Poesia e Literatura

Biografia de Carlos Chagas

Em meio à maior emergência sanitária global dos últimos tempos, uma data especial destaca e enaltece um marco da ciência brasileira para todo o mundo: 14 de abril de 2020 será, oficialmente, o primeiro Dia Mundial da Doença de Chagas. Para celebrar a importância da data para a pesquisa científica do Brasil e, especialmente, para a Fiocruz, o livro Carlos Chagas: um cientista do Brasil será relançado pela Editora Fiocruz em formato digital – e em acesso aberto – na plataforma SciELO Livros. Clique aqui para fazer o download. 

De autoria de Simone Petraglia Kropf e Aline Lopes de Lacerda, pesquisadoras da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), o livro foi lançado em 2009, como parte das comemorações do centenário do anúncio da descoberta da doença de Chagas. No mesmo ano, a Editora Fiocruz também lançou os títulos Doença de Chagas, Doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909 – 1962 (coleção História e Saúde) e Clássicos em Doença de Chagas: histórias e perspectivas no centenário da descoberta

Fruto de ampla pesquisa por parte das autoras, o álbum reúne um conjunto iconográfico singular e uma compilação dos mais expressivos documentos relativos à vida e à obra do médico sanitarista. Uma trajetória biográfica repleta de imagens e arquivos do cientista, contemplando capítulos sobre sua infância, sua formação médica e sua atuação como pesquisador, professor, diretor do Instituto Oswaldo Cruz e gestor na área de saúde pública federal. 

Em 2010, o livro foi finalista do Prêmio Jabuti, maior reconhecimento literário do país, na categoria Biografia. Uma nomeação de prestígio a uma obra que esmiuçou o percurso de um pioneiro da ciência nacional e que estará, no dia 14 de abril, inteiramente disponível em versão digital. “A iniciativa da Editora Fiocruz de disponibilizar, em acesso aberto, o livro sobre Carlos Chagas representa uma grande alegria. Ela vem ao encontro da minha convicção de que a ciência deve ir muito além da academia e dos laboratórios, deve estar sempre no mundo, compartilhada com os mais diversos grupos da sociedade”, comemora a autora Simone Kropf, professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS/COC/Fiocruz).    

A obra reflete ainda sobre os muitos títulos e premiações do cientista e sua importância para a continuidade das pesquisas sobre doenças associadas à pobreza em países tidos como periféricos. "O maior legado de Carlos Chagas é a visão de que a ciência deve atender às demandas da sociedade (no caso, a saúde pública) e que cabe ao Estado brasileiro garanti-la e promovê-la", destacou Kropf em 2019, na ocasião das comemorações pelos 110 anos da descoberta da doença de Chagas. 

Doença de Chagas no calendário oficial da OMS

A resolução que instituiu o Dia Mundial da Doença de Chagas foi aprovada no ano passado, durante a 72ª Assembleia Mundial da Saúde – que reúne delegações de todos os estados-membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) –, em Genebra, na Suíça. A decisão ocorreu em data emblemática para a Fiocruz: 24 de maio, véspera do aniversário de 119 anos da instituição. 

A presidente Nísia Trindade Lima participou da comitiva que representou o Brasil na cerimônia e comunicou, logo após a aprovação, a notícia para toda a comunidade da Fiocruz. “Sabemos o sentido histórico e contemporâneo que tem essa decisão. Trata-se de quebrar o silêncio em relação a um importante problema de saúde pública. Vai muito além da mais do que merecida homenagem ao grande cientista Carlos Chagas, referência para a ciência voltada à saúde pública em todo o mundo. Essa declaração institui o dia em que foi identifica pela primeira vez, clinicamente, a Doença de Chagas. Por isso, é tão significativa: trata-se de lidar não só com uma doença negligenciada, mas com populações negligenciadas”, enalteceu Nísia.

14 de abril de 1909 marca o dia em que Carlos Chagas identificou, pela primeira vez, o parasito Trypanosoma cruzi, causador da infecção, em uma paciente: Berenice, de dois anos, moradora da área rural de Lassance, em Minas Gerais. Dias depois, em 22 de abril, Oswaldo Cruz anunciava à Academia Nacional de Medicina que o então jovem pesquisador Chagas (assistente do Instituto que levava o nome do patrono da Fiocruz) havia descoberto o protozoário no sangue da menina.

Além de caracterizar o agente causador e o conjunto de sintomas, Carlos Chagas identificou o inseto transmissor: o triatomíneo, popularmente conhecido como barbeiro. A descrição do ciclo da doença de Chagas foi um dos feitos mais emblemáticos da ciência brasileira. E esse marco foi amplamente reconhecido pela resolução da OMS, que inseriu o Dia Mundial da Doença de Chagas em seu exclusivo calendário anual de campanhas mundiais. Agora, a data especial está ao lado de, entre outras, Dia Mundial da Saúde e Dia Mundial da Luta Contra a Malária, ambos também em abril, Dia Mundial sem Tabaco, em maio, e Dia Mundial de Combate à Aids, em 1º de dezembro.

Mesmo em meio ao seu maior desafio, a pandemia do novo coronavírus, a Organização Mundial da Saúde reforça a importância da data em seu calendário. Em seu site, o órgão destaca, nas páginas Dia Mundial da Doença de Chagas e Celebrando o Dia Mundial da Doença de Chagas pela primeira vez em 2020, que o objetivo do 14 de abril é aumentar a visibilidade e a conscientização do público sobre a doença, além dos recursos necessários para a prevenção, o controle e a erradicação. A OMS enaltece também os feitos de Carlos Chagas, reconhecendo a importância da ciência brasileira para a descoberta da enfermidade. 

A data não poderia estar descontextualizada da atual crise sanitária causada pela Covid-19. “Viver o Dia Mundial da Doença de Chagas em meio à pandemia assume um sentido muito especial e dramático. É um convite a que lembremos de Carlos Chagas não apenas como um grande nome da ciência, mas como exemplo de um cientista que sempre aliou conhecimento de ponta a compromisso com a saúde da população”, pontua Simone Kropf.

