pesquisas científicas

Em sua 4ª edição, o Ciclo Carlos Chagas de Palestras (CCCP), promovido pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), chamou atenção para diferentes aspectos envolvidos no enfrentamento da doença de Chagas. Tendo como tema principal as interações entre parasitos e hospedeiros, o evento contou com apresentações científicas que abordaram desde as variedades genéticas do Trypanosoma cruzi, microorganismo causador da doença, até o desenvolvimento de vacinas. A importância da mobilização e da parceria entre portadores e pesquisadores também foi ressaltada com o lançamento da Associação Rio Chagas, que reúne portadores e afetados pela infecção. Realizado nos dias 14 e 15 de abril, no campus da Fiocruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, o encontro reuniu alunos, especialistas, pacientes e seus familiares. A programação do dia 15 foi integrada ao Centro de Estudos do IOC/Fiocruz, tradicional atividade acadêmica do Instituto.

A relevância das pesquisas relacionadas à doença de Chagas, que atinge entre dois e três milhões de pessoas no Brasil, foi destacada na abertura do evento. “Mais do que a cura da infecção, nosso alvo está na melhoria da qualidade de vida dos pacientes, lutando para o reconhecimento dos portadores como cidadãos e por investimento em pesquisa, em medicamentos e terapias que aliviem o sofrimento dessas pessoas”, afirmou Joseli Lannes, chefe do Laboratório de Biologia das Interações e coordenadora do evento. “Falar sobre a doença de Chagas é fundamental porque essa é uma enfermidade invisível. Ela é negligenciada, pois acomete principalmente regiões rurais com condições de vida precárias. Pacientes que adquiriram a doença há muitos anos têm direito ao tratamento, mas não sabem que são portadores do agravo”, reforçou Luciana Garzoni, pesquisadora do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos e também coordenadora do evento.

“O debate a partir de pesquisas de excelência é um passo importante para, futuramente, transformar o conhecimento em melhorias para pacientes que, ainda hoje, sofrem com a doença de Chagas”, destacou Hugo Caire, vice-diretor de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do IOC/Fiocruz. A mesa de abertura contou ainda com Wim Degrave, coordenador do Programa de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico em Insumos em Saúde (PDTIS), que representou a Presidência da Fiocruz. “Acompanhar as descobertas científicas é um desafio, por isso é importante ter espaços de ampla discussão que estimulam novas gerações de pesquisadores que, ao mesmo tempo em que se inspiram na experiência dos mais velhos, renovam a pesquisa com criatividade”, ressaltou.

Diversidade genética: porta para novas descobertas

A doença de Chagas se desenvolve de forma distinta em cada indivíduo – enquanto a maioria dos infectados não possui sintomas, uma parcela de pacientes pode apresentar cardiopatias severas, lesões digestivas e até mesmo distúrbios neurológicos. Uma das hipóteses levantadas para o desenvolvimento destas diferentes manifestações clínicas está na diversidade genética do T. cruzi, tema discutido por Bianca Zingales, professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, devido à grande variedade genética, os parasitos são divididos em seis grupos chamados de DTUs I-VI (‘Discrete Typing Units’). Cada conjunto possui características genéticas semelhantes e pode ser identificado por marcadores moleculares ou imunológicos comuns.

Segundo a especialista, a pesquisa das diferenças e semelhanças genéticas entre os grupos de T. cruzi abre um leque de opções de estudos que envolve desde a compreensão acerca das diferentes manifestações clínicas da doença, aos tipos de cepa que circulam nas diferentes regiões do mundo, passando pela prevalência de cada grupo em espécies de vetores e humanos. Para Bianca, há indícios de que a manifestação clínica seja consequência de um balanço entre a característica da cepa infectante, a resposta imune do hospedeiro e fatores ambientais. A professora salientou, ainda, as implicações da distribuição geográfica das DTUs para a precisão do diagnóstico sorológico. “A confirmação da circulação de diferentes cepas do parasito em diferentes regiões do mundo evidencia a necessidade de desenvolvimento de kits sorológicos específicos para a identificação dos anticorpos contra a cepa que circula numa região. Um teste feito com uma cepa da América do Sul pode ter baixa sensibilidade quando utilizado na América Central, por exemplo”, explicou Bianca.

Em busca da vacina

Uma das formas de prevenir ou combater uma doença é por meio da imunização. Este foi o tema central da edição especial do Centro de Estudos do IOC, que contou com a participação do pesquisador Ricardo Gazzinelli, do Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O pesquisador apresentou dois tipos possíveis de vacinas contra a doença de Chagas que estão em desenvolvimento: a profilática e a terapêutica. Assim como outras já existentes, a primeira atuaria de forma preventiva, protegendo o organismo contra uma possível infecção. Já a segunda poderia reverter um sério problema que acomete os pacientes: a inflamação cardíaca.

De acordo com Gazzinelli, testes com a vacina profilática com a utilização de uma cepa atenuada do T. cruzi atingiram índices satisfatórios em camundongos. “Trata-se de uma cepa capaz de induzir uma imunidade extremamente eficiente e de longa duração contra infecções de linhagens virulentas do T. cruzi, o que faz com que seja potencialmente um candidato vacinal bem eficaz”, explicou o pesquisador, salientando que as próximas etapas envolvem testes em humanos e ainda devem passar por critérios de aprovação de segurança. Gazzinelli explicou, ainda, que a segunda vacina, do tipo terapêutico, visa estimular o sistema imunológico, funcionando através de um mecanismo de ativação de linfócitos T do tipo CD8 contra antígenos do parasito. A resposta imune gerada tende, então, a diminuir os danos cardíacos.

