sala de aula

A inovação, considerada um grande ativo para o século 21, tem na criatividade um insumo essencial. No entanto, um estudo feito com professores de escolas brasileiras constatou que essa habilidade mental não é valorizada ou estimulada nas salas de aula do país.

“Os testes de criatividade aplicados em crianças demostraram que elas tinham esse potencial. No entanto, os professores não percebiam seus alunos como criativos. Além disso, essa habilidade não era vista como algo importante e sim como um problema, pois o indivíduo criativo é questionador. Por esse motivo, essa capacidade vem sendo reprimida em sala de aula desde o ensino básico até as universidades”, disse Solange Muglia Wechsler, diretora do Laboratório de Avaliação e Medidas Psicológicas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em palestra apresentada na FAPESP Week France.

Os estudos foram feitos por Wechsler com professores de Campinas (SP), Brasília (DF), São Luís (MA) e Manaus (AM). O trabalho teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“O mundo está mudando e grande parte do trabalho que fazemos hoje será, no futuro, realizado por máquinas. Resta-nos a capacidade de criar e, portanto, essa habilidade precisa ser estimulada. Essa é uma preocupação atual dos governos”, disse Todd Lubart, professor da Universidade Paris Descartes, também em palestra na FAPESP Week France.

Tanto Lubart quanto Wechsler têm interesse em desenvolver projetos voltados a estimular a criatividade em sala de aula. Essa habilidade, segundo os pesquisadores, é considerada multidimensional, pois envolve processos cognitivos, características da personalidade, condições ambientais e a interação dessas variáveis.

Para Wechsler, a identificação e o desenvolvimento da criatividade podem se concentrar em dimensões específicas, dependendo da finalidade do estudo. Desse modo, diferentes estratégias podem ser empregadas de acordo com o contexto.

Os dois pesquisadores defendem que os programas de treinamento para professores informem sobre a diversidade de talentos. “É preciso fornecer estratégias para estimular a criatividade nas diferentes áreas do currículo escolar, valorizar a liderança nos diferentes domínios e incentivar a motivação dos alunos em aprender”, disse Wechsler.

Meninas são mais desestimuladas

Por meio de testes psicológicos, escalas padronizadas, questionários e entrevistas, a pesquisa conduzida por Wechsler constatou que as crianças são criativas inicialmente, mas essa habilidade começa a decair a partir dos oito anos de idade. O problema parece ser ainda maior entre as meninas.

“As pesquisas mostram um potencial de criatividade equivalente entre meninos e meninas. No entanto, a criatividade é ainda mais reprimida nas mulheres ao longo da vida, pois são pressionadas a seguir um padrão determinado pela sociedade”, disse.

Na avaliação de Wechsler, o estereótipo de “cuidadoras” recai sobre as mulheres em função de sua capacidade de gerar filhos. “São sempre vistas como alguém que busca harmonizar e amar todo mundo. Generaliza-se o cuidado dos filhos para todas as dimensões da vida da mulher. Isso cria um bloqueio, resulta em um efeito psíquico de procurar sempre ser amada, reunir pessoas e, sobretudo, dificulta que a mulher se posicione”, disse.

O quadro é agravado, na avaliação da pesquisadora, pela autopercepção das meninas sobre o seu potencial. “Dados da pesquisa mostram que, embora as meninas tenham potencial equivalente ao dos meninos, sua autoavaliação é mais depreciativa. Elas não se acham nem com potencial intelectual nem criativo. A autopercepção não bate com o resultado do teste psicológico que aplicamos e isso é bem preocupante”, disse Wechsler.

O simpósio FAPESP Week France foi realizado entre os dias 21 e 27 de novembro, graças a uma parceria entre a FAPESP e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Leia outras notícias sobre o evento em www.fapesp.br/week2019/france/.

Maria Fernanda Ziegler, de Paris
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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