Ciência

Peter Ratcliffe e Joanna Darck Carola Correia Lima

O pesquisador da Universidade de Oxford Peter Ratcliffe, anunciado nesta segunda-feira (07/10) como um dos ganhadores Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2019, tem em sua equipe uma estudante brasileira.

A piauiense Joanna Darck Carola Correia Lima, graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), realiza atualmente estágio no laboratório de Ratcliffe, no Reino Unido, como parte do seu doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), com apoio de bolsa FAPESP.

Lima tenta descobrir como baixas taxas de oxigênio nas células (hipóxia) de tumores colorretais podem levar os pacientes a desenvolver caquexia, síndrome que consiste em uma perda severa de gordura e de massa muscular associada a uma extrema debilitação física, que pode aumentar o risco de complicações e de morte em diversos tipos câncer.

“Ela é uma aluna muito dedicada. Não por acaso é considerada pelo professor Ratcliffe a melhor que teve nos últimos anos”, disse Marilia Cerqueira Leite Seelaender, orientadora de Lima no ICB-USP.

“Durante os primeiros anos do doutorado, verificamos que a hipóxia era um dos fatores que poderiam levar pacientes com câncer a desenvolver caquexia. A fim de compreender melhor o fenômeno, procuramos saber quem seria o especialista mais adequado e chegamos ao professor Ratcliffe”, disse Lima, que estudou em escolas públicas no ensino básico, antes de ingressar na UFPI.

O gene principal que regula o processo de hipóxia é o HIF (Fator indutor de hipóxia), descoberto pelo grupo de Seelaender, professora do ICB-USP, nos tumores de pessoas com caquexia. Por conta dessa descoberta, elas entraram em contato com o britânico, que aceitou receber Lima para um estágio de um ano, iniciado em dezembro de 2018 com apoio de Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) da FAPESP.

“Vimos que a proteína HIF pode atuar em inúmeros processos, como fibrose, aumento da proliferação [das células tumorais] e desenvolvimento de inflamação sistêmica. O que temos observado é que talvez a HIF seja a moderadora principal nesses casos”, disse Lima, que publicou em julho um artigo com parte das descobertas do seu projeto de doutorado.

O estágio da brasileira será concluído em dezembro, mas ela acredita que este seja apenas o começo de uma longa colaboração com o vencedor do Nobel.

“É o ano mais incrível da minha vida. Nunca imaginei ter a oportunidade de estar na melhor universidade do mundo. O laboratório é espetacular, o professor Ratcliffe é uma mente incansável de ideias e extremamente disponível para os alunos do mundo todo. É uma oportunidade sem igual”, disse.

Nos últimos meses, Lima participou de um estudo chefiado por Ratcliffe em que foi usado um antagonista da proteína HIF. Nos resultados, submetidos recentemente a uma revista científica, observou-se principalmente que a inibição farmacológica do gene HIF contribui diretamente para a inibição do crescimento do tumor, entre outros achados.

O resultado pode ser o início do desenvolvimento de um novo tratamento, trabalho que deverá contar com a participação das brasileiras.

Prêmio

Sir Peter Ratcliffe é diretor de pesquisa clínica no Francis Crick Institute, em Londres, e do Target Discovery Institute, em Oxford, além de membro do Ludwig Institute for Cancer Research. Ficou conhecido por ter descoberto como as células podem sentir e se adaptar a mudanças na disponibilidade de oxigênio. Junto com os norte-americanos William G. Kaelin Jr., da Harvard Medical School, e Gregg L. Semenza, do Johns Hopkins Institute for Cell Engineering, que dividem o prêmio com ele, identificou a maquinaria molecular que regula a atividade dos genes em resposta a níveis variáveis de oxigênio.

A descoberta estabeleceu as bases para a compreensão de como os níveis de oxigênio afetam o metabolismo celular e a função fisiológica. As descobertas abriram caminho para estratégias promissoras não só contra o câncer, como contra anemia e outras doenças.

André Julião
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

raios

Um tipo de raio “invertido”, que em vez de descer das nuvens e tocar o solo, como ocorre com a maioria das descargas elétricas, parte de uma estrutura alta na superfície e se propaga em direção às nuvens, começou a ser observado no Brasil nos últimos anos.

Responsáveis pelos primeiros registros do fenômeno no país, pesquisadores do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) conseguiram desvendar, agora, os mecanismos envolvidos na formação desses chamados raios ascendentes.

O estudo, resultado de um projeto apoiado pela FAPESP, teve resultados publicados na revista Scientific Reports.

A investigação foi conduzida durante o doutorado de Carina Schumann, no Inpe, com bolsa da FAPESP.