Forma emergente

Antes considerada uma via rara de disseminação da doença de Chagas, a transmissão oral responde pela maior parte dos casos agudos registrados no Brasil nos últimos anos. Autoras de estudos sobre o tema, as pesquisadoras Nobuko Yoshida, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Juliana de Meis, do Laboratório de Pesquisas sobre o Timo do IOC/Fiocruz, destacaram que esse tipo de infecção não é novidade, embora só recentemente tenha ganhado destaque. “Com a redução dos casos de infecção por via vetorial, vimos a emergência da forma oral da doença. No entanto, o primeiro surto relatado na literatura científica ocorreu em 1965 no Rio Grande do Sul”, lembrou Nobuko. “Esse não é um evento raro. De 2006 a 2015, foram confirmados 1.430 casos só no estado do Pará”, comentou Juliana. As pesquisadoras acrescentaram que a transmissão oral ocorre geralmente quando barbeiros infectados (como são conhecidos os vetores do agravo) são moídos juntamente com açaí e caldo de cana, por exemplo. O contágio também pode ocorrer pelo consumo da carne de animais infectados, que são alvo de caça em algumas regiões.

Autora de pesquisas pioneiras sobre mecanismos envolvidos na transmissão oral da doença de Chagas, Nobuko apresentou estudos que apontam por que diferentes cepas do parasito T. cruzi podem ter potencial variado para provocar infecção por essa via. Segundo a especialista, para invadir o organismo através do aparelho digestivo, os parasitos precisam vencer barreiras que não existem quando eles penetram diretamente na corrente sanguínea, como ocorre na infecção por via vetorial. Em pesquisas, a cientista observou que a proteína conhecida como GP82 é fundamental para que o T. cruzi consiga atravessar o muco que reveste o estômago e invadir as células epiteliais do órgão. Em contrapartida, outra proteína – chamada de GP90 – pode prejudicar a capacidade do parasito de superar as defesas do organismo. Segundo Nobuko, testes em laboratório mostraram que algumas cepas do parasito perdem a molécula GP90 quando entram em contato com o suco gástrico, tornando-se mais agressivas. “Considerando os achados das pesquisas com modelos animais, é possível que surtos de doença de Chagas oral com alta mortalidade sejam causados por parasitos que se tornaram mais infectivos após entrar em contato com o suco gástrico”, ponderou ela.

O possível impacto da via de entrada dos parasitos no organismo para a evolução da doença também foi discutido por Juliana. A pesquisadora contou que, em pacientes, a infecção oral provoca mais sintomas e tem maior mortalidade na fase aguda do que os casos adquiridos pela via vetorial. Em laboratório, pesquisas realizadas com camundongos (que são usados como modelo para estudo da doença de Chagas), mostraram que a ingestão do T. cruzi a partir da boca pode causar quadros ainda mais graves do que a inoculação diretamente no estômago, com maiores taxas de infecção e mortalidade. “Nossa hipótese, a partir da investigação em modelo animal, é que tecidos da cavidade oral podem modular a resposta imune nesses casos. Porém, isso ainda precisa ser investigado”, afirmou Juliana.

Diversidade de investigações

Entre mais de cem resumos recebidos, dez trabalhos de estudantes de pós-graduação e pós-doutorandos foram selecionados para apresentações orais, sendo três destacados na edição especial do Centro de Estudos. A seleção foi realizada por uma banca de 18 pesquisadores do IOC e das Universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Federal Fluminense (UFF) e do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A aplicação de métodos moleculares de diagnóstico para investigar a infecção por T. cruzi nos barbeiros foi o tema discutido por Paula Finamore, aluna do curso de mestrado do Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular, que desenvolve seu projeto no Laboratório de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas. Segundo ela, o teste de PCR, que detecta o material genético dos parasitos, é mais sensível do que o método clássico de diagnóstico nos vetores, baseado na microscopia. “Conseguimos padronizar uma técnica de PCR em tempo real para determinar a carga parasitária total nos barbeiros e um método de RT-PCR em tempo real para quantificar apenas os parasitos viáveis. O próximo objetivo é quantificar diferencialmente as formas epimastigota e tripomastigota, já que esta última é a forma infectiva para os vertebrados”, ressaltou a estudante.

Um aspecto diferente da infecção nos barbeiros esteve no foco da apresentação de Cecília Stahl Vieira, pós-doutoranda do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos. Ela investigou por que as diferentes linhagens de T. cruzi se multiplicam de forma distinta no intestino dos insetos. O trabalho concluiu que, em alguns casos, a reação imunológica dos barbeiros acaba destruindo outros micro-organismos presentes na microbiota intestinal dos vetores, incluindo bactérias que poderiam atacar o T. cruzi. “Observamos que as cepas de diferentes genótipos podem modular diferentemente a imunidade e a microbiota dos insetos, o que pode favorecer os parasitos”, disse a parasitologista.

Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Biologia Parasitária, Francisca Hildemagna Guedes da Silva apresentou resultados sobre uma classe de moléculas com potencial para o desenvolvimento de novas terapias contra a doença de Chagas. “Os medicamentos benzonidazol e o nifurtimox, que são as opções atuais, têm alta toxicidade e baixa eficácia na fase crônica do agravo. Precisamos de novas substâncias que sejam mais seletivas e eficazes”, comentou a estudante. Analisando 14 moléculas do grupo das arylimidamides, a pesquisa identificou duas substâncias com eficácia e seletividade contra o T. cruzi. Com menor toxicidade, a molécula m-Terphenyl bis-Arylimidamide apresentou bom desempenho in vivo, especialmente quando utilizada de forma combinada com o benzonidazol.

Lucas Rocha e Maíra Menezes
IOC/Fiocruz

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