Radis

A matéria de capa da edição n°174 de março de 2017 da revista Radis, disponível on-line, debate o porquê de a pesquisa científica ainda necessitar das cobaias, e das inovações que podem substituí-las por alternativas tecnológicas. “Vacinas. Medicamentos. Kits de diagnósticos. As substâncias indispensáveis à saúde são descobertas ou desenvolvidas com base em muitos estudos e experimentos científicos. Os testes que mostram como elas se comportam em um organismo vivo passam, hoje, por etapas que exigem experimentos em animais. Esses estudos envolvem uma discussão ética e, muitas vezes, são alvo de polêmica. São realmente necessários? Como são criados esses animais? O que se pode fazer com eles? O uso é válido para obter um benefício maior para uma população?”. Conforme aponta a publicação, a resposta da maior parte dos cientistas é: sim, eles são necessários. “Ninguém opta por usar animais havendo métodos alternativos validados e comprovadamente eficazes para aquele teste. Mas ainda hoje, apesar da evolução tecnológica, não existem alternativas válidas para todos os estudos que precisam ser realizados”, disse à Radis a médica veterinária Carla de Freitas Campos, diretora do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz). Segundo ela, os animais ainda são os modelos mais parecidos com os humanos para se desenvolverem estudos científicos e tecnológicos em saúde. “Sem eles, muitas das grandes conquistas e prêmios Nobel na área da Saúde, que hoje salvam milhares de vidas, não teriam sido alcançados.” Para Carla, é preciso levar em consideração a relação custo-benefício das pesquisas em saúde para toda a população e também para os próprios animais. Os resultados, enfatizou a pesquisadora, ultrapassam a saúde pública e se refletem em avanços na saúde veterinária. “Em um mundo ideal, não utilizaríamos animais de laboratório”, salientou.

A pesquisadora esclareceu para a Radis que a ciência de animais de laboratório em todo o mundo é regida atualmente pelos princípios dos 3Rs. A sigla, inspirada nos conceitos de sustentabilidade ambiental, relaciona as iniciais, em inglês, de seus principais objetivos: redução (Reduction), refinamento (Refinement) e substituição (Replacement), que de forma resumida significam a redução do número de animais utilizados na pesquisa, a melhora na condução dos estudos, no sentido de minimizar o sofrimento ao mínimo possível, e a busca de métodos alternativos que, por fim, substituam os testes in vivo

Segundo a publicação, é essa teoria que orienta os cientistas a buscarem diminuir o número de animais utilizados e aprimorar as técnicas, de modo a não repetir experimentos desnecessariamente, nem refazer procedimentos, além de buscar o modelo mais adequado para cada tipo de experimento. E, por fim, sempre que possível, substituir o uso de cobaias por um método alternativo disponível. A tendência do uso de animais em pesquisas, apontou Carla, é de queda. “Os estudos que são realizados com animais usam um quantitativo muito menor hoje, muito devido aos métodos alternativos, mas também por termos desenvolvido a criação de animais, que são modelos específicos para determinados tipos de estudos. Essa queda pode ser difícil de perceber e quantificar, já que temos cada vez mais pesquisas em desenvolvimento”, explicou. 

O Brasil ainda sofre com a carência de animais para uso em pesquisa e não dispõe de dados atualizados sobre seu uso, advertiu Carla. Ela informou que a legislação brasileira determina que toda instituição de ensino ou pesquisa que utiliza animais tem que estar cadastrada no Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), criado pela Lei 11.794/2008, conhecida como Lei Arouca. A norma também exige que os experimentos sejam submetidos às Comissões de Ética em Uso de Animais (CEUAs). Segundo Carla, o cadastro, no entanto, ainda está em processo, o que significa que os números de animais e instituições ainda não está atualizado. “Com esse cadastro, vai ser possível fazer ações mais direcionadas, visitar todas as instituições e ter um panorama de como está sendo feita essa criação”, prevê a pesquisadora.

Na entrevista Todos buscamos deixar de usar animais, o biólogo Octavio Presgrave diz que trabalha para que os animais um dia sejam desnecessários na pesquisa científica. Ele coordena o Centro Brasileiro para a Validação de métodos alternativos (BraCVAM), criado em 2012 com o objetivo de comparar métodos inovadores, para validar estudos de substituição, redução ou refinamento do emprego de cobaias. Uma das metodologias, o HET-CAM, que está sendo o primeiro método a passar por um processo de validação no Brasil, permite substituir etapas que usam coelhos para testar se um produto que vai ser lançado pode causar irritação ocular. “Ninguém sente prazer em utilizar o animal em nenhum experimento. São seres sencientes com os quais deve-se lidar com ética e responsabilidade”, afirma ele, que conversou sobre ética no uso dos animais com a Radis. Ele não arrisca uma previsão de quando será possível prescindir totalmente dos bichos, mas, enquanto isso não acontece, o pesquisador coordena a Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua) da Fiocruz, instância que avalia e licencia os procedimentos em que serão utilizados animais, no sentido de preservar o bem-estar e o cumprimento das normas legais nas pesquisas. 

Outros matérias de destaque estão disponíveis na Radis de número 174.

Informe Ensp

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