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A partir da análise do discurso, autora do estudo vê “efeito de intimidade” entre protagonistas e a metrópole

Os discursos sobre mulheres e a cidade de São Paulo em três séries televisivas brasileiras foram analisados pela linguista Valquíria Botega de Lima como parte de sua tese de doutorado defendida recentemente junto ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Um dos apontamentos relevantes do trabalho está centrado na relação temática entre a cidade de São Paulo e as mulheres: a metrópole não apareceu como pano de fundo, apenas como um cenário para a trama.

“A cidade de São Paulo apresentou-se nas três séries como constitutiva da história e dos sentidos dessas mulheres. Não há como pensar, nessas séries, a São Paulo sem as protagonistas e as protagonistas, as mulheres, sem a São Paulo”, indica Valquíria de Lima. O estudo foi orientado pela professora Mônica Graciela Zoppi Fontana e contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Baseada no referencial teórico da Análise do Discurso (AD) de orientação francesa, a pesquisadora analisou os discursos das séries Aline, exibida pela Rede Globo nos anos de 2009 e 2011; de Antônia, apresentada pela Rede Globo entre os anos de 2006 e 2007; e de Alice, exibida pelo canal de TV por assinatura HBO-Brasil nos anos de 2008 e 2010.

Valquiria de Lima ressalta que, no caso das séries, não foi produzida uma mediação pura e simplesmente, mas produção de sentidos, a partir de uma interpretação sobre as mulheres e a cidade. Neste ponto, ela considera que há diferentes modos de observar essa relação interpretada pela televisão. Em Aline, por exemplo, a protagonista é significada no vínculo com São Paulo por meio de um discurso romantizado.

“Ela observa a cidade pelas cores, fala que São Paulo não é cinza, mas uma cidade colorida. Diz que, dos maiores riscos que se corre na cidade de São Paulo, é o de se apaixonar perdidamente. Por focar esse lado mais romantizado, ficam apagados outros discursos sobre SP: o telespectador não vê uma cidade de trânsito caótico, cidade da violência... Esse sentidos não são mostrados na série”, analisa.

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Na sequência, cenas das séries “Alice”, “Antônia” e “Aline”: produção de sentidos

Já em Alice há um choque cultural entre a protagonista migrante e a metrópole. “Diferentemente de Aline, há um embate. Nas palavras da protagonista, ela se sente como uma formiguinha diante da grandiosidade da cidade vertical. Trata-se de uma São Paulo que acaba até sufocando essa mulher que chega de Palmas (TO). Ela diz que a cidade vai devorá-la.”

Em Antônia, as mulheres não vão ser significadas por um romantismo ou embate, mas a partir do discurso que propõe a divisão centro-periferia. “São quatro protagonistas e no movimento entre o lá e o cá desses espaços a periferia se mostra constitutiva das mulheres. As protagonistas vão dizer que ‘são da rua com muito orgulho’, que o bairro Brasilândia é a ‘minha verdade’”.

Valquiria de Lima
Valquíria de Lima, autora da tese: “A mulher se inscreve na cidade por meio de discursos românticos, do embate cultural e da divisão centro e periferia”

Intimismo e enlaçamento
A partir da análise dos discursos sobre as três séries, Valquiria de Lima observa que há um efeito de intimidade entre as mulheres e a São Paulo. “Quem fala sobre a cidade não é uma terceira pessoa, um narrador impessoal: são as mulheres protagonistas que contam a própria relação delas com São Paulo.” A autora da pesquisa considera ainda que há um duplo processo de inscrição, da cidade na mulher e da mulher na cidade.

“A mulher se inscreve na cidade por meio de discursos românticos, do embate cultural e da divisão centro e periferia. E a cidade se inscreve na mulher. A partir disso, eu chego a pensar nessa relação de enlaçamento, no sentido de a mulher fazer parte da cidade, da mulher ser constitutiva da cidade e de São Paulo ser constitutiva da mulher. Uma e outra estão em relação de enlaçamento. São significadas juntas.”

Texto: Silvio Anunciação
Fotos: Reprodução/Divulgação
Edição de imagem: Luis Paulo Silva
Jornal Da Unicamp

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