Streapco

Conflitos étnicos, políticos e econômicos das primeiras décadas do século 20 forjaram as identidades dos principais times paulistanos, segundo autor

Com origens muito semelhantes, os principais times de futebol da capital paulista – Corinthians, Palmeiras e São Paulo – tiveram suas identidades elaboradas em razão dos conflitos étnicos, políticos e econômicos das primeiras décadas do século 20. Considerado o “time do povo”, o Corinthians, durante toda a sua primeira década de existência, não contou com jogadores negros. O Palmeiras se tornou o “clube da comunidade italiana” em boa medida para tentar esvaziar movimentos contestatórios liderados pelos anarquistas que agitavam a comunidade ítalo-paulista da época. Já o São Paulo, até hoje visto como “time de elite”, forjou essa marca com o objetivo de arregimentar os simpatizantes do Clube Atlético Paulistano, da Associação Atlética das Palmeiras e do São Paulo da Floresta, quando esses clubes desistiram de manter equipes de futebol.

As razões que contribuíram para os times paulistas adquirirem sua imagem atual estão reveladas no livro Cego é Aquele que Só Vê a Bola, de João Paulo França Streapco, que a Editora da USP (Edusp) acaba de lançar. Com título extraído de uma frase de Nelson Rodrigues no livro À Sombra das Chuteiras Imortais, a obra é resultado de uma dissertação de mestrado apresentada pelo autor ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Equipe corintiana na decada de 20
Equipe corintiana na década de 20 - Foto: Reprodução/Cego é aquele que só vê a bola

No livro, Streapco mostra também que os principais clubes de futebol foram alvo do interesse das elites paulistanas desde a primeira década do século 20. “Os grandes industriais italianos financiaram o Palestra Itália (hoje Palmeiras), assim como o vereador Alcântara Machado e empresários de origem suíça e espanhola ajudaram o Corinthians, e Ademar de Barros e outros empresários brasileiros ajudaram o São Paulo”, escreve o autor.

Streapco destaca ainda que o futebol foi apropriado por todos os grupos sociais de São Paulo ainda na virada do século 19 para o 20. “A ideia de que o futebol era um esporte de elite e que só se popularizou a partir da década de 1910 não procede, e tudo indica que, quanto mais importante se tornava para a população da cidade, mediante diversas ressignificações, maiores interesses despertava, inclusive o da geração de lucro por meio da organização de campeonatos.”

Jogadores no Bom Retiro, 1930
Jogadores no Bom Retiro, 1930

Por essa razão, continua o autor, não faz sentido falar em profissionalização apenas na década de 30, como se costuma pensar. “Em um sistema de entretenimento competitivo como um campeonato, a especialização dos envolvidos e sua consequente profissionalização decorrem das exigências de um público que paga ingressos e quer assistir a espetáculos excitantes”, analisa Streapco.

Em função da pressão dos jogadores, os dirigentes das entidades que controlavam o futebol na época – os clubes, as ligas e a Confederação Brasileira de Desporto (CBD) – foram obrigados a adotar o regime profissional. “Até então, as relações entre eles e seus jogadores eram semelhantes às relações estabelecidas por empresas que exploram seus empregados até o limite, pagam péssimos ordenados, tornam as condições de vida dessas pessoas precárias e promovem a proletarização”, escreve Streapco, lembrando que os clubes se aproveitaram dessa situação para enriquecer. “Em São Paulo, o patrimônio dos clubes foi construído à custa dos esforços desses jogadores até os anos 1930.”

Roberto Gomes Pedrosa
Roberto Gomes Pedrosa – Foto: Reprodução/Cego é aquele que só vê a bola

Na primeira parte do livro, Streapco esboça um amplo quadro das origens do futebol em São Paulo, apontando os espaços utilizados na cidade para a prática do esporte e discutindo a questão da profissionalização do jogador. Na segunda parte, dedica capítulos específicos para contar a história de Corinthians, São Paulo e Palmeiras.

Cego é Aquele que Só Vê a Bola – O futebol paulistano e a formação de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, de João Paulo França Streapco, 248 páginas, R$ 48,00

Roberto C. G. Castro
Jornal da USP

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