“Constatamos que os raios ascendentes são iniciados a partir da ponta de uma torre ou para-raios de um edifício alto, por exemplo, na sequência de um raio descendente [para baixo] e a uma distância de até 60 quilômetros”, disse Marcelo Magalhães Fares Saba, pesquisador do Inpe e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

Para chegar a essas conclusões, o grupo observou e registrou 110 raios ascendentes ocorridos durante tempestades de verão no Pico do Jaraguá, em São Paulo, e em Dakota do Sul, nos Estados Unidos, entre 2011 e 2016.

Para isso, usaram uma combinação de câmeras fotográficas digitais e de vídeo de alta velocidade – capazes de registrar de 10 a 40 mil imagens por segundo –, além de medidores de campo elétrico e de luminosidade e uma câmera de ultra-alta velocidade, que registra até 100 mil imagens por segundo.

As câmeras com essas velocidades de aquisição de imagens são necessárias para esse tipo de estudo porque o tempo que leva para ocorrer um raio “para baixo” e outro “para cima” é muito pequeno, da ordem de centenas de milissegundos. Sem câmeras com essas velocidades é impossível distingui-los, explicou Saba.

“Não seria possível fazer essa série de observações de raios ascendentes, em um número suficiente para entender como começam, sem o auxílio dessas câmeras de alta e ultra-alta velocidades”, disse.

Os resultados das análises, juntamente com dados de sistema de medição de campo elétrico, indicaram que são os raios descendentes positivos – que deixam um saldo de carga negativa na nuvem – que frequentemente iniciam raios ascendentes.

Esses raios descendentes positivos costumam ocorrer no final da tempestade. Logo após o contato da descarga com o solo, eles costumam apresentar uma corrente de longa duração e baixa intensidade.

Essa corrente produz uma perturbação forte e rápida na sua distribuição de cargas na nuvem de tempestade. É essa perturbação que normalmente gera condições para a iniciação do raio ascendente, observaram os pesquisadores.

“Os raios positivos descendentes produzem, dentro da nuvem, descargas negativas com extensão horizontal de muitos quilômetros. Essas descargas negativas podem passar por cima de torres altas e induzirem cargas positivas em suas pontas. Se a intensidade de carga elétrica induzida for suficiente podem surgir, das pontas das torres, descargas ascendentes que formam os raios ‘para cima’”, disse Saba.

O Pico do Jaraguá é o segundo lugar com maior número de registros de raios ascendentes no mundo, atrás apenas de uma localidade nos Alpes Suíços.

Ponto culminante da cidade de São Paulo, a 1.135 metros acima do nível do mar, o Jaraguá registra, em média, entre 30 e 40 raios ascendentes por ano, em maior parte no verão, mas também no inverno, quando há frentes frias, afirmou Saba.

“Já registramos a ocorrência de raios ascendentes no Pico do Jaraguá no inverno. Mas são mais frequentes na transição da primavera para o verão e do verão para o outono”, disse.

Danos às estruturas

De acordo com os pesquisadores, raios descendentes são muito mais comuns do que os ascendentes e ambos têm a mesma intensidade. Os raios ascendentes, porém, costumam ter duração 40% maior e, felizmente, não apresentam risco de atingir humanos, pois são originados na ponta das torres.

Mas, enquanto o impacto de um raio descendente é mais distribuído, uma vez que em metade dos casos uma mesma descarga toca pontos diferentes no solo, o de um raio ascendente é mais localizado, na ponta das estruturas altas, que podem sofrer danos.

“Temos observado que estruturas com mais de 70 metros são sujeitas a gerar raios ascendentes”, disse Saba.

Com a tendência de construção de torres e prédios cada vez mais altos em cidades como São Paulo, a ocorrência desse tipo de raio tende a aumentar, ponderou o pesquisador.

“Os raios ascendentes não existiriam sem a presença de estruturas altas”, disse.

Os pesquisadores estão avaliando, agora, como um para-raios responde a um raio descendente, uma vez que, assim que esse tipo de raio se aproxima, a estrutura lança para o alto uma descarga para conectá-la a ele.

“Isso pode ser importante para definir a área de proteção de um para-raio, por exemplo”, disse Saba.

O artigo On the triggering mechanisms of upward lightning (DOI: 10.1038/s41598-019-46122-x), de Carina Schumann, Marcelo M. F. Saba, Tom A. Warner, Marco A. S. Ferro, John H. Helsdon Jr., Ron Thomas e Richard E. Orville, pode ser lido na revista Scientific Reports em www.nature.com/articles/s41598-019-46122-x.

