersão de sementes, ou seja, 1.47 por espécie.

Enquanto na primeira área uma espécie de ave pode dispersar sementes de três a quatro espécies de plantas, na última não dispersa mais do que duas.

“Primeiramente, desaparecem as aves maiores, essenciais para dispersar espécies de plantas com sementes grandes. A perda, portanto, não é só numérica, mas também funcional, influenciando diretamente o processo de regeneração florestal. A médio-longo prazo, plantas com sementes grandes que perderam seus principais dispersores tendem a desaparecer da paisagem, ficando restritas a áreas maiores e bem preservadas. A floresta fragmentada torna-se mais pobre numérica e funcionalmente, onde persistem apenas espécies de aves pequenas cujo papel funcional é dispersar espécies de plantas com sementes pequenas; ou seja, perdemos a função ecológica de dispersão de sementes grandes, que pode alterar para sempre nossas florestas”, disse a pesquisadora.

Estudo anterior do grupo, que também teve Emer como primeira autora, mostrou que interações envolvendo espécies de grande porte se perdem em fragmentos florestais com menos de 10 mil hectares. O trabalho mostrou também a importância de aves pequenas e generalistas, que dispersam plantas com sementes pequenas e também de hábitos generalistas, para manter a conectividade da paisagem fragmentada. Em outras palavras, “a Mata Atlântica é hoje conectada por interações de aves generalistas dispersando espécies de plantas adaptadas a ambientes perturbados”, explicou Emer.

Além de espécies maiores, a fragmentação prejudica as chamadas interações específicas. Assim, uma planta dispersada por apenas uma ou poucas espécies de ave, por exemplo, corre mais risco de extinção do que outra cujos frutos são comidos por várias aves diferentes.

Para completar, em um trabalho publicado no ano passado na revista Science Advances, o grupo quantificou quantos milhões de anos de história evolutiva de dispersão de sementes são perdidos na Mata Atlântica devido à defaunação, direcionada a aves de grande porte.

“Temos hoje em torno de 12% da Mata Atlântica, a maior parte em pequenos fragmentos florestais. Entre as áreas que analisamos, há uma grande diversidade de interações de dispersão de sementes, a maioria ocorrendo em apenas um ou poucos fragmentos. Estas interações correspondem a milhões de anos de evolução, ou seja, espécies com diferentes trajetórias evolutivas que no tempo atual, interagem entre si, e estão cada vez mais restritas a poucas áreas. Ou seja, chegamos a um limiar em que não podemos perder mais nada – cada fragmento florestal da Mata Atlântica corresponde a milhões de anos de história evolutiva única a ser preservada.” disse.

O artigo Seed dispersal networks in tropical forest fragments: Area effects, remnant species, and interaction diversity (doi: 10.1111/btp.12738), de Carine Emer, Pedro Jordano, Marco A. Pizo, Milton C. Ribeiro, Fernanda R. da Silva e Mauro Galetti, pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/btp.12738.

André Julião
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Amazônia

A ciência produzida na Amazônia é de extrema importância para o mundo. E a única maneira de implementar políticas públicas acertadas na Amazônia é com base em evidências científicas”, disse Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), em palestra apresentada na FAPESP Week France, realizada entre os dias 21 e 27 de novembro.

Artaxo é membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Para o pesquisador, é importante compreender como preservar esse ecossistema por ser algo único em todo o mundo. Não apenas é a maior extensão de floresta tropical como também o único lugar em que a própria floresta controla seu clima interno, com processos que impactam o mundo todo. Com sua biodiversidade ímpar, a Amazônia possibilita a manutenção de serviços ecossistêmicos vitais e pode contribuir também para absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, se políticas de preservação efetivas forem implantadas.

Artaxo explicou que a floresta tem a capacidade de regular o ciclo hidrológico de grande parte da América do Sul. “A Amazônia é responsável pelo processamento e exportação de vapor d’água para a atmosfera, levando chuva e umidade para diferentes regiões, como o Brasil central, São Paulo e o norte da Argentina, por exemplo. Cada árvore processa e emite grandes quantidades de água para a atmosfera. Há ainda as emissões de gases, como o isopreno e partículas biogênicas, que são essenciais para a formação de nuvens, pois todo o sistema é integrado e otimizado pela natureza”, disse.

Outro exemplo importante do impacto da floresta está na sua capacidade de armazenar carbono, questão fundamental para as mudanças climáticas. “A Amazônia contém 15% da produtividade primária [fotossíntese] no mundo. Portanto, é uma engrenagem importante para o ciclo do carbono global. Ela armazena entre 100 e 130 bilhões de toneladas de carbono em biomassa. Quanto é isso? Queimamos todos os anos em combustíveis fósseis cerca de 9 gigatons de carbono. Portanto, isso equivale entre 10 e 13 anos da emissão pela queima de combustíveis fósseis no mundo. É uma quantidade enorme, que pode fazer toda a diferença em termos de mudanças climáticas globais”, disse Artaxo.

Segundo o pesquisador, a regulação hidrológica e a capacidade de estocar carbono fazem parte de um sistema complexo e não linear de interação entre a floresta, a atmosfera e o solo, que ainda precisa ser estudado, monitorado e conhecido. “No entanto, sabemos que o ecossistema amazônico sofre pressões da agricultura, do desmatamento e das mudanças climáticas, o que traz uma série de mudanças importantes e impactos regionais e globais”, disse.

A floresta está ligada ao clima global de maneira iterativa, explicou Artaxo. “O desmatamento da Amazônia influencia o clima global e o clima global também influencia a floresta de uma maneira muito significativa. Como o desmatamento e as mudanças climáticas são impactos que já estão ocorrendo e influenciam na integridade da floresta, muitos estudos já documentam mudanças no clima e no ciclo do carbono. Por isso é importante estudar de modo integrado os processos e os efeitos dessas mudanças no ecossistema”, disse.

Um dos principais impactos já observados está no aumento da temperatura média não só na Amazônia, mas em outras regiões influenciadas pela hidrologia da floresta. "A média anual de temperatura na Amazônia está cerca de 2° C mais alta do que no início do século passado. A média global em áreas continentais subiu 1,5 °C. Podem parecer mudanças pequenas, mas elas têm efeitos importantes no funcionamento do ecossistema", disse.

Entre os impactos documentados, está o aumento na duração da estação seca, intensificação do ciclo hidrológico e diminuição da evapotranspiração da floresta, especialmente na região do arco do desmatamento.

Dados da literatura científica mostram ainda um forte crescimento do desmatamento. "Em 1988, 5% da Amazônia havia sido desmatada e, em 2018, o índice saltou para 19%. Além disso, tivemos uma derrubada adicional de 9.750 quilômetros quadrados em 2019. Importante salientar que 90% desse desmatamento é ilegal. Como se vê, em poucas décadas, houve uma grande mudança na área de floresta da Amazônia", disse.

Os impactos da degradação ambiental são diversos e afetam todo o país. "O mais recente, que ganhou muito destaque, foi o rio de fumaça que veio da Amazônia, passou por Mato Grosso, Goiás e escureceu o céu da cidade de São Paulo às três horas da tarde. Esse tipo de fenômeno pode se tornar mais comum e já é visto, com diferentes intensidades e frequências, em imagens de satélites", disse.

“Estamos alterando o estado de equilíbrio que existia na Amazônia há 20 ou 30 anos. Atualmente, parte do bioma permanece em estágio de floresta e parte foi transformada em área de pastagem, cultivo ou floresta secundária abandonada”, disse.

De acordo com Artaxo, alguns estudos mostram que, se a temperatura aumentar 4 °C ou se o desmatamento chegar a 40% da área total (atualmente está em 20%), a floresta remanescente pode não ter condições de se autossustentar, o que trará impactos enormes nas chuvas no continente sul-americano e também no clima global.

Apoio a estudos na Amazônia

A FAPESP tem apoiado diversas pesquisas e projetos que estudem a região amazônica sob diferentes e complementares perspectivas. Muitos desses projetos de pesquisa são financiados em parceira com outras instituições, como a Fundação de Pesquisa da Amazônia (Fapeam), o Departamento de Energia dos Estados Unidos, a National Science Foundation (EUA), o Belmont Forum e o Conselho de Pesquisa em Meio Ambiente do Reino Unido (Nerc).

O presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, também ressaltou durante o simpósio a importância das pesquisas científicas realizadas na Amazônia. "A Fundação é a maior apoiadora de estudos na Amazônia e temos um dos mais amplos portfólios de pesquisa em mudanças climáticas. Há muitos anos a Amazônia tem sido um assunto estratégico para a FAPESP", disse Zago.

