Aluna

Pioneiro no ensino de línguas em meio digital no Brasil, o Grupo de Pesquisa E-Lang, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, está lançando um curso de português avançado para estudantes estrangeiros através do Coursera – plataforma educacional gratuita que oferece os chamados Moocs (Massive Open Online Courses), em parceria com importantes instituições de ensino e que possui mais de 12 milhões de usuários em todo o mundo. “A pluralidade no português brasileiro” é o tema deste curso, que deverá estar disponibilizado ainda neste mês, depois de cumpridos os últimos trâmites burocráticos, como de licença de imagens.

O Coursera do IEL é o fruto mais recente de uma linha de pesquisa inovadora e que vem de longa data, como mostra a professora Denise Bértoli Braga, que implantou a linha de pesquisa Linguagens e Tecnologia no instituto. “A Unicamp foi pioneira na produção de materiais digitais para estudo independente de línguas. Em 1996, com base em nossa experiência de 17 anos em sala de aula, desenvolvemos uma metodologia reflexiva adequada para a aprendizagem automonitorada de leitura de textos acadêmicos em língua inglesa. Essa metodologia orienta o aluno no desenvolvimento de estratégias globais de leitura, que facilitam a compreensão de textos em língua estrangeira e estratégias de aquisição de língua através da leitura.”

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Denise Braga conta que assim surgiu uma primeira versão do material digital Read in Web, cuja interface digital foi desenvolvida por ela, lado a lado com o estudante Fábio Aragão, ingressante do curso de Computação que colaborou nesta iniciativa com uma bolsa SAE da Unicamp – o ex-aluno hoje está na Amazon (EUA). “Construído o conteúdo por uma equipe de docentes do IEL e do CEL [Centro de Ensino de Línguas] e publicado todos os módulos, o curso Read in Web foi testado em 1999 e passou a ser oferecido no ano seguinte aos nossos alunos de pós-graduação. Foi uma iniciativa muito avançada da Unicamp, pois na época não havia nada parecido com os Moocs de hoje. Já disponibilizávamos cursos automonitorados lá atrás, com um índice de conclusão por volta de 50%, considerado altíssimo no ensino a distância, principalmente em cursos que são de acesso gratuito e sem mediação docente.”

Paralelamente, a docente responsável pelo E-Lang começou a orientar dissertações e teses sobre ensino de língua a distância, bem como estudos focando as novas formas expressivas surgidas com a mudança para o meio digital. “Tivemos as primeiras dissertações apresentadas em 2000, quando iniciei a orientação de pesquisas na linha voltada a Linguagens e Tecnologias. Os temas seguiram inicialmente duas vertentes: uma orientada ao ensino de línguas online e outra ao estudo das mudanças geradas pelas possibilidades de produção de textos multimídia e hipermídia. Mais recentemente, esse campo de investigação se desdobrou para a participação social, investigando recursos expressivos do meio digital que facilitam a comunicação, a organização e o registro das vozes da periferia.”

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Seis mil alunos

Desde que foi criado, o Read in Web atendeu a cerca de 6 mil alunos, sendo que o curso, antes dirigido a pós-graduandos, tornou-se uma disciplina regular de graduação – a primeira totalmente a distância, sem mediação de professor, em que somente as provas são presenciais. “É um avanço da Unicamp também nesta direção e, na atual gestão, a grande contribuição foi a transformação do Read in Web em software livre. O curso é constituído de 25 aulas para leitura de textos acadêmicos em língua inglesa, através de uma ferramenta que é também de autoria, ou seja, permite a criação de outros conteúdos utilizando-se a mesma metodologia reflexiva. Esses recursos estão acoplados à plataforma Sakai.”

Segundo Denise Braga, por ser voltado para a leitura acadêmica, o público do Read in Web é de pós-graduandos ou de graduandos que possuem um domínio de inglês intermediário e precisam ler no idioma estrangeiro para estudar ou fazer pesquisa. “O curso é diferenciado em relação aos similares por utilizar conteúdos da New Scientist, revista inglesa que trata de temas gerais, mas escritos em linguagem acadêmica; do ponto de vista linguístico, existe a mesma complexidade de leitura de textos acadêmicos em geral. As questões sobre compreensão de texto, e os materiais de apoio oferecidos, visam levar o aluno a ‘aprender a aprender’, uma orientação pedagógica que está sendo bastante teorizada na atualidade, mas que já foi adotada desde 2000, numa iniciativa bem arrojada.”

A professora do IEL aponta dois problemas enfrentados pelo aluno ao ler textos acadêmicos: o primeiro é recorrer ao que conhece sobre o tema para deduzir aleatoriamente sentidos, o que não é desejável em leitura acadêmica; e, segundo, ler parte por parte do texto, sem formar uma ideia global. “Como estratégia de aquisição de língua, nosso material traz o texto e perguntas específicas que obrigam o aluno a atentar para as particularidades da língua, bem como perguntas gerais para que ele construa o sentido global. Temos notado, em aulas presenciais, que esta metodologia faz com que o aluno passe a ler melhor inclusive textos acadêmicos em português, por usar essas estratégias na língua que já domina.”