Doença de Chagas, doença do Brasil

Classificada como uma das principais doenças negligenciadas (tidas como endêmicas em populações em situação de baixa renda), a doença de Chagas continua sendo uma enfermidade crítica em diversas áreas do Brasil e do mundo, sobretudo pelo problema da subnotificação. Apesar dos muitos avanços no diagnóstico e no tratamento, ela continua a apresentar altos números. Dados da OMS indicam que, em todos os países das Américas, de seis a sete milhões de pessoas vivem com Chagas, sendo que a maioria não sabe que está infectada, dificultando políticas públicas para o pleno combate à doença e à proliferação do transmissor.

Ainda de acordo com o órgão, 65 milhões vivem com risco de contrair a infecção. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, estudos recentes mostram que há entre 1,9 milhões e 4,6 milhões de pessoas infectadas pelo T. cruzi – sendo a grande maioria portadores crônicos – e a doença de Chagas é uma das quatro maiores causas de morte por agravos infecciosos e parasitários. Por muito tempo, a enfermidade foi restrita às áreas mais pobres da América Latina. “Carlos Chagas, em 1926, afirmou que a doença de Chagas era a doença do Brasil. Um país que esquecia as populações dos sertões. E é isso que vem à mente quando estamos juntos nesse dia histórico. Hoje, quando se fala no mote da Agenda 2030 [da ONU], que é o ‘de ninguém deixado para trás’, é muito importante olhar para a prevenção e para o tratamento em doença de Chagas”, afirmou Nísia logo após o anúncio da OMS.

Nas últimas décadas, porém, o agravo se espalhou para outros continentes, com casos registrados nos Estados Unidos, Canadá e diversos países da Europa, além de Austrália e Japão. Associada principalmente às migrações humanas, a disseminação da enfermidade é tida pela própria OMS como um “problema de saúde global”. 

Kropf ressalta que, diante da crise do novo coronavírus, é importante lembrar a atuação de Carlos Chagas em outra pandemia que sobressaltou o mundo: a gripe espanhola. “Em 1918, já como diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Chagas foi incumbido de organizar serviços especiais de atendimento aos acometidos pela epidemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro, como hospitais emergenciais e postos de consulta. Sua atuação nesta frente seria decisiva para sua nomeação, em 1919, como diretor dos serviços federais de saúde”, explica a autora. 

Em meio ao enorme desafio atual, no qual a Fiocruz desempenha, segundo a própria OMS, papel central no combate à Covid-19 nas Américas, celebrar o Dia Mundial da Doença de Chagas a pouco mais de um mês para o seu aniversário de 120 anos é mais uma valorização da excelência científica da instituição. “É um dia para lembrar do passado, com os olhos no presente e no futuro”, ressalta Simone Kropf. Para a pesquisadora, reconhecer o legado de Chagas é essencial na atual conjuntura. “Neste 14 de abril, esperamos que Carlos Chagas seja visto nos rostos de todos os cientistas e profissionais de saúde que, hoje, lutam bravamente para produzir conhecimentos e ações para enfrentar a emergência sanitária global. Que ele seja reconhecido em todos os que defendem e constroem políticas públicas de saúde”, finaliza. Leia na íntegra o depoimento de Simone Kropf sobre o Dia Mundial da Doença de Chagas e o relançamento do livro em formato digital.

Ciência e saúde em acesso aberto: Editora Fiocruz no SciELO Livros

Com a chegada da biografia de Carlos Chagas ao SciELO Livros neste 14 de abril, a Editora Fiocruz atinge a marca de 285 livros na plataforma. Destes, 182 estão em acesso aberto e os outros 103 estão em modalidade de acesso controlado, com preços bem abaixo do valor do exemplar impresso. As obras para download livre podem ser baixadas em PDF e ou em EPUB, formato específico para livros digitais. 

Dessa forma, a Editora Fiocruz reforça sua missão de divulgar e ampliar o acesso ao conhecimento científico produzido nas diversas áreas da saúde. Dos cerca de 480 títulos de seu catálogo, mais da metade está disponível no SciELO Livros. “Esse movimento acena para a importância de estar com os livros onde o leitor possa acessá-los", destaca João Canossa, editor executivo da Editora Fiocruz.

A extensão do acervo da Editora na plataforma tem origem na sólida parceria: ao lado das editoras da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Estadual Paulista, a Editora Fiocruz fez parte, em 2011, do consórcio que liderou o desenvolvimento do Projeto SciELO Livros, com apoio da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). A rede online completou, em março de 2020, oito anos de fundação. A colaboração rende frutos superlativos: dos atuais cerca de 92,5 milhões de downloads de livros na plataforma, aproximadamente 45,6 milhões são dos volumes da Editora Fiocruz. 

Serviço:
Editora Fiocruz na Rede SciELO Livros

Total de livros disponíveis: 285
Livros em acesso aberto: 182
Livros em acesso comercial: 103
Mais informações sobre o SciELO Livros aqui.

Marcela Vieira
Editora Fiocruz

Reciis

Há muito tempo o modelo biomédico ocidental, promovido pelos governos, instituições científicas, universidades e sociedade civil, convive com concepções de saúde originárias de tradições populares, religiosas e crenças. Com a amplificação das vozes concorrentes pela verdade em fluxo pelas novas tecnologias de comunicação, as autoridades oficiais de saúde, bem como a legitimidade do jornalismo como o porta-voz da realidade, são desestabilizados diante do discurso que faz existir o fenômeno das fake news. Este é um pressuposto comum que perpassa os trabalhos publicados neste primeiro volume do ano da revista Reciis - Dossiê Fake News e Saúde.  

Em notas de conjuntura e em depoimento em vídeo que anuncia esta edição, o professor da Universidade de George Washington, Sílvio Waisbord, argumenta que estamos sob um novo regime de verdade sobre a saúde, no qual se tornam audíveis vozes dissidentes, razoavelmente (ou não) céticas quanto aos fundamentos da ciência e das instituições médicas. Sob a perspectiva dos valores democráticos, o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Afonso de Albuquerque, em Entrevista, compreende que o discurso das fake news se insere em um campo de deslegitimação das instituições da ciência e das práticas profissionais como o jornalismo – argumento este reforçado em editorial. Esta deslegitimação promove, contraditoriamente, soluções ditas autoritárias para o monopólio da verdade por algumas corporações científicas, políticas e comunicacionais.