Elton Alisson
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

enzima luciferase

A larva do besouro Phrixothrix hirtus – popularmente conhecida como larva-trenzinho – é um dos poucos organismos conhecidos capazes de produzir luz na cor vermelha, além de luz verde-amarelada, mais comum entre espécies bioluminescentes. Em artigo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores brasileiros e japoneses descreveram como esse fenômeno ocorre.

A investigação foi conduzida com apoio da FAPESP e envolveu equipes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (LNBio-CNPEM), em Campinas, e da University of Electro-Communications, no Japão.

“As espécies bioluminescentes sintetizam uma enzima conhecida como luciferase, que catalisa a oxidação de pigmentos do tipo luciferina, produzindo oxiluciferina e luz. Nosso estudo revelou que a luciferase da larva-trenzinho apresenta uma alteração em seu sítio ativo, região da enzima em que ocorre a reação química, e isso faz com que a luz vermelha, de menor energia, seja emitida”, contou à Agência FAPESP Vadim Viviani, professor da UFSCar em Sorocaba e coordenador da pesquisa.

Lanterna vermelha

O grupo liderado por Viviani já havia descrito em um trabalho anterior que mudanças no pH do meio ou a presença de metais pesados como o zinco podem fazer com que as luciferases de vagalumes, parentes próximos da larva-trenzinho, produzam luz vermelha em vez de verde (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/2018/12/04/verde-amarelo-ou-vermelho).

Agora, como parte do doutorado de Vanessa Rezende Bevilaqua, o grupo demonstrou como esse fenômeno ocorre naturalmente na larva-trenzinho. O trabalho integra o Projeto Temático “Bioluminescência de Artrópodes”, financiado pela FAPESP.

Como explicou Viviani, o P. hirtus apresenta, durante a fase larval, diversas lanternas verdes no dorso e uma vermelha na cabeça, que serve para iluminar seu caminho no escuro. As luzes nas costas, segundo o pesquisador, têm a função de assustar predadores. Quando se tornam adultos, os machos perdem a lanterna vermelha e ficam apenas com duas verde-amareladas. Já as fêmeas adultas mantêm as duas cores.

Para descobrir as interações que resultam nesse tipo mais raro de bioluminescência, os pesquisadores brasileiros realizaram ao longo das últimas décadas a clonagem de várias luciferases e fizeram modificações em alguns de seus aminoácidos por meio de ferramentas de engenharia genética. Já o grupo japonês liderado por Takashi Hirano, da University of Electro-Communications, sintetizou uma série de luciferinas modificadas, que foram testadas por Bevilaqua em experimentos com as luciferases mutantes.

Resultados dos testes in vitro mostraram que as luciferinas que apresentavam uma estrutura molecular maior foram as que melhor interagiram com a luciferase da larva-trenzinho, produzindo luz vermelha com mais eficiência. No entanto, elas não interagiram bem com as luciferases que produziam luz verde ou amarela.

“Os análogos de luciferina que têm estrutura grande não encaixam bem nas luciferases que catalisam luz verde e amarela, que têm cavidade pequena no sítio ativo [local onde o substrato se encaixa]. Por outro lado, esses análogos grandes interagem bem com a luciferase que catalisa a emissão de luz vermelha. Isso nos indicou que a luciferase da larva-trenzinho tem uma cavidade grande em uma parte do sítio ativo, maior que a observada na enzima de outras espécies bioluminescentes”, disse Viviani.

“Nesse ambiente mais frouxo e com mais moléculas de água, a repulsão eletrostática entre a molécula produto da reação química [oxiluciferina] e a parede do sítio ativo da enzima [luciferase] torna-se menor. Consequentemente, uma luz de menor energia é liberada”, explicou Viviani.

Como as luciferases que produzem luz verde-amarelada têm um espaço reduzido no sítio ativo, isso faz com que a luciferina fique mais comprimida. “Desse modo, a repulsão eletrostática entre a oxiluciferina energizada e as paredes do sítio ativo da luciferase aumenta, liberando luz com maior energia, nas cores verde ou amarela”, disse o pesquisador.

A partir desse resultado, os pesquisadores começaram a testar novas combinações de luciferinas com luciferases modificadas da larva-trenzinho, até chegarem a pares capazes de emitir uma luz vermelha ainda mais afastada (vermelho extremo) e intensa que a produzida naturalmente pelo inseto. Segundo Viviani, essas combinações mais eficientes poderão ser usadas em pesquisas biomédicas no futuro.

“Os análogos de luciferina sintetizados pelo grupo japonês não são os primeiros a serem criados, mas têm as vantagens de terem maior atividade luminescente e espectro da luz mais deslocado para o vermelho, quando combinados especificamente com a luciferase da larva-trenzinho”, disse.

A princípio, a ideia é que a descoberta possa ser usada para melhorar a visualização de processos bioquímicos e celulares em tecidos de mamíferos que não absorvem luz vermelha, como sangue e músculos.

“Quando usamos luciferases que emitem luz verde, amarela ou azul não conseguimos visualizar bem os processos bioquímicos e patológicos que ocorrem nesses tecidos, pois pigmentos como a hemoglobina e a mioglobina absorvem a maior parte da luz desta cromaticidade”, disse.

O artigo Phrixotrix luciferase and 6′-aminoluciferins reveal a larger luciferin phenolate binding site and provide novel far-red combinations for bioimaging purposes (doi: 10.1038/s41598-019-44534-3), de Vanessa R. Bevilaqua, T. Matsuhashi, G. Oliveira, P. S. L. Oliveira, T. Hirano e Vadim R. Viviani, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-019-44534-3.

André Julião
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

siloxano-poliéter

Um material polimérico e com características de hidrogel desenvolvido por pesquisadores brasileiros pode ajudar a responder a um dos desafios atuais da indústria farmacêutica: criar um sistema que permita a liberação controlada no organismo de moléculas com diferentes atividades farmacológicas contidas em uma única drágea.

Em um estudo apoiado pela FAPESP e divulgado na revista Applied Bio Materials, da American Chemical Society, cientistas das universidades de Franca (Unifran) e do Estado de Minas Gerais (UEMG) testaram o uso de uma classe de material conhecida como siloxano-poliéter – ou “ureasil” – para liberar no organismo de forma simultânea um anticancerígeno e um anti-inflamatório. Além de ações terapêuticas distintas, os fármacos usados na pesquisa também apresentam diferentes graus de afinidade por água.

“Conseguimos desenvolver um sistema para liberação simultânea de dois fármacos incorporados a uma mesma matriz polimérica [plástica]”, disse Eduardo Ferreira Molina, professor da Unifran e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

Flexível e transparente, a matriz polimérica é composta de segmentos em escala nanométrica (bilionésima parte do metro) de siloxano e de um poliéter (PEO). Com características de hidrogel (gel formado por uma rede rígida tridimensional de polímeros), o material é capaz de absorver volumes elevados de água em seus interstícios sem se dissolver e, por isso, é considerado ideal para liberação controlada de fármacos.

Por meio de um processo denominado sol-gel – no qual ocorre a transformação de um líquido com partículas em suspensão (“sol”) em um gel –, os pesquisadores conseguiram incorporar à matriz o anti-inflamatório naproxeno e o anticancerígeno 5-fluorouracil simultaneamente.

“A ideia foi incorporar dois agentes terapêuticos sem alterar as propriedades físico-químicas da matriz polimérica ou dos fármacos”, explicou Molina.

O anti-inflamatório naproxeno tem caráter hidrofóbico, ou seja, não absorve água. Já o 5-fluorouracil é hidrofílico e, portanto, tem maior afinidade com o líquido. A incorporação de ambos à matriz de poliéter foi possível devido aos grupos funcionais presentes no material.

“Isso possibilitou a ‘solubilização’ do naproxeno e do 5-fluorouracil”, explicou Molina.

Teste de liberação

A fim de testar e medir a liberação dos medicamentos foram feitos ensaios in vitro em que o material foi imerso em água com temperatura e nível de acidez (pH) similares aos encontrados no intestino humano.

A quantidade de medicamentos liberada na solução foi medida por espectroscopia no ultravioleta visível. Os resultados mostraram que o material foi capaz de liberar os medicamentos em quantidades iguais e manter a liberação ao longo do tempo.

“Esses resultados são inéditos. Até então, não havia nenhum relato na literatura científica da aplicação dessa classe de materiais para liberar de forma controlada dois agentes terapêuticos simultaneamente, na mesma quantidade, e manter isso ao longo do tempo”, disse Molina.

Efeito sinérgico contra o câncer

De acordo com o pesquisador, a ideia é que o material seja usado como drágea para encapsular e liberar controladamente uma série de agentes terapêuticos, entre eles quimioterápicos usados no combate ao câncer.

Uma das limitações dos quimioterápicos usados hoje é a quimiorresistência – a resistência de determinadas células cancerosas à ação do composto ativo. Sistemas de entrega de fármacos como esse descrito no artigo podem retardar o desenvolvimento da quimiorresistência, além de melhorar a eficácia terapêutica e diminuir os efeitos colaterais. Isso porque a combinação de diferentes agentes terapêuticos em um mesmo fