A pesquisadora Pamela de Bortoli Machada: documentários como"elementos norteadores que explicitam as problemáticas sociais e digitais e suas relações com música"

Autora de dissertação analisa conteúdo de seis documentários

Conectar música, inclusão e cinema documentário. A ideia da dissertação de mestrado da pesquisadora Pamela de Bortoli Machado partiu da vontade que ela tinha de reunir três temas que fazem parte da vida dela: pianista de formação clássica, Pamela trabalha em uma organização não governamental católica que atende populações vulneráveis e, quando ingressou na Unicamp, como estudante especial, viu no documentário a chance de explorar as possibilidades da música como instrumento de inclusão social.

A dissertação “Representação de inclusão social e digital por meio da música em documentários brasileiros”, apresentada ao programa de pós-graduação em Multimeios do Instituto de Artes (IA) da Unicamp se propõe a analisar seis filmes, lançados entre 2003 e 2011, divididos em dois grupos: o primeiro é formado por produções que mostram a inclusão social por meio da música, e o segundo grupo é composto por filmes que abordam a inclusão de artistas no mercado digital da música.

No primeiro grupo, Fala Tu, documentário de Guilherme Coelho, acompanha durante meses a trajetória de três moradores da zona norte carioca que sonham em fazer do rap o seu ganha-pão. L.A.P.A, de Cavi Borges e Emílio Domingos, mostra o bairro do Rio de Janeiro como ponto de encontro de MCs. Insurreição rítmica, dirigido por Benjamin Watkins, registra a ação de organizações sociais da Bahia que utilizam as artes afro-brasileiras para a inserção de jovens e crianças.

O segundo grupo de filmes reúne o documentário We.Music: Como a web revoluciona a música?, projeto colaborativo sobre o futuro da música nas plataformas digitais, Música.BR, de Fabiano Passos, com aqueles que produzem, negociam, ou apenas consomem música no país, e por último Profissão: Músico, dirigido por Daniel Vargas questionando os artistas e produtores sobre a profissão.

Segundo a autora, os músicos que dependem financeiramente da música “sobrevivem a um momento de transformação no mercado musical, em que o download (legal ou ilegal) perde cada vez mais espaço para o streaming de músicas”. Em relação ao primeiro grupo de documentários a autora afirma que “o que há de valioso nos filmes é o contato com os artistas, desde a clareza das potencialidades como músicos, até a visibilidade da poesia em lugares marcados pelas dificuldades geradas pela desigualdade de renda”.

Para discutir o papel da música na inclusão, Pamela primeiro fez um estudo do que significa estar incluído na sociedade e os motivos da exclusão. Os filmes foram analisados sob este viés. “Fazemos uso de documentários brasileiros como instrumento de conscientização e mobilização acerca dessa problemática. O filme apresenta o outro, forja encontros entre indivíduos desconhecidos que são interligados por um elemento comum, no caso a música, ilustrando a própria realidade e dificuldades vivenciadas diariamente”, explica na dissertação.

A autora salienta que as experiências apresentadas no conjunto de filmes permitiram a exploração da potencialidade dos documentários como “elementos norteadores que explicitam as problemáticas sociais e digitais e suas relações com a música, cujo enfoque se torna compreendido ao ser apresentado como prática da vida cotidiana, bem como as implicações, dificuldades e desafios relacionados”.

A inclusão social, ou digital no mercado da música, normalmente aparece nos filmes como fruto do trabalho dos próprios artistas, de acordo com o estudo. O depoimento de personagens como em Fala Tu, por exemplo, representa “a voz de narrativas do dia a dia de sujeitos estigmatizados por viver em favelas e comunidades carentes e permite ver o outro para além de tipos predefinidos”. Quem sabe, afirma Pamela, “na singularidade desse sujeito que desbota o quadro de tons cinza, seja possível reconhecer a pluralidade dos modos de agir e ser no mundo social”.

Pamela considera importante ressaltar que os documentários, em alguns casos, provocaram mudanças nas vidas dos personagens filmados. Os projetos sociais de Insurreição rítmica ganharam visibilidade. Da mesma forma, a autora acredita que os filmes podem ser usados para estimular pessoas. “Quando mostrei um dos filmes na ONG onde trabalho, eles viram no cinema relatos de mesmos problemas que eles vivenciam e isso causa um efeito de identificação com o outro. Serve de exemplo, é como um recado de que as pessoas são capazes de mudar, causa uma conscientização”.

Publicação

Dissertação: “Representação de inclusão social e digital por meio da música em documentários brasileiros”
Autora: Pamela de Bortoli Machado
Orientador: Fábio Nauras Akhras
Unidade: Instituto de Artes (IA)

Texto: Patrícia Lauretti
Fotos: Antôninho Perri
Edição de Imagens: Fábio Reis
Jornal Da Unicamp

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