Redes sociais e os boatos

Na seção dos artigos originais do dossiê, as páginas do Facebook do Ministério da Saúde e da Fiocruz são analisadas tendo em vista informações relacionadas às políticas de saúde e aos valores democráticos, e também a popularidade das postagens sobre boatos nos seguintes trabalhos: Comunicação pública no Facebook do Ministério da Saúde: Uma análise das campanhas sobre o Aedes aegypti no “verão do zika” e Zika e microcefalia no Facebook da Fiocruz: a busca pelo diálogo com a população e a ação contra os boatos sobre a epidemia. A discussão sobre os saberes e disputas pelo poder de saber do Estado, dos experts e de instituições científicas é contemplada nos trabalhos Fake news colocam a vida em risco: a polêmica da campanha de vacinação contra a febre amarela no Brasil em 2016 e Antivacina, fosfoetanolamina e Mineral Miracle Solution (MMS): mapeamento de Fake Sciences ligadas à saúde no Facebook.  

Em seguida, tendo como objeto de estudo a seção Verdade ou Boato do jornal Zero Hora (meio impresso) e GaúchaZH (meio digital), Kalsing, Rizzo e Brandão buscaram compreender as características das matérias produzidas e o perfil das informações checadas nesta seção. O dossiê contempla uma resenha escrita por Taís Seibt sobre o livro As fake news e a nova ordem (des)informativa na era da pós-verdade.  A edição conta ainda com publicações de artigos submetidos em fluxo contínuo que refletem sobre temas da Comunicação /Informação e Saúde, produção e divulgação científica. 

Das fake news às ações de divulgação científica da Reciis 

No contexto do fenômeno das fake news, fazer circular o conhecimento científico torna-se fundamental diante das diversas possibilidades de disseminação do saber que as novas mídias proporcionam. Esta preocupação que norteia toda a equipe da revista fez com que as ações de comunicação e divulgação científica das edições da Reciis tivessem resultados relevantes em 2019. A página do Facebook do periódico teve um crescimento de 50% de seguidores em relação ao ano de 2018. Sem considerar as interações das publicações sobre o lançamento das edições, chamadas de trabalho e a seção #NotíciasReciis, os posts que tiveram mais envolvimento foram referentes ao editorial assinado por Kizi Mendonça de Araújo, editora associada da ReciisPor uma ciência democrática e cidadã, do artigo Metodologias colaborativas não extrativistas e comunicação: articulando criativamente saberes e sentidos para a emancipação social e a conversa em vídeo com a assistente de pesquisa, Biancka Fernandes, conteúdo que compôs o editorial do dossiê 40 anos do movimento LGBT: visibilidades e representações

Reciis deu um salto no número de acesso às páginas dos artigos, ao sair de 1% de crescimento, em 2018, para exatos 14% a mais de acessos em 2019, totalizando mais de 92 mil acessos no ano. Os artigos publicados em 2019 mais acessados foram os do primeiro número do ano, entre eles, o trabalho Diretrizes e indicadores de acompanhamento das políticas de proteção à saúde da pessoa idosa no Brasil, a tradução de um relevante ensaio do cientista político Robert Crawfort, Salutarismo e medicalização da vida cotidiana e o artigo Apropriação da terminologia ‘uso consciente de medicamentos’ visando à promoção da saúde global

Já os trabalhos que tiveram mais downloads das edições de 2019 foram os publicados no último número do ano, entre eles, a entrevista com professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, Do lugar de fala ao corpo como lugar de diálogo: raça e etnicidades numa perspectiva comunicacional e o artigo Esperança x sofrimento nas mídias sociais: o que motiva seguidores do Instagram a seguir a temática câncer?, ambos pertencentes à edição que compõe o dossiê Saúde, etnicidades e diversidade cultural: comunicação, territórios e resistências

Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde (Reciis) é editada pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). 

Clique aqui para acessar o primeiro número de 2020 da Reciis.

Roberto Abib
Reciis

livro A voz do povo

Uma história dos discursos de discriminação da fala e da escuta populares é o tema central do livro A voz do povo: uma longa história de discriminações (Editora Vozes, 2020), de autoria de Carlos Piovezani, docente do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Com apoio da FAPESP, o professor traça na obra a trajetória de discriminações das práticas populares de linguagem, examinando um conjunto de fontes, que vai desde a Antiguidade greco-latina até o Brasil atual.

O livro conta com capítulos distribuídos em três partes: “Ouvir a voz do povo”; “Breve genealogia da voz e da escuta populares”; e “Retratos de um porta-voz popular na mídia brasileira”.

A obra se vale de conceitos, como os de língua, discurso, fala pública popular, escuta popular da fala pública e metalinguagem da emancipação popular, que são explicados de modo que mesmo o leitor não familiarizado com os campos da Análise do Discurso, da História das Ideias Linguísticas e da História das Sensibilidades poderá compreendê-los.

O livro pode ser adquirido no site da Editora Vozes.

Agência FAPESP*

* Com informações da Coordenadoria de Comunicação Social da UFSCar.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

minhocas

Livro destaca a importância da ecotoxicologia e métodos de pesquisa

Nesta quinta-feira, 05/12, quando é celebrado o Dia Mundial do Solo, a Embrapa disponibiliza o livro “Ecotoxicologia Terrestre: métodos e aplicações dos ensaios em oligoquetas”. A publicação é pioneira nesta área e traz uma descrição detalhada do uso de oligoquetas, como as minhocas e os enquitreídeos, como indicadoras da qualidade solo e organismos-teste para a avaliação dos efeitos de diversos contaminantes como agrotóxicos ou metais pesados e até insumos agropecuários no solo. 

Assim como outros organismos, as minhocas são utilizadas na avaliação do grau de periculosidade ambiental de produtos agrícolas exigida para o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os mesmos métodos também podem ser aplicados em avaliações de áreas com suspeita de contaminação e também para determinar o grau de comprometimento da qualidade do solo. Os estudos contribuem, também, para o uso racional de agrotóxicos, pois ajudam a determinar a dose segura para o meio ambiente. 

A publicação tem como editores-técnicos os pesquisadores Cintia Niva (Embrapa Cerrados) e George Gardner Brown (Embrapa Florestas) e é fruto do trabalho de 25 autores de 19 instituições brasileiras e duas estrangeiras. O livro foi organizado de forma a dar um panorama geral sobre a importância e o porquê da ecotoxicologia terrestre e a abordagem dos métodos de pesquisa, com descrição detalhada dos ensaios ecotoxicológicos com base em metodologias padronizadas internacionalmente e experiências dos autores com as adaptações necessárias para as condições brasileiras. A contribuição de colaboradores estrangeiros traz os avanços tecnológicos, descrevendo métodos importantes com abordagem de semi-campo e campo ainda pouco aplicados no Brasil.

