capitu

Capitu traiu Bentinho? A dúvida, que atravessa todo o romance Dom Casmurro, desde que Machado de Assis o lançou, em 1899, não só perdurou como foi atualizada em adaptações para quadrinhos e séries televisivas. Mantendo as proposições do autor e seus personagens, adaptadores conseguem deixar em suspensão questões que o livro também não esclarece, entre as quais, por exemplo, a paternidade de Ezequiel, filho de Capitu. Seria o menino filho de Escobar, melhor amigo de Bentinho, protagonista da trama? As soluções encontradas pela série Capitu, de Luiz Fernando Carvalho, exibida pela Rede Globo em 2008, e a HQ Dom Casmurro, de Felipe Greco e Mario Cau foram estudadas na pesquisa de mestrado de Júlia Rochetti Bezerra.

O estudo é na área de tradução e problematiza as adaptações, neste caso, da literatura para a TV e para as histórias em quadrinhos. A obra Dom Casmurro já foi adaptada pelo menos duas vezes para o cinema, diversas vezes para o teatro e também já ganhou versões de ópera. Da literatura de Machado de Assis, a obra é uma das mais controversas e prestigiadas, sempre com um olhar sobre o ciúme do personagem Bentinho. Júlia pesquisou as interpretações de Dom Casmurro “mais estáveis”, ou consagradas, para verificar se elas permanecem possíveis para quem assiste à série, ou lê a HQ.

“Procurei verificar se a transposição de uma linguagem para outra, que envolve a linguagem visual, manteria abertos os caminhos interpretativos que encontramos no livro Dom Casmurro”, comenta a pesquisadora. O estudo dos procedimentos adaptativos utilizados pelo diretor Luiz Fernando Carvalho na série televisiva e pelos autores dos quadrinhos foram detalhados pela autora, levando em conta as especificidades da linguagem de cada meio. A separação de capítulos, por exemplo, ainda aparece na série de TV, mas não é aproveitada nos quadrinhos pois, segundo Júlia, a nomeação dos capítulos implicaria na ocupação de um espaço essencial, resultando na quebra do ritmo de leitura.

Na TV são utilizados vários recursos que influenciam as interpretações. Trilha sonora, cenários, figurinos e até mesmo a maneira como os atores usam a voz, determinam as leituras da obra. “Luis Fernando Carvalho - que não fala em adaptação, mas em um diálogo com a obra - trata a questão do ciúme como atemporal, traz elementos da modernidade em Capitu”, explica. Na série vemos os personagens em um elevador ou usando fones de ouvido, embora se vistam como se vivessem no século 19.

“O diretor cria um cenário de apelo mais psicológico, para mostrar que o que o espectador vê é a forma como Dom Casmurro enxerga as coisas e não um retrato da realidade”. Um ar mais teatral e carregado na interpretação dos personagens também se revela um indício ou manifestação da dúvida, que se dá pelo exagero. A caricatura afasta a impressão de realidade.

Nos quadrinhos, além das expressões “mais carregadas”, Júlia também observou um tom “noir” para marcar a transformação de Bentinho em Dom Casmurro. O passado aparece sempre mais claro, desenhado com mais suavidade, embora já traga marcas da casmurrice do personagem, enquanto no presente do narrador, os tons escuros predominam e há pouca iluminação.

Julia Rochetti Bezerra

Para fazer as análises, a pesquisadora tomou como base alguns exemplos, entre eles a interpretação de Dom Casmurro proposta pela professora e crítica norte-americana Helen Caldwell, autora do livro O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. “Comparando Dom Casmurro a Otelo, Caldwell chama a atenção para a narração em primeira pessoa como marca do posicionamento de Bentinho. Não há nenhum elemento palpável na narrativa que aponte para a infidelidade da Capitu”. 

Júlia chama a atenção para a forma como o filho do casal Capitu e Bentinho, Ezequiel, apareceria fisicamente na série Capitu e seria desenhado no HQ, já que a fisionomia poderia sugerir a paternidade do garoto e confirmar ou afastar a ideia da traição. “Nesse ponto, a minissérie trouxe um ator bastante parecido com Escobar, mas como vemos as coisas pelo ponto de vista de Bento Santiago, não é possível afirmar que o diretor sugere que Escobar seja o pai da criança. Bentinho ganha uma ‘aura’ de perturbação e o espectador começa a duvidar se a criança é mesmo daquele jeito ou se é daquele jeito que o Bentinho a enxerga”.

Nos quadrinhos há o acréscimo de epígrafes em cada sessão. Cada epígrafe introduz determinado tema e tem uma relação com o texto que não é imediata. “Verifiquei qual a relação desse texto não só com a sessão, mas se haveria alguma interpretação possível de Dom Casmurro relacionada”.

Uma das epígrafes marca o início da sessão “Seminário” e traz um trecho do conto “Eu, tu, ele”, da obra Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. “Há dúvidas quanto a ter havido ou não entre Bentinho e Escobar uma relação homoafetiva – nesse caso, Bentinho se sentiria traído não só por Capitu, mas pelo amigo. A epígrafe vai trazer essa questão da homoafetividade e pode servir como um indício dessa relação triádica entre os personagens”.

As epígrafes também servem nos quadrinhos, de acordo com Júlia, para estabelecer uma intertextualidade com outras obras, não só aquelas que influenciaram Machado de Assis e que têm uma relação mais clara com a obra Dom Casmurro, mas para envolver o interesse do leitor por obras correlatas.

Júlia conclui que o leitor da obra original, do livro Dom Casmurro, tende a lançar um “olhar ciumento” para as adaptações. “Geralmente, quem teve contato com a obra original espera que sua leitura do livro coincida com a de Luiz Fernando Carvalho ou com a dos autores dos quadrinhos – e eis aí o olhar de Bentinho projetado no leitor ciumento, à espreita de uma possível traição na obra adaptada”.

Publicação

Dissertação: “Da adaptação de Dom Casmurro: do romance aos quadrinhos e à televisão”
Autora: Júlia Rochetti Bezerra
Orientadora: Maria Viviane do Amaral Veras
Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Texto: Patrícia Lauretti
Fotos: Divulgação/Reprodução
Antonio Scarpinetti
Edição de Imagens: André Vieira
Jornal Da Unicamp

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