São mais de 2.500 projetos de pesquisa na região amazônica. Da mesma forma, a FAPESP tem um portfólio com mais de 2.300 projetos de pesquisa sobre mudanças climáticas.

Muitos desses projetos ocorrem na Torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), em funcionamento desde 2015 e que tem como objetivo monitorar alterações no funcionamento natural do ecossistema ao longo de várias décadas. Com 325 metros de altura e instalada a 150 quilômetros a nordeste de Manaus, a torre foi construída por meio de uma parceria entre o Instituto Max Planck, da Alemanha, e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) do Brasil, com recursos da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep).

Agências de fomento estaduais, como a FAPESP, a Fapeam e a Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar), financiam projetos de pesquisa na torre. Entre os projetos apoiados pela FAPESP na torre ATTO estão dois Temáticos: o “ GoAmazon: interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica” e “ O ciclo de vida de aerossóis e nuvens na Amazônia: emissões biogênicas, emissões de queimadas e impactos no ecossistema”, ambos coordenados por Artaxo.

Artaxo destacou o monitoramento do desmatamento realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e os diferentes satélites que avaliam o ciclo de carbono.

“A Amazônia é um laboratório importante para entendermos o funcionamento da interação entre o clima e a biologia da floresta, chave na questão das mudanças climáticas globais. Precisamos desenvolver ciência e políticas públicas sustentáveis para usar e preservar esse rico patrimônio brasileiro, chave para as gerações atuais e futuras”, disse Artaxo.

O simpósio FAPESP Week France foi realizado entre os dias 21 e 27 de novembro, graças a uma parceria entre a FAPESP e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Leia outras notícias sobre o evento em www.fapesp.br/week2019/france.

Maria Fernanda Ziegler, de Paris
Agência FAPESP“

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

vírus que infectam plantas

Um inventário que será divulgado na revista Biota Neotropica no dia 8 de maio reúne informações sobre 219 patógenos capazes de infectar plantas no Brasil, inclusive muitas espécies de relevância agrícola. Trata-se da maior compilação sobre vírus de planta já feita no país e, além da descrição dos microrganismos, reúne dados sobre as doenças por eles causadas e sua ocorrência em vegetações nativas, cultivadas, ornamentais e até em ervas daninhas.

“Desde o começo da minha carreira criei o hábito de reunir publicações sobre vírus de planta no Brasil. É um trabalho de décadas, com cerca de 8 mil referências registradas até agora. O problema é que, se alguém me perguntasse quantos vírus registrados existem no Brasil, eu não saberia responder. Por isso, resolvi organizar uma lista, em ordem alfabética, das diferentes espécies de plantas e dos vírus capazes de infectar cada uma delas naturalmente. Também foi elaborada uma listagem reversa, com a relação dos vírus e viroides [pequenos fragmentos de RNA sem capa proteica que se autorreplicam no interior das células vegetais podendo causar doenças] e a indicação das plantas que cada um deles infecta”, conta Elliot Watanabe Kitajima, pesquisador do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

Engenheiro agrônomo formado na Esalq em 1958, Kitajima concluiu o doutorado em 1967, na mesma instituição. Foi pesquisador no Instituto Agronômico (IAC), professor na Universidade de Brasília (UnB) e voltou para a Esalq como professor visitante. Lá se aposentou (2006) e, atualmente, atua como pesquisador colaborador. O inventário é resultado de projetos desenvolvidos no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP.

“A revisão de registros de vírus, que vai de 1926 até 2018, resume basicamente tudo o que se conhece sobre vírus de plantas no Brasil, tanto de vegetação espontânea quanto cultivada. Trata-se, portanto, de um banco de dados importantíssimo, que será útil tanto para os pesquisadores quanto para a formulação de políticas de prevenção de pragas”, avalia Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Programa BIOTA-FAPESP.

Joly destaca também a importância do novo inventário para a atividade econômica. “A lista inclui 346 espécies de plantas, pertencentes a 74 famílias diferentes, que são naturalmente infectadas por vírus. Plantas cultivadas, como as do grupo citros, por exemplo, têm vários tipos de vírus relacionados. Muitos deles são conhecidos e outros não. De qualquer forma, a ocorrência desses patógenos afeta a produção ou a qualidade do fruto. Conhecê-los e saber identificá-los rapidamente pode evitar prejuízos”, diz.

