Sofia Elisa Moraga Galdames

Uma pesquisa da Unicamp conduzida pela química Sofia Elisa Moraga Galdames estabeleceu parâmetros para auxiliar os médicos na obtenção e aplicação de um grande aliado da medicina regenerativa: o Plasma Rico em Plaquetas (PRP), produto preparado a partir do sangue do próprio paciente e usado com sucesso em terapias para a regeneração de tecidos e órgãos lesados.

O estudo avaliou a influência de anticoagulantes na produção e nas propriedades do PRP, estabelecendo o anticoagulante mais adequado para a obtenção de um Plasma Rico em Plaquetas de melhor qualidade. Os anticoagulantes são fundamentais para a obtenção do PRP, evitando o bloqueio de reações de coagulação e mantendo o sangue fluído.

O trabalho avaliou o PRP utilizando células-tronco mesenquimais derivadas de tecido adiposo humano. Conforme a pesquisadora Sofia Galdames, um estudo clínico em pacientes do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, em andamento, vem apresentando perspectivas bastante promissoras.

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De acordo com ela, os principais resultados da pesquisa demonstraram que um tipo de anticoagulante à base de ácido cítrico, citrato de sódio e dextrose (ACD-A) está entre os melhores avaliados para estimular o crescimento das células, podendo, deste modo, acelerar ainda mais a regeneração do tecido danificado.

Além disso, o trabalho estabeleceu protocolos para a preparação do PRP com anticoagulantes, se utilizando de um modelo matemático que avaliou as propriedades do sangue na eficiência de recuperação do Plasma Rico em Plaquetas. Foram estudados os efeitos dos anticoagulantes ácido tetra-acético etilenodiamina (EDTA), heparina de sódio (HP), citrato de sódio (CIT) e ácido cítrico, citrato de sódio e dextrose (ACD-A).

“A padronização do PRP ainda é um desafio porque os estudos que englobam ciência básica são escassos. A seleção de anticoagulantes para a obtenção do PRP não tem recebido a devida atenção, tanto na aplicação clínica como na pesquisa básica. São poucos os estudos relatando a influência dos diferentes anticoagulantes no processo de obtenção do PRP. Deste modo, o trabalho é relevante, sobretudo porque deverá contribuir para melhorar a saúde e condição de tratamento do paciente”, considera a autora do estudo.

A pesquisa de Sofia Galdames integrou dissertação de mestrado defendida em novembro de 2015 junto ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp. O estudo foi orientado pela professora Maria Helena Andrade Santana, que atua no Departamento de Engenharia de Materiais e Bioprocessos (DEMbio) e coordena o Laboratório de Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos (LADPB) da Unidade.

Houve a colaboração do Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário do Hemocentro (Centro de Hematologia e Hemoterapia) e do Laboratório de Biomateriais Ortopédicos (Labimo), ambos vinculados à Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Além da docente Ângela Cristina Malheiros Luzo, que coordena o Banco de Sangue do Hemocentro, e do professor William Dias Belangero, do Labimo, a pesquisa envolveu a parceria do ortopedista e pesquisador da Unicamp, José Fábio Lana. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) financiou o projeto, concedendo bolsa de estudo à pesquisadora.

Conforme a autora do trabalho, o Plasma Rico em Plaquetas vem sendo considerado altamente eficaz na medicina regenerativa. Sofia Galdames relata estudos que mostram o sucesso do uso do PRP na regeneração de diversos tecidos, como tendões, cartilagem, tecidos ósseos, úlceras de pele em diabéticos, além de ajudar na recuperação de joelhos com osteoartrite e lesões musculares.

“Isso se explica pelo fato da capacidade do Plasma Rico em Plaquetas em fornecer grandes quantidades de fatores de crescimento e acelerar o processo de regeneração, além de evitar qualquer tipo de rejeição na região aplicada, por ser um produto autólogo, ou seja, extraído do próprio indivíduo.”

A estudiosa da Unicamp explica que a reparação de tecidos ocorre em etapas no organismo humano: primeiro acontece a remoção das células mortas do local da lesão; em seguida a proliferação e migração de células para o local onde o tecido está danificado; e, por fim, a formação de novas estruturas vasculares. Ela acrescenta que os fatores de crescimento, substâncias responsáveis pela comunicação entre as células, desempenham papel importante, coordenando todo este processo.

“O PRP contém uma concentração de três a cinco vezes maior de fator de crescimento que o nível considerado ‘normal’, sendo que aproximadamente 70% dos fatores de crescimento armazenados são liberados dentro de 10 minutos, e quase 100% são liberados dentro de uma hora. No entanto, pequenas quantidades podem continuar sendo produzidas pelas plaquetas de 8 a 10 dias. Isso é o que relata a literatura sobre o tema, mas dependerá do tipo de ativação do PRP”, revela.

Qualidade do PRP

Sofia Galdames reconhece que existem inúmeros desafios para a obtenção de um PRP de alta qualidade. Ela esclarece que isto está diretamente relacionado ao número de plaquetas e à sua integridade. “Quanto maior o número de plaquetas íntegras, maior será a quantidade de fatores de crescimento liberados durante a aplicação do PRP. E isso depende, principalmente, do processo de centrifugação e da escolha do anticoagulante.”

A química graduada pela Unicamp explica que o processo de centrifugação é utilizado para acelerar a separação de uma amostra de sangue venoso anticoagulado. Durante este processo, fragmentos celulares, como as plaquetas, ficam dispersos no plasma enquanto as células vermelhas do sangue sedimentam rapidamente sob a ação da força centrífuga.

PRP de 3ª geração

O Plasma Rico em Plaquetas vem sendo utilizado desde a década de 1960, conforme o estudo da Unicamp. No início era utilizado apenas como alternativa à transfusão do sangue total. Composto por um concentrado de plaquetas, leucócitos e proteínas, dispersos em uma pequena fração de plasma, o PRP já está naquilo que Sofia Galdames considera ser a sua terceira geração.

“Na última década o uso do PRP tem representado uma opção importante para cirurgias de menor extensão, como o tratamento de ossos e cartilagens com dificuldade de cicatrização. E mais recentemente, o Plasma Rico em Plaquetas tem sido utilizado juntamente com biomateriais, como, por exemplo, o ácido hialurônico, uma substância naturalmente presente no organismo humano. Este biomaterial serve como uma espécie de estrutura em implantes para a regeneração óssea e de tecidos moles. Uma das sugestões da minha pesquisa para trabalhos futuros é avaliar as interações do PRP de 3ª geração, ou seja, associado a biomateriais em células mesenquimais adultas.”

Publicação

Dissertação: “Estudo da influência de anticoagulantes na produção e propriedades do Plasma Rico Em Plaquetas”
Autora: Sofia Elisa Moraga Galdames
Orientadora: Maria Helena Andrade Santana
Unidade: Faculdade de Engenharia Química (FEQ)
Financiamento: Capes

Texto: Silvio Anunciação
Fotos: Antonio Scarpinetti
Edição de Imagens: André Vieira
Jornal Da Unicamp

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