“Vários grupos de pesquisadores no País trabalhavam com ecotoxicologia terrestre de forma isolada, não integrada. Submetemos um projeto de pesquisa pela Embrapa para avançar no conhecimento sobre as minhocas e enquitreídeos e integrar essas equipes”, explica Cintia Niva. “Os estudos ecotoxicológicos auxiliam a sociedade a usufruir dos recursos naturais de forma sustentável e racional”, aponta.

George Brown exemplifica que “este tipo de estudo pode indicar, por exemplo, a dose ambientalmente segura de agentes químicos ou biológicos utilizados no solo para controle de pragas e doenças; no monitoramento da qualidade do solo, da água e do ar, entre muitos outros indicadores ambientais. Pode, ainda, auxiliar a indicar quanto um determinado compartimento do ecossistema pode estar comprometido em áreas com suspeita de contaminação”. 

Os estudos de ecotoxicologia com oligoquetas capitaneados por este grupo começaram em 2008 e, em 2011, foi realizado o “Workshop Ecotoxicologia com Oligoquetas: Métodos, práticas e importância”, organizado pela Embrapa Florestas e Universidade Positivo, em Curitiba (PR), para alinhar as diferentes metodologias utilizadas nos ensaios para avaliações ecotoxicológicas no Brasil e aumentar a integração entre as equipes de pesquisa. Este evento foi o marco para a elaboração do livro. 

Adaptação à realidade tropical
As minhocas mais comumente utilizadas em todo o mundo para uso como indicadoras da qualidade do solo são as vermelhas-da-Califórnia (Eisenia andrei e E. fetida). Mas elas não têm a mesma relevância ecológica em todos os lugares por serem minhocas de serapilheira, originárias do clima temperado. Diante das diferenças ambientais entre as diversas regiões mundiais, o livro discute a possibilidade de algumas espécies de minhocas dos trópicos e que vivem dentro do solo serem empregadas como organismos-teste e indicadores de ecotoxicidade terrestre. Além disso, propõe algumas espécies de enquitreídeos alternativos para esses testes. 

Nesse sentido, a publicação aborda os métodos mais recomendados para avaliações de ecotoxicologia terrestre para as regiões tropicais, considerando as experiências dos grupos de pesquisa que trabalham com o tema. Recomendações são indicadas para experimentos que avaliam os efeitos de substâncias quanto à letalidade, à reprodução e ao comportamento de fuga de diferentes espécies de oligoquetas, além da bioacumulação dos produtos nesses animais. 

O último capítulo aborda métodos mais arrojados de semicampo ainda pouco utilizados no Brasil, como o uso de colunas ou blocos de solo intactos para aumentar o realismo das condições de campo no laboratório, sendo esses módulos de solo tratados com a substância que se deseja testar. A importância de adaptações em relação ao tipo de solo, temperatura e duração dos experimentos com oligoquetas e a necessidade de avanços na legislação, regulamentação e normas em relação à avaliação de risco com organismos de solo também são discutidas.

Impacto da obra
O livro é especialmente indicado para profissionais e alunos atuando na área acadêmica, de pesquisa, de prestação de serviços ou de órgãos reguladores, oferecendo a base conceitual e metodológica de como realizar estudos ecotoxicológicos com oligoquetas. Nesse sentido, auxilia na aplicação de metodologias mais eficientes e práticas para a avaliação e monitoramento da qualidade do solo, na avaliação de risco ambiental e em tomadas de decisão em gestão ambiental no país.

Disponível para download gratuito em:
http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/206187/1/Cintia-Niva-Livro-Ecotoxilogia-2019-final.pdf

Breno Lobato (MTb 9417/MG)
Embrapa Cerrados

Agenda Laranja sobre literatura

Ser escritor nem sempre foi uma tarefa fácil, mas ser escritora é ainda mais difícil. Mesmo sem o reconhecimento que autores homens têm recebido, as mulheres também integram o mundo da literatura, não só como leitoras, mas como escritoras. Nas últimas décadas, a literatura feita por mulheres ganhou maior visibilidade por construir narrativas com elemento das temáticas: gênero, sexualidade, trabalho, racismo, cotidiano e cuidado. Por esse motivo, a 18° sessão da Agenda Laranja do Instituto Nacional de Saúde da Mulher da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) teve como objetivo refletir sobre a Literatura como campo de empoderamento de mulheres e meninas.

O encontro aconteceu (29/10) no Auditório A do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) da instituição, sob organização dos professores Corina Mendes e Marcos Nascimento, coordenadores da Agenda Laranja do IFF/Fiocruz, projeto voltado à construção de uma cultura institucional comprometida com a igualdade de gênero. A iniciativa se alinha à campanha criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2008, com o propósito de promover o empoderamento das mulheres e a erradicação da violência contra mulheres e meninas, ações centrais para o desenvolvimento sustentável do planeta.

O evento teve como convidadas Bianca Lopes, psicóloga clínica e biblioterapeuta; Paula Ferraz, escritora, promotora social, pedagoga e contadora de histórias negras. Representando o Instituto participaram Magdalena Oliveira, coordenadora do Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais (Napec), Cynthia Magluta, escritora, médica e coordenadora da Oficina Literária IFF/Texto Território, e Roberta Tanabe, escritora, pediatra e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do IFF/Fiocruz.

Literatura Feminina

A presença das mulheres no mundo das artes está longe de ser igualar a dos homens, mas a literatura tem se ampliado como um campo de resistência e empoderamento feminino. Com essa reflexão, Corina Mendes deu abertura à Agenda. Nessa linha de debate, Cynthia Magluta ressaltou as possibilidades que a literatura dá ao autor de criar mundos reais a partir do imaginário e como as escritoras podem aproveitar isso para antecipar a vivência do real, idealizar um mundo sem violência e com mais equidade, para assim concretizar este universo imaginado.

Apesar das dificuldades atravessadas ao longo da história, é certo que mulheres alcançaram notoriedade com suas obras, refletiram sobre o exercício da escrita e a produção literária feminina, como Virginia Wolf no livro Um teto todo seu, e contemporaneamente Marina Colasanti, Chimamanda Adichie e Elena Ferrante. Bianca Lopes incitou uma reflexão sobre a importância das escritoras apoiarem o trabalho literário de outras mulheres para dar maior visibilidade e contribuir, assim, para a construção de um mundo com igualdade de gênero.

Para Bianca, esse não é um assunto apenas de solidariedade de gênero. Para ela, as mulheres hoje têm a necessidade de acessar histórias e narrativas contadas através das perspectivas de outras mulheres e não só pela ótica do homem. Exemplos da literatura infantil servem para ilustrar como ainda hoje os escritores homens publicam mais, mesmo em temas que envolvem o gênero feminino. “Essa é uma preocupação que me perpassa, se nós somos construídos a partir de narrativas, que textos estamos oferecendo para as meninas, nestes tempos quando a discussão é o empoderamento?”, questionou a psicóloga, convidando o público a ler obras escritas por mulheres.

Equidade não só de gênero

Já Paula Ferraz trouxe novos enfoques às reflexões quando abordou os recortes de raça e gênero, afirmando que, se a literatura produzida por mulheres enfrenta dificuldades, os espaços para a literatura feminina negra são ainda mais raros e escassos. Por isso, para ela, os movimentos literários de mulheres e para mulheres são vitais para que essas escritoras tenham mais visibilidade e para o fortalecimento da identidade e do empoderamento da mulher negra. “Nós sabemos a nossa história, os nossos sacrifícios, nossas vitórias. Nós entendemos muito mais disso. Portanto, é essencial essa empatia uma com a outra e é muito importante que todas tenhamos a consciência do valor curativo que a escrita tem para nós mulheres”, apontou.

Poder curativo da Literatura 

Magdalena Oliveira enfatizou justamente o valor terapêutico da escrita e leitura, através da sua experiência com crianças internadas e em assistência ambulatorial, suas mães e outros acompanhantes, trabalhadores e voluntários que frequentam o IFF/Fiocruz.

“A leitura nos permite viajar a lugares que nunca imaginamos estar, e assim nossas crianças hospitalizadas e suas cuidadoras, podem conseguir por alguns momentos esquecer um pouco da situação de saúde que estão atravessando. Eu vejo em cada fala de nossas mulheres uma vida preciosíssima de muita coragem e muita esperança. Elas nos ensinam também outro olhar. Não é só dor o que temos para contar, temos alegrias e muitas vitórias. Por isso, convido elas a fazer o exercício de escrever um pouco sobre a suas vidas, porque a escrita é um terapeuta silencioso. Enquanto a leitura lúdica torna a vida neste hospital muito mais tranquila”, refletiu Magdalena.

Ainda neste sentido, Roberta Tanabe falou sobre sua experiência como escritora de histórias baseadas na sua vivência no atendimento e cuidado de crianças no IFF/Fiocruz. A pediatra compartilhou como para ela a literatura passou a ser mais que um hobbie, tornando-se um exercício de cura. “Eu estava extremamente mobilizada pelas histórias das mães das crianças e acumulava muito tudo isso, até que descobri a escrita como um caminho de extravasar”, comentou sobre esse poder curativo da literatura não só para quem lê, mas também para quem escreve, e como isso é importante para mulheres que vivem com condições crônicas na saúde de seus filhos.

Durante o evento, foram feitas leituras de trechos de livros das convidadas e de outras autoras mulheres. No encerramento, livros foram sorteados para os assistentes, como acontece a cada encontro da Agenda Laranja, e todos foram convidados para o lançamento do livro de Roberta Tanabe, Mosaico: Vidas em reinvenção da Editoria Texto Território, à venda aqui.

Mayra Malavé
IFF/Fiocruz

Livro editado por Marilda Solon Teixeira Bottesi foi entregue a Brito Cruz

O seminário Collaborative Research on the Sustainable Development Agenda, agendado para esta quarta-feira (18/03), mas cancelado por medida de segurança contra a disseminação do novo coronavírus, reuniria pesquisadores do Brasil e do exterior em uma homenagem a Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP que deixará o cargo no final de abril.

O encontro previa a realização de duas mesas-redondas sobre colaboração em pesquisa e projetos estratégicos para uma agenda de desenvolvimento sustentável, que reuniria o embaixador Achilles Zaluar, do Ministério de Relações Exteriores; Ted Hewitt, presidente do Social Sciences and Humanities Research Council (SCHRC), do Canadá; Michael Booth, chefe de Desenvolvimento de Parcerias Internacionais do UK Research and Innovation (UKRI), do Reino Unido; Evaldo Ferreira Vilela, presidente do Conselho Nacional da Fundações de Amparo à Pesquisa (Confap); Molapo Qhobela, presidente da National Research Foundation (NRF), da África do Sul; Ruben Sharpe, do Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO), dos Países Baixos; Tim Willis, diretor do International, Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC), do Reino Unido; e Alejandro Zurita, chefe de Ciência, Tecnologia e Inovação da União Europeia.

Ao final do seminário, estava agendada a cerimônia de homenagem a Brito Cruz, da qual participaria toda a direção da FAPESP – Marco Antonio Zago, presidente; Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA); e Fernando Menezes, diretor Administrativo –, o novo diretor científico da Fundação, Luiz Eugênio Mello, além dos participantes do seminário e pesquisadores convidados. France Córdova, presidente da National Science Foundation (NSF), e Peter Strohschneider, ex-presidente da German Research Foundation (DFG), da Alemanha, enviaram vídeos cumprimentando Brito Cruz por iniciativas de sua gestão.

O encontro se encerraria com a entrega de um livro (festschrift, termo alemão para obra que reúne textos em tributo a um acadêmico de relevo) que reúne a reflexão de líderes de agências de fomento, parceiros em órgãos de governo, pesquisadores e colegas da FAPESP sobre os 15 anos de gestão de Brito Cruz à frente da Diretoria Científica da Fundação. O livro, entregue a Brito Cruz no dia 16 de março, na FAPESP, pode ser acessado no endereço www.fapesp.br/publications/festschrift.pdf.

Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

revista científica Trabalho, Educação e Saúde

Já está online a primeira edição de 2020 da revista científica Trabalho, Educação e Saúde (vol. 18, número 1), editada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). A pergunta que fazemos neste texto (Até quando adotaremos classificações que pouco contribuem para avaliar a qualidade da produção de conhecimento no Brasil?), é o arremate do editorial Contribuições ao debate sobre a avaliação da produção científica no Brasil, assinado pelas sete revistas científicas da Fiocruz. Nele, questiona-se a decisão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) de estabelecer novos critérios para classificar revistas científicas no Qualis Periódicos. A metodologia propõe uma única clas¬sificação de referência para os periódicos, o Qualis Único, com base no uso combinado dos indicadores bibliométricos CiteScore (Scopus), Fator de Impacto (Web of Science) e h5 (Google Scholar), o que pode gerar “resultados desastrosos a periódicos já consolidados em suas áreas de atuação”.

Apesar de reconhecer o papel fundamental da Capes na avaliação de periódicos, o texto critica o "uso de indicadores bibliométricos, construídos para finalidades não relacionadas à avaliação da qualidade da produção científica" e a falta de "maior transparência e participação da comunidade acadêmica envolvida". O editorial propõe uma revisitação à San Francisco Declaration on Research Assessment (Dora), que apregoa o fim da utilização do fator de impacto para avaliação de pesquisa científica, e ao Manifesto de Leiden, que apresenta dez princípios para o uso adequado de métricas em avaliação da ciência. E salienta que "um único critério para avaliação de periódicos científicos é questionável, considerando as profundas diferenças entre as áreas acadêmicas na produção e divulgação do conhecimento, o que gera resultados desastrosos a periódicos já consolidados em suas áreas de atuação".

A revista traz ainda o ensaio Paulo Freire e o inédito viável: esperança, utopia e transformação na saúde, de César Augusto Paro, Miriam Ventura e Neide E. Kurokawa e Silva, sobre o constructo "inédito viável", de Paulo Freire, com o objetivo de explorar suas potencialidades na saúde coletiva. De acordo com os autores, “a emergência dos inéditos viáveis resulta de complexo processo pedagógico, que vai do estranhamento da realidade à percepção crítica dos sujeitos envolvidos, a qual propicia a construção dos inéditos viáveis, como etapa que antecede a ação.” Eles propõem em sua conclusão “uma pedagogia aplicada à saúde coletiva que incorpore o ‘inédito viável’ como possibilidade de transcender o adestramento técnico, baseado, exclusivamente, em conteúdos informativos, investindo, também, nas capacidades de indignação e denúncia e na construção de projetos coletivos”.

Na seção Artigos, destaca-se o manuscrito Necessidades e reivindicações de homens trabalhadores rurais frente à atenção primária à saúde, de Sérgio Vinícius Cardoso de Miranda e colaboradores, no qual descrevem uma pesquisa que mobilizou 41 entrevistas em profundidade, registros em diário de campo e coleta de dados secundários, com o objetivo de “compreender as principais necessidades e reivindicações de homens trabalhadores rurais frente a uma equipe de Atenção Primária à Saúde”, em município de Minas Gerais. O estudo qualitativo permitiu uma discussão sobre a invisibilidade dos trabalhadores rurais na procura e acesso aos serviços de saúde e a valorização do modelo assistencial curativista.

Em Docência na educação infantil: neoliberalismo, desumanização e adoecimento na república inacabada brasileira, artigo de autoria de Wagner Eduardo Estácio de Paula e Rita de Cássia Gabrielli Souza Lima, analisa-se a percepção de professores de educação infantil sobre a produção de dignidade pelo trabalho, no contexto da categoria teorética ‘repúblicas inacabadas’. Os autores constataram que essa produção é atravessada “Por uma forma de solidão que aparece quando, no cotidiano do trabalho, o ser professor de pequenos sente-se invisível, pouco ouvido pelas instituições envolvidas com seu trabalho, cabendo citar: unidade-gestão escolar, família, poder público municipal, colegas, secretarias e governo”. Em conclusão, os autores criticam “um mundo de ideologia neoliberal” e o “agravamento das desigualdades sociais”, propondo “o reconhecimento e o estímulo ao trabalho coletivo como ferramentas de transformação”.

No artigo Acesso à saúde pela população trans no Brasil: nas entrelinhas da revisão integrativa, Pablo Cardozo Rocon e colaboradores construíram um mapeamento da produção científica sobre o acesso à saúde pela população transexual pós-2008, ano que foi um marco para a saúde trans no Brasil, quando foi criado o Processo Transexualizador do Sistema Único de Saúde (SUS). Os autores realizaram uma revisão integrativa da literatura a respeito do tema, na qual utilizaram as bases Medline, Lilacs e SciELO. Em suas considerações finais, constataram inúmeros desafios para o acesso da população trans ao SUS, entre eles: a discriminação nos serviços e equipamentos de saúde; a patologização da transexualidade; o acolhimento inadequado; a exigência de cirurgia; a falta qualificação dos profissionais; a ausência de política de atenção básica e inexistência de rede de saúde; e a escassez de recursos para o financiamento dos processos transexualizadores e de políticas de promoção da equidade e respeito às identidades de gênero trans.

Trabalho, Educação e Saúde (vol. 18, número 1), apresenta ainda manuscritos com os seguintes temas: saúde mental, segurança do paciente na atenção primária em saúde e estresse ocupacional na mídia impressa. Duas resenhas de livros encerram a edição: Vicente Eduardo Soares de Almeida e Karen Friedrich comentam o livro Entre controvérsia e hegemonia: os transgênicos na Argentina e no Brasil, de Renata Motta, publicado pela Editora Fiocruz, e Lucas Salvador Andrietta faz a crítica da obra Planos de saúde e dominância financeira, de José A.F. Sestelo, da editora da UFBA.

Mais informações:
Revista Trabalho, Educação e Saúde
Tel. (21) 3865-9850

Paulo Guanaes
EPSJV/Fiocruz

crítica de cinema no Brasil

O semanário Opinião foi uma publicação alternativa que circulou nas principais cidades brasileiras de outubro de 1972 a abril de 1977. Expressando os pontos de vista heterogêneos de uma frente ampla de jornalistas e intelectuais que se opunham à ditadura militar, o semanário foi criado por iniciativa do empresário Fernando Gasparian (1930-2006) e teve como editor-chefe o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira (nascido em 1940).

Os dois trabalharam juntos até meados de 1975, quando, devido a divergências, Pereira e a maioria da equipe jornalística se afastaram do Opinião para criar o semanário Movimento, de perfil oposicionista mais acentuado. O Movimento circulou regularmente até 1980 e deixou de existir em 1981.

Alguns dos principais intelectuais atuantes no país escreveram críticas ou concederam entrevistas para o Opinião, entre eles, Antonio Candido, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Hélio Jaguaribe, Millôr Fernandes, Oscar Niemeyer, Otto Maria Carpeaux e Paul Singer.

Na editoria de Cultura, destacaram-se as críticas de cinema escritas por Jean-Claude Bernardet, Sérgio Augusto e outros. Bernardet e Augusto escreveram regularmente no Opinião, por volta de 60 artigos cada um.

A pesquisadora Margarida Adamatti, professora do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), analisou essa produção crítica, bem como a de outros colaboradores do semanário, em sua pesquisa de doutorado, realizada na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) sob a orientação de Eduardo Victorio Morettin e com apoio da FAPESP.

Sua tese resultou no livro Crítica de Cinema e Repressão: Estética e Política no Jornal Alternativo Opinião, agora publicado também com apoio da FAPESP.

“Minha intenção original era pesquisar a crítica cinematográfica no Opinião e no Movimento. Mas percebi que este seria um trabalho extenso demais e resolvi deixar o Movimento para outra ocasião. Concentrei-me no Opinião, analisando internamente os textos, fazendo entrevistas com os principais colaboradores do semanário e pesquisando o contexto”, disse Adamatti à Agência FAPESP.

A produção cultural brasileira da época foi fortemente impactada pelo contexto político. Na chamada imprensa alternativa, produzir uma edição a cada semana, enfrentando censura prévia, apreensão de exemplares já liberados pela censura, dificuldades financeiras e vários tipos de ameaças, era um ato de coragem e obstinação de suas equipes.

Segundo o estudo “Censura durante o regime autoritário”, apresentado pelo sociólogo Glaucio Ary Dillon Soares no XII Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), das 10.548 páginas escritas pelos colaboradores do semanário Opinião, somente 5.796 chegaram aos leitores. As demais tiveram sua divulgação proibida pelos censores.

“Minha pesquisa não poderia deixar de considerar esses condicionamentos. Por isso, um dos capítulos do livro trata exatamente das estratégias usadas pelos articulistas para driblar a censura”, disse Adamatti.

Outro foco da pesquisadora foi a própria dinâmica interna do semanário, como reflexo dos debates e embates que se travavam no campo da resistência e oposição à ditadura. “Eu busquei estudar como as diferentes concepções presentes nesse campo se refletiam nos métodos de análise fílmica utilizados na crítica da produção do cinema brasileiro da época”, prosseguiu.

Além das críticas propriamente ditas, a pesquisadora investigou também as polêmicas que se travavam na seção de cartas dos leitores. O semanário era uma verdadeira tribuna de opinião. Quase toda a intelectualidade democrática participava dele de alguma forma, no corpo dos articulistas ou no conjunto maior dos leitores. “Minha intenção foi compor uma espécie de genealogia da crítica de cinema como método no Brasil. Para isso, os artigos e cartas publicados no Opinião constituíam um material privilegiado”, explicou.

A revista francesa Cahiers du Cinéma, criada em 1951 por André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca, e até hoje a principal referência em termos de crítica cinematográfica, foi a influência mais importante recebida pelos críticos. “Essa revista foi se politizando ao longo do tempo, principalmente durante os anos 1960, estabelecendo um novo padrão de análise que serviria de inspiração aos críticos de Opinião, que realçaram o cinema como ferramenta de mudanças sociais e políticas”, afirmou Adamatti.

“Já antes disso, em sua coluna diária no jornal Última Hora e em outras formas de exercício da crítica, Jean-Claude Bernardet promoveu uma desmistificação do conteúdo ideológico dos filmes. Eu o entrevistei na minha pesquisa e tive acesso ao acervo entregue por ele à Cinemateca Brasileira, com cartas, cadernos de rascunho e outros materiais. Seu livro Brasil em tempo de cinema tornou-se a referência metodológica para a crítica cinematográfica feita no Brasil nos anos 1970”, concluiu a pesquisadora.

Crítica de Cinema e Repressão: Estética e Política no Jornal Alternativo Opinião
Autora: Margarida Maria Adamatti
Editora: Alameda
Ano: 2019
Páginas: 396
Preço: R$ 68
Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br/cinema/critica-de-cinema-e-repressao-de-margarida-adamatti

José Tadeu Arantes
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Um piano nas barricadas

Livro do escritor Marcello Tari marcou época ao contar a história do movimento Autonomia Operária, na Itália dos anos 1970.

As imagens de estudantes em confronto com a polícia em maio de 1968, na França, correram mundo e influenciaram pessoas e movimentos. Porém, no começo dos anos 1970, na Itália, um movimento tão importante quanto despontou: o “Autonomia Operária”. Tinha visão inovadora e na pauta de discussões e debates sobre a multiplicidade dos feminismos e questões ligadas gays. É justamente essa história - publicada pela primeira vez no Brasil –  que conta o livro “Um piano nas barricadas”, de Marcello Tari, uma coedição das editoras GLAC e N-1. O lançamento  acontece no próximo domingo, dia 15 de dezembro, a partir das 15h, na Galeria Reocupa da Ocupação Nove de Julho (Rua Álvaro de Carvalho 427, São Paulo).

“Um piano nas barricadas” traz à luz a importância do movimento Autonomia Operária, um conjunto de ações e práticas - mais radicais se comparadas a  Maio de 68, movimento que em parte se institucionalizou criando até mesmo partidos políticos (o movimento da Autonomia, por sua característica radicalmente experimental ficou conhecido inclusivo como Maio Rastejante). A Autonomia Operária foi, de uma forma diversa, mais potente que o movimento francês em termos de experimentalismos revolucionários no que consiste nas práticas criativas e inventivas. Por esta razão, o livro traz outra forma de se pensar insurreições sociais que não tenham caráter institucional. O livro abre caminhos para quem compreendamos os acontecimentos de junho 2013, quando uma onda de protestos tomou conta do país. “Um piano nas barricadas” também ilumina a compreensão para fatos recentes acontecidos nos nossos vizinhos de América Latina, como Equador, Bolívia e Chile.