A maioria dos vírus e viroides que integram o inventário é reconhecida pelo International Committee on Taxonomy of Viruses (ICTV) – entidade que regulariza e organiza a classificação taxonômica dos vírus. Alguns dos microrganismos listados ainda aguardam a oficialização. A análise dessa listagem permite acompanhar a história de ocorrência de patógenos na agricultura brasileira e a evolução da virologia vegetal no Brasil, bem como mapear os principais centros de pesquisa na área.

Um dos exemplos é a tristeza da laranjeira, virose que, na década de 1940, destruiu cerca de 10 milhões de laranjeiras e provocou sérios prejuízos econômicos. O problema foi resolvido com base em pesquisas científicas e o Estado de São Paulo tornou-se o maior produtor de suco de laranja industrializado do mundo.

Outra virose importante, que emergiu na década de 1970, ficou conhecida como mosaico dourado do feijoeiro. Nesse período, o Brasil era um dos maiores produtores de feijão do mundo e teve sua produção seriamente afetada, precisando inclusive importar grãos do México. Há ainda o mosaico do mamoeiro, que dizimou plantações da fruta em quase todo o país. O controle dessa praga, por meio da erradicação sistemática das plantas afetadas, foi tão eficiente e importante que propiciou ao Estado do Espírito Santo, pioneiro na implantação da medida, se tornar um grande polo exportador de mamão.

“Não se pode afirmar que um vírus seja mais importante que os demais. Isso vai depender de vários fatores, como o temporal, o geográfico, o climático, a cultura [espécie ou variedade], o vetor de transmissão e as práticas culturais. Em uma monocultura, com uniformidade genética, uma virose pode se disseminar muito rapidamente em condições epidemiológicas favoráveis, causando perdas significativas. É um risco sempre presente ao produtor e cabe a nós, pesquisadores, estarmos preparados para solucionar o problema. Para tal precisamos ter informações apropriadas”, diz Kitajima.

O artigo An annotated list of plant viruses and viroids described in Brazil (1926-2018), de Elliot Watanabe Kitajima, poderá ser acessado a partir do dia 8 de maio pelo link https://doi.org/10.1590/1676-0611-BN-2019-0932.

Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Mapa  poluição SP

Com a quarentena desde o dia 24 de março, como forma de contenção ao novo coronavírus (SARS-CoV-2), os índices de poluição atmosférica na cidade de São Paulo reduziram-se cerca de 50% em apenas uma semana. É o que mostra a comparação dos dados atmosféricos divulgados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) entre as semanas do dia 15 a 21 e 22 a 28 de março.

“Há menos ruído, consegue-se ouvir mais os passarinhos e também há menos poluição. Esse céu mais limpo que pode ser notado em São Paulo já no início da quarentena é resultado da redução na circulação de veículos, a principal fonte de emissão de poluentes na cidade. Como uma grande parte deles deixou de circular, fica clara a diminuição de poluentes primários como o monóxido de carbono [CO, emitido principalmente pelos carros] e os óxidos de nitrogênio [NOx, emitidos sobretudo por veículos a diesel], que pode ser confirmada nos dados atmosféricos”, diz Maria de Fátima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), que analisou os dados da Cetesb especialmente para a Agência FAPESP.

Além da redução significativa dos poluentes primários, diretamente ligados à emissão veicular, também houve diminuição de cerca de 30% de material particulado inalável. Trata-se dos poluentes MP 10, material particulado com diâmetro até 10 micrômetros, relacionado à ação dos veículos que ressuspendem a poeira do solo, e MP 2.5, com até 2,5 micrômetros, formado por processos secundários a partir da queima de combustível.

Desigualdade na poluição

De acordo com Andrade, a redução dos poluentes não ocorreu de forma igual na cidade. “Os mapas mostram que a diminuição foi maior na região central da cidade. A melhora na qualidade do ar ocorreu de forma desigual na cidade. É possível também perceber que na região de Cubatão, por exemplo, houve aumento de alguns poluentes, mas lá são outras fontes de poluição, ligadas a atividades industriais”, diz.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o limite de exposição a material particulado é de 25 µg/m³ (micrograma por metro cúbico de ar), média de 24 horas. Índice que, normalmente, tende a ser superado por várias estações de monitoramento da Cetesb.

