O massacre de Manguinhos

Em 1970, sob a vigência do Ato Institucional nº 5, dez pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz foram cassados pela ditadura militar. Apesar de as acusações de subversão e corrupção nunca terem sido provadas, os cientistas ficaram impedidos de atuar em instituições públicas no país e só foram chamados a reintegrar aos quadros do IOC em 1986, cinco anos após a publicação da Lei da Anistia. O episódio ficou conhecido como ‘O Massacre de Manguinhos’, título que o pesquisador Herman Lent – um dos mais reconhecidos entomologistas do país e um dos cassados – deu ao livro publicado em 1978, no qual narra e analisa os fatos relacionados à cassação. Considerada, até hoje, como referência sobre os impactos do regime militar para a ciência brasileira, a obra acaba de ganhar uma nova edição, em projeto liderado pelo Instituto de Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), com apoio do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e da Editora Fiocruz.

Incluindo o texto integral revisado, prefácio escrito pela presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima, e dois posfácios, escritos pelo pesquisador emérito da Fiocruz e pesquisador do IOC, Renato Cordeiro, e pela pesquisadora da COC, Wanda Hamilton, a reedição do livro O massacre de Manguinhos foi lançada na terça-feira (28/5) e já pode ser acessada gratuitamente online [clique aqui para baixar o livro]. Além de trabalhadores e estudantes da Fiocruz, familiares dos pesquisadores cassados participaram do evento, que integrou as celebrações pelos 119 anos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – comemorados no dia 25 de maio, em data compartilhada com o IOC/Fiocruz.

O lançamento contou com uma mesa-redonda com participação de Nísia, Renato e Wanda, além de Rodrigo Murtinho, diretor do Icict/Fiocruz e responsável pela reedição do livro, e Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e filho de Herman Lent. A cerimônia foi aberta com a exibição do trailer do documentário O massacre de Manguinhos, de Lauro Escorel, que registrou a cerimônia de reintegração dos cientistas cassados aos quadros do IOC/Fiocruz, em 1986, e foi recentemente recuperado pela VídeoSaúde Distribuidora, vinculada ao Icict/Fiocruz, e disponibilizado online [clique aqui para assistir].

A presidente da Fiocruz ressaltou que a preservação da memória é fundamental para a construção do futuro e enfatizou a importância da democracia para o avanço científico. “Nesse momento em que a ciência está em questão, é importante rever a fala de Sergio Arouca [então presidente da Fiocruz] na cerimônia de reintegração dos cassados: ‘Somente o pensamento livre pode ser o verdadeiro instrumento contra o pensamento autoritário’. Quero prestar homenagem ao professor Herman Lent, pela coragem de ter difundido esse texto em uma época ainda muito mais difícil. Manguinhos, casa da ciência, tem que ser também uma casa de democracia”, afirmou Nísia.

O diretor do Icict lembrou que O massacre de Manguinhos é o primeiro título da Coleção Memória Viva, que vai re-editar livros importantes para a pesquisa científica desenvolvida na Fiocruz considerados de difícil acesso. “Esse lançamento ocorre no contexto do projeto ‘Acesso aberto e uso da literatura no ensino’, que busca identificar, recuperar e reeditar obras de difícil acesso, que estão se perdendo porque foram publicadas por editoras que não existem mais ou porque estão no fundo de catálogos, pois não existe mais interesse comercial. Todas as publicações serão lançadas digitalmente, em acesso aberto”, apontou Rodrigo.

Estagiário do IOC, expulso da Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica logo após as cassações, Renato ressaltou o alto nível dos estudos desenvolvidos pelos pesquisadores cassados e apontou que, além destes, muitos outros cientistas foram impedidos de trabalhar no período da ditadura militar. Em especial, o pesquisador citou Walter Oswaldo Cruz, hematologista, filho de Oswaldo Cruz e líder de um dos grupos de pesquisa mais produtivos do IOC, que teve o laboratório lacrado e as verbas internacionais bloqueadas, vindo a falecer em 1967. “Temos que aprender com a história desses dez cientistas, que com sua ética, competência e determinação tiveram a coragem de enfrentar o arbítrio da ditadura e de um diretor medíocre para defender suas ideias, na defesa da ciência e tecnologia brasileira”, declarou Renato.

Também recordando o contexto do IOC no período da ditadura militar, Wanda notou que os pesquisadores cassados ocupavam posições de liderança, sendo muitos chefes de departamento e de seções no período anterior à ditadura militar. Além disso, eram ativos na defesa das atividades de pesquisa, o que se chocava com visões que desejavam restringir as ações do Instituto às atividades orientadas para a produção de vacinas e soros. “A liberdade de pensamento, de questionar, de duvidar foi cerceada durante a ditadura militar. Para além de posições políticas, o que reunia esse grupo era uma visão de instituição e de ciência que não teve lugar na ditadura”, ponderou Wanda.

Dizendo-se emocionado, Roberto recordou os impactos do processo de cassação para Herman Lent. Impedido de ter qualquer emprego que recebesse verba pública, o entomologista trabalhou como editor de revistas da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Depois, seguiu para a Universidade de Mérida, na Venezuela, e o Museu Americano de História Natural, nos Estados Unidos. Na volta ao Brasil, foi convidado para a Universidade Santa Úrsula. “Ele ficou tão agradecido, que não voltou para o IOC na reintegração, em 1986, porque não queria abandonar a única instituição que o havia acolhido”, contou Roberto. “Em nome dos filhos e netos de Herman Lent, gostaria de agradecer pela reedição do livro O massacre de Manguinhos”, finalizou.

No debate realizado após a mesa-redonda, o diretor do IOC, José Paulo Gagliardi Leite, afirmou que o livro O massacre de Manguinhos deve ser indicado como leitura para as novas gerações de cientistas. “Tive o privilégio de ingressar no IOC em 1980, e a oportunidade de conviver com os cassados. Os alunos que ingressam na iniciação científica e nos programas de pós-graduação do IOC têm que ter esse conhecimento. Essa memória tem que se perpetuar para que nunca mais retorne”, declarou José Paulo. O diretor da COC, Paulo Elian, lembrou que assim como os livros de difícil acesso, os acervos públicos devem ser preservados. “Foi uma honra para a COC poder colaborar com esse projeto. O direito à memória é direito à cidadania e à democracia”, afirmou Paulo.

Familiares de pesquisadores cassados e de outros cientistas cujo trabalho foi prejudicado pela ditadura militar ressaltaram a importância da reedição do livro O massacre de Manguinhos. “Queria agradecer por essa história estar sendo contada novamente e que nunca seja esquecida”, disse Lílian Manhães de Andrade, filha do microbiologista Laerte Manhães de Andrade, citado por Herman Lent como um dos pesquisadores que, embora não tenha sido cassado, foi deslocado do IOC pela ditadura militar. “Esse momento também é muito emocionante para a família Souza Lopes”, pontuou Hugo José Lopes Guimarães, pesquisador do Laboratório Nacional e Internacional de Referencia em Taxonomia de Triatomíneos do IOC e neto do entomologista Hugo de Souza Lopes, um dos dez cientistas cassados em 1970.

Maíra Menezes
IOC/Fiocruz

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