Walter Benjamin (1892-1940)

Com 34 artigos de autores brasileiros e estrangeiros, a coletânea 'Walter Benjamin: experiência histórica e imagens dialéticas' (Editora Unesp, 455 páginas, R$ 84) perpassa a obra de Benjamin e convida o leitor a refletir sobre o destino do ser humano a partir da abordagem crítica que o filósofo faz de uma ampla gama de questões ainda candentes. Se Benjamin analisou as mudanças radicais de percepção e comportamento decorrentes, nos anos 1930, da aceleração do capitalismo e da inovação tecnológica, quais seriam, hoje, as perspectivas em meio aos desdobramentos cada vez mais impactantes daqueles fenômenos?

No artigo de abertura do volume, “Walter Benjamin – esquecer o passado?”, Jeanne Marie Gagnebin baseia-se na última obra do pensador, o conjunto de teses “Sobre o conceito de história”, para analisar as origens e as consequências do “esquecimento” dos crimes cometidos pelos agentes da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Ela escreve: “A questão dos mortos e do destino que lhes reserva a historiografia dominante é absolutamente crucial nas teses, ela é o trunfo de uma luta no presente”.

Já em “Fetiche e alegoria”, Jorge Grespan traz à tona a imbricação da corrupção política com a especulação financeira e imobiliária na Paris dos anos 1930, assuntos que despontam quando Benjamin começa a escrever o arquivo “Bolsa de Valores e a história econômica”, dos manuscritos preparatórios do Trabalho das passagens. Grespan traça um paralelo entre os estudos do filósofo sobre o fetichismo da mercadoria de Karl Marx, pensador em que Benjamin se embasa para tecer a argumentação de “Bolsa de Valores”, e a interpretação da alegoria, desenvolvida em Origens do drama barroco alemão: “Em última análise [...] trata-se de explicar por que Marx descreve o mundo moderno como aquele no qual, nas palavras de Benjamin, ‘o conselho do banqueiro [é...] mais importante que o do sacerdote’”.

Ambos os textos integram a primeira das cinco partes do livro, “Das imagens da memória ao fetiche e suas fantasmagorias”. Seguem-se “Passagens, teoria da história e revolução”, “Literatura, música e surrealismo”, “Melancolia, brinquedos, Freud e leituras”, “Cinema, alegorias e imagens urbanas”. Assinados ainda por intelectuais como Erdmut Wizisla, Michael Löwy, Francisco Alambert, Willi Bolle, Olgária Matos, Maria Rita Kehl e Ismail Xavier, os artigos abordam, entre outros temas, a mercantilização da cultura, as formas de escrita e de linguagem e as técnicas de reprodução da arte, como o cinema e a fotografia, em sua relação inseparável com a vida das metrópoles.  “Em suma, trata-se da experiência histórica, da memória e das imagens dialéticas”, escrevem os organizadores.

Trecho
“O material que aqui será tratado provém de dois capítulos do livro [Passagens]: ‘Movimento social’ e ‘Haussmannização e combates de barricadas’. O primeiro aspecto que surpreende é o interesse, inclusive a fascinação de Benjamin pelas barricadas. Elas aparecem, no decurso das citações e dos comentários, como a expressão material e visível, no espaço urbano, da revolta dos oprimidos no século XIX, da luta de classes a partir da perspectiva das camadas subalternas. A barricada é sinônimo de levante popular, muitas vezes derrotado, e de interrupção revolucionária do curso ordinário das coisas, inscrita na memória popular, na história da cidade, de suas ruas e vielas. A barricada ilustra a utilização, pelos dominados, da geografia urbana na sua materialidade: a estreiteza das ruas, a altura das casas, o paralelepípedo das vias. É também, para os insurgentes, um momento encantado, uma iluminação profana que apresenta ao opressor a cara de Medusa da revolta ‘em meio a relâmpagos vermelhos’ e que brilha, de acordo com um poema do blanquista Tridon, ‘no relâmpago e na insurreição’. Por último, é uma espécie de lugar utópico que antecipa as relações sociais do futuro: assim, de acordo com uma formulação de Fourier citada por Benjamin, a construção de uma barricada é um exemplo de ‘trabalho apaixonado’.” (Michael Löwy  em “A cidade, lugar estratégico de enfrentamento das classes. Insurreições, barricadas e Haussmannização de Paris nas Passagens, de Walter Benjamin”, pág. 73).

Sobre os organizadores
Carlos Eduardo Jordão Machado é doutor em Filosofia pelo Gesamthochschule Universität Paderborn, Alemanha(1997) e trabalha no Herramienta (Buenos Aires, Argentina).

Rubens Machado Jr. é pós-graduado em cinema pela ECA-USP, com estágio na Paris 3, Nouvelle Sorbonne (1992-1998), e no IA-Unicamp (1998-1999). É crítico de cinema e professor da USP.

Miguel Vedda é doutor em Letras e catedrático de Literatura Alemã da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Membro da Internationale Georg-Lúkacs-Gesellschaft e do Conselho de Redação da revista Herramienta.

Informações
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(11) 3242-7171 ramal 519

Marina Valeriano
Portal Unesp

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