Em dias comuns, a poluição na cidade de São Paulo também ocorre de forma desigual, como mostrou outro estudo da equipe de pesquisadores liderada por Andrade.

Normalmente, é comum que algumas estações cheguem próximo a 40 µg/m³ de material particulado, como é o caso das estações de Osasco, Grajaú e Mauá. Um pouco acima de 25 µg/m³ estão as estações de Capão Redondo, Diadema e Cerqueira Cesar. Essa diferença tem relação sobretudo com a idade da frota e quantidade de veículos que circulam próximos a estas estações.

Andrade ressalta que qualquer comparação de poluição atmosférica como a realizada para avaliar a qualidade do ar na quarentena necessita avaliar períodos mais longos que duas semanas. “O ideal seria comparar períodos mais longos de diferentes anos. Porém, quando se analisam os dados de março de 2019, observa-se que, em função de ter sido um mês chuvoso, as concentrações também não estavam tão altas. A chuva é o principal mecanismo de remoção de poluentes da atmosfera”, diz.

De acordo com a pesquisadora, ao analisar eventos de poluição e comparar diferentes períodos é importante observar quais eram as condições meteorológicas que estavam atuando. “É importante ressaltar que as comparações que estão sendo feitas serão melhoradas quando tivermos mais dados e considerarmos todas as outras condições, em especial a meteorologia”, diz.

Andrade afirma que, quando começou a quarentena, no dia 24 de março, as condições meteorológicas estavam muito parecidas com as da semana anterior. “Era até para estar acumulando mais concentração de poluentes, porém houve uma queda considerável, sobretudo nos poluentes associados aos combustíveis”, diz.

Os mapas apresentados na reportagem foram desenvolvidos pelo aluno de doutorado no IAG Mario Gavidia Calderón.

Novas medições

A configuração sui generis da poluição atmosférica paulistana durante a quarentena será objeto de estudo para a equipe de pesquisadores do IAG. “Fora toda essa situação preocupante da pandemia, é como se estivéssemos vivenciando um experimento forçado inédito em poluição atmosférica. Isso vai permitir fazer medições praticamente impossíveis de serem realizadas em dias comuns”, diz Andrade.

Com isso, Andrade pretende fazer uma análise mais robusta dos dados durante a quarentena e também programar novas medições. “Como houve uma redução significativa da principal fonte de poluição na cidade [veículos] será possível monitorar melhor outras fontes, como, por exemplo, o impacto da queima de combustíveis como lenha e carvão utilizados na preparação de alimentos, a chamada poluição interna”, diz.

De acordo com a pesquisadora, essas fontes menos expressivas – e que correspondem a menos de 10% da poluição atmosférica total na cidade – tendem a ser estimadas e não medidas. “Nas medições essas fontes de poluição acabam se misturando com a veicular, que é a dominante. Com esses novos estudos, será possível quantificar melhor essas outras fontes, que geralmente acabam sendo ofuscadas pela poluição veicular”, disse.

Andrade também está realizando um projeto apoiado pela FAPESP, que tem o intuito de estudar o comportamento dos gases de efeito estufa. “Neste projeto temático da FAPESP pretendemos contribuir com o balanço de emissões de gases de efeito estufa da cidade de São Paulo”, diz.

Geralmente, as estimativas da contribuição urbana desses gases são feitas com inventários calculados de forma teórica. “Esperamos que as medidas que estamos realizando nesse período tragam informações para a melhoria desse conhecimento. Poderemos obter dados a partir de medições e não apenas de estimativas. Em São Paulo, a principal fonte de emissão de CO2 é a queima de combustível fóssil, e, portanto, esse gás é bem correlacionado com o CO nos horários de tráfego. É conhecido também que a vegetação desempenha um papel importante na absorção de CO2. Esperamos que neste período de redução das fontes veiculares seja mais fácil separar a contribuição veicular do papel da vegetação e da temperatura no balanço do CO2”, diz.

Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

temperatura média no Sudeste

A temperatura média no Sudeste do Brasil tem aumentado nas últimas décadas, fato que contribui para elevar a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como inundações, secas e ondas de calor.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) tem afirmado há anos que, em escala global, o aumento da temperatura média observado nos últimos cem anos está relacionado com o crescimento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera resultante de ações humanas. Já na escala regional, como é o caso da região Sudeste, ainda há muita incerteza em relação às causas. Segundo especialistas, fatores como urbanização e mudanças no uso da terra para agropecuária, por exemplo, também podem ter impactos significativos na temperatura local.