A pesquisadora do E-Lang observa que o ensino pela internet trouxe uma vertente bastante disseminada, a aprendizagem colaborativa, que explora ambientes virtuais nos quais a dinâmica de sala de aula é transposta para o meio virtual, acompanhada de uma tecnologia que possibilita acesso diferenciado à informação. “O professor deixou de ser a fonte central de acesso à informação e abriu-se um novo caminho para o estudo em grupo e também para estudo independente automonitorado. Pensando nestas questões pedagógicas, percebemos que a navegação através dos links digitais oferece uma rapidez de acesso e contraste entre informações que não são atingidas na interação com materiais impressos, e que essa velocidade favorece a aprendizagem reflexiva.”

Denise Braga acrescenta que novos gêneros começaram a surgir na rede e a pedagogia de línguas se preocupa em encontrar formas de usar esses gêneros para a exposição e a prática da língua. “A prática sempre foi um problema para o ensino de língua estrangeira. A internet permite uma imersão linguística virtual e a exploração de recursos multimídia cria contextos mais propícios para a aquisição de línguas. Em relação ao Read in Web, além de seu acesso ter sido aberto, já se discute com a atual Reitoria a proposta de divulgação do curso através do MEC, uma ação que considero politicamente interessante, pois coloca o produto de uma universidade pública a serviço da população.”

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Português brasileiro

O curso denominado “Pluralidade em português brasileiro”, desenvolvido por meio da parceria Unicamp/Coursera, está sob a responsabilidade da professora Cláudia Hilsdorf Rocha e também da professora Denise Braga, ambas atualmente coordenadoras do Grupo de Pesquisa E-Lang. A professora Claudia esclarece que esse curso inova diretrizes pedagógicas já adotadas no curso construído para ensino de língua inglesa. “A partir de 2015, eu e a professora Denise começamos a aventar a possibilidade de expandir o Read in Web, transportando todo esse conhecimento acumulado para um projeto baseado na ideia do letramento crítico. A formação crítica é fundamental para o aluno do século 21. Adotamos as bases de uma orientação pedagógica reflexiva que funciona para o estudo automonitorado, agora explorando novos recursos pedagógicos permitidos neste outro momento histórico que vivemos.”

Cláudia Rocha afirma que o curso do Coursera apresenta avanços em relação ao Read in Web, visto que na época em que este foi criado, as ferramentas de web ainda eram limitadas. “O Read in Web possui uma lógica digital, a estrutura de hipertexto, mas não explora mais a fundo a multimodalidade, os recursos das novas linguagens hoje disponíveis. Além disso, seu viés é exclusivamente de ensino de língua de gênero acadêmico. O curso para a plataforma Coursera avança ao explorar imagens, vídeos, arquivos em áudio, que ampliam as possibilidades de atividades. O grupo envolvido no desenvolvimento do curso conta com uma docente do CEL da Unicamp, a professora Raquel Rodrigues Caldas, e duas profissionais ligadas à tecnologia educacional, Paula Furtado e Ana Rute Mendes. Temos uma equipe bastante heterogênea, com outros professores que trazem um olhar rico e foco diversificado para este curso de português em rede, bastante voltado para questões de identidade e questionamento social, que caracterizam práticas de letramento crítico.”

De acordo com as docentes do IEL, trata-se de um curso de português brasileiro em nível avançado para estrangeiros, mas o material desenvolvido também pode ser explorado na aula de língua portuguesa do ensino fundamental, respeitando-se as especificidades de ambos os contextos, já que as atividades propostas auxiliam a reflexão social crítica. “O material a ser disponibilizado na plataforma Coursera pode, portanto, ser uma alternativa de material digital para as escolas brasileiras. Em relação aos alunos estrangeiros, a meta não se restringe a levar o aluno a aprender o português brasileiro para uso social da língua, mas também a refletir sobre nossas culturas e identidades, que são bastante heterogêneas. O ‘Pluralidades em português brasileiro’ não é um curso exclusivamente de ensino e aprendizagem da língua, por si só”, acrescenta Cláudia Rocha.

As professoras argumentam que este é um viés importante explorado no ensino de línguas, já que o processo de globalização deixou evidente que convivemos com múltiplas culturas, múltiplas variações de português e múltiplas visões de mundo. “A língua genérica ensinada nos cursos tradicionais desconsidera que a língua, assim como valores, ideias e culturas, sempre varia conforme o grupo social, as atividades sociais em que determinadas práticas linguísticas se fazem presentes. Os sotaques nunca são homogêneos e agregam valores distintos. Agora, com a globalização, o aluno precisa saber lidar não só com as diferentes variedades do português falado pelos brasileiros, como também falado pelos estrangeiros”, ilustra Denise Braga. “Exploramos a riqueza da nossa própria diversidade para fazer o aluno estrangeiro pensar não apenas na questão da aprendizagem da língua, mas também nas suas próprias visões de mundo, nas pluralidades que o constituem – e como tudo isso se relaciona com a língua que está aprendendo, em toda sua riqueza e complexidade”, finaliza Cláudia Rocha.

Texto: Luiz Sugimoto
Antonio Scarpinetti
Divulgação
Edição de Imagens: André Vieira
Jornal Da Unicamp

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