A obra de Marcelo Tari, que era jovem quando participou dos acontecimentos da Autonomia em 1970, foi concebida em período turbulento da história da Itália. Naqueles tempos o país estava mergulhado em greves descontroladas, trabalhadores que odiavam a fábrica, jovens selvagens que praticavam outros modos de vida, feminismos, contraculturas, lutas armadas. A Itália dos anos setenta era selvagem em quase todas as suas expressões.

Sobre o autor
Marcello Tarì é um pesquisador independente e pensador propositor da autonomia, autor de numerosos ensaios. Viveu nos últimos anos entre a França e a Itália. Contribuiu para o livro Gli autonomi. A teorie, a burbot, a storia (DeriveApprodi, 2007) e publicou Movimenti dell’Ingovernabile. Dai controvertici alle lotte metropolitane (Ombre Corti, 2007), além dos mais recentes, traduzidos para várias línguas, Autonomie !: Italie, les années 1970 (La Fabrique, 2012) e Non esiste la rivoluzione infelice: Il comunismo della destituzione (DeriveApprodi, 2017)

Ficha Técnica “Um piano nas barricadas”
Formato 19 X 12 cm, preto e branco, 392 páginas preço de capa R$ 65,00 tradução Edições Antipáticas (Lisboa, Portugal) projeto gráfico GLAC edições colaboração gráfica Érico Peretta revisão de tradução Andrea Piazzaroli preparação Gustavo Motta revisão Lia Urbini

Serviço
15 de dezembro, a partir das 15h, na Galeria Reocupa da Ocupação Nove de Julho (Rua Álvaro de Carvalho 427, São Paulo).

Como plumas ao vento - Comme des plumes au vent

Evill Rebouças, dramaturgo que ao longo da sua trajetória recebeu várias indicações e prêmios, entre eles, o APCA e o Shell, lança o livro Como plumas ao vento - Comme des plumes au vent, publicação em português e francês no mesmo exemplar, e que aborda o lugar de (não) pertencimento em relação a refugiados. O evento acontece no dia 7 de dezembro, sábado, na SP Escola de Teatro, às 18 horas.

A peça de teatro ora publicada no livro foi criada a partir de duas experiências de pesquisas do dramaturgo. A primeira delas ocorreu, em 2016, quando Evill Rebouças recebeu convite para escrever uma peça de teatro na sede da companhia francesa Nie Wiem - um galpão fabril em Chateauvillain, a duas horas de Paris. O desafio foi agregar as experiências anteriores do dramaturgo no espaço não convencional às arquiteturas do galpão industrial e seus arredores, tendo como ponto de partida o olhar dos franceses sobre os refugiados.

A segunda pesquisa ocorreu, em 2018, quando o dramaturgo recebeu o Prêmio ProAc Editais - Texto de Dramaturgia.  Foi mantido o mesmo referencial de pesquisa, ou seja, os refugiados, porém surge um novo texto a partir das experiências contadas por congoleses, sírios, haitianos e venezuelanos no Brasil. Assim, a peça mostra acontecimentos que estão interligados por olhares e culturas diferentes e complementares, mas tendo o refugiado como centro de investigação.

Serviço
Lançamento / noite de autógrafos:
Como plumas ao vento - Comme des plumes au vent
Autor: Evill Rebouças / Editora: independente
Dia 7 de dezembro. Sábado, das 18 às 21h

SP Escola de Teatro (Saguão)
Praça Franklin Roosevelt, 210 - Consolação
Valor do livro: R$ 25,00 (cartão crédito e débito)

Contatos autor: (11) 94126 7714 – This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.

Jorge Moreira

O escritor Jorge Alexandre Moreira lança seu segundo romance, o livro de terror “Numezu” (Editora Monomito), dia 7 de novembro, quarta-feira, no Castelinho do Flamengo, a partir das 18h. O autor é considerado uma aposta do mercado editorial do gênero - seu romance de estreia, "Escuridão", foi eleito pelos sites especializados, Biblioteca do Terror e Acervo do Leitor, como um dos melhores livros de terror já publicados no Brasil.

“Numezu” narra a história do casal Laura e Raoul que, numa tentativa de salvar o casamento, sai de férias num passeio de veleiro. Raoul volta de um mergulho trazendo uma estranha e antiga estátua que começa a ter influências maléficas sobre ele. Enquanto isso, em terra, Gaspard, um jovem francês, foge desesperadamente de seus próprios demônios. Os caminhos dos três se cruzam com consequências assustadoras.

“O ano em que comecei a escrever histórias de terror foi em 1987, com 14 anos. Eu ia à biblioteca, pegava três livros, sentava na última cadeira da sala e lia e escrevia. Fiz isso sem parar, lendo seis livros por mês. No final do ano, eu estava reprovado, mas decidido a me tornar escritor”, revela o autor. Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras e inspetor da Comissão de Valores Mobiliários, Moreira cita Stephen King, Clive Barker, Rubem Fonseca e Jorge Amado como autores inspiração. Sua carreira surgiu com o lançamento do conto "Vontades", na antologia "Confinados", com o conto "Um Lugar Especial", na antologia "Numa Floresta Sombria", seguido da novela de suspense "Parada Rápida", em 2018, e depois o aclamado romance “Escuridão”. 

A indústria do horror cresceu exponencialmente no Brasil nos últimos dois anos. Foi criada a Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst) que já reúne 160 participantes, incluindo Moreira, houve um aumento no número de produções nacionais dedicadas ao gênero, com destaque para o longa de alto orçamento, “Morto não fala”, de Dennison Ramalho com Daniel Oliveira e Fabíula Nascimento. Lançado em outubro, o filme completou a quarta semana em cartaz, uma conquista para o cinema nacional.  Para coroar o crescente interesse do público, foi realizado em São Paulo, na segunda semana de outubro, a Horror Expo, um investimento de 2 milhões que teve 12 mil participantes, 60 empresas expositoras, 141 artistas independentes e oito apresentações musicais internacionais

Ficha Técnica:
Título do livro: Numezu
Editora Monomito
ISBN: 978-65-80505-07-04
Número de páginas: 184
Preço sugerido: R$31,90