Agora, um grupo de pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e da Universidade de Edimburgo, do Reino Unido, conseguiu obter um indício contundente de que o aumento detectado de 1,1 ºC na temperatura da região entre 1955 e 2004 se deve, principalmente, ao efeito estufa.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Geophysical Research Letters.

O projeto integra o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

As conclusões se baseiam em observações climáticas da superfície e em 34 simulações da temperatura no Sudeste do Brasil nas últimas décadas, obtidas de modelos climáticos do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, Fase 5 (CMIPC5), usado pelo IPCC.

Esses dados foram submetidos a um método estatístico de detecção e atribuição de impacto de mudanças climáticas, proposto em 2017 por cientistas franceses e canadenses.

“Esse método de atribuição, aplicado no Sudeste, utiliza informações da resposta dos modelos climáticos a variações da temperatura por causas naturais, pelos aerossóis ou pelo efeito estufa separadamente”, disse à Agência FAPESP Humberto Ribeiro da Rocha, professor do IAG-USP e coordenador do projeto.

Uma vez detectada alguma variação de temperatura, é comparada a contribuição das diferentes causas, como as naturais, incluídas as incertezas envolvidas. Entre as causas naturais destacam-se a variabilidade da radiação solar que chega à Terra e os efeitos de atividades vulcânicas.

“Esses fenômenos naturais controlam os climas regionais. Além disso, todo o sistema climático está se reorganizando em razão do aquecimento global. O oceano é um grande exemplo, que eventualmente se aquece muito em episódios sobre determinadas regiões do planeta, o que afeta os climas regionais de forma diferente em um continente extenso como a América do Sul”, explicou Rocha.

O método de atribuição incorpora as incertezas estatísticas amostrais, a variabilidade interna dos modelos e as observações de superfície, para prover margem de confiança ao resultado.

Os resultados indicaram que o aumento das concentrações de gases de efeito estufa contribuíram substancialmente para o aumento de 1,1 ºC na temperatura da região detectada no período de 1955 a 2004.

Os cálculos foram feitos pelo meteorologista Rafael Cesário de Abreu durante seu doutorado no IAG-USP, em andamento, sob orientação de Rocha.

“Essa constatação corrobora a hipótese de que mudanças na temperatura estão em curso e controlando fortemente a escala regional do Sudeste, seguindo uma tendência global”, disse Rocha.

Falta de estudos regionais

De acordo com o pesquisador, outros estudos de detecção de aquecimento de longo prazo foram feitos no Brasil, mas não havia um resultado de atribuição em escala regional, como este do Sudeste, com resultados mais contundentes e que incorporassem incertezas e distinguissem causas diferentes. Além disso, há no mundo poucos estudos regionais de detecção e atribuição de causas de mudanças climáticas induzidas pelo efeito estufa antropogênico.

Os estudos anteriores foram feitos para sub-regiões na China, Canadá e Inglaterra, baseados em métodos estatísticos semelhantes ao utilizado no Sudeste.

Essa região do país é especialmente vulnerável às mudanças climáticas, uma vez que abriga mais de 40% da população brasileira e é responsável por 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, com uma ampla gama de atividades econômicas, ressaltam os autores do estudo.

“Em comum, esses estudos mostram que a indicação do IPCC de que a temperatura média global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012 não se aplica regionalmente e, principalmente, em estudos locais, como de cidades”, afirmou Rocha.

Em São Paulo, por exemplo, já se notou um aumento de temperatura de, aproximadamente, 3 ºC entre 1940 e 2010, e não se pode afirmar categoricamente se foi causado predominantemente pelo efeito estufa, ressalvou o pesquisador.

“Na área rural, há outros fatores que influenciam. O desmatamento de florestas e cerrados também pode explicar aumento de temperatura, mas confinado em efeitos de escala local, que, por sua vez, não são geralmente diagnosticados pelos modelos do CMIP5/IPCC”, afirmou.

O artigo Attribution of detected temperature trends in Southeast Brazil (DOI: 10.1029/2019GL083003), de R. C. de Abreu, S. F. B. Tett, A. Schurer e H. R. Rocha, pode ser lido na revista Geophysical Research Letters em agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2019GL083003.

Elton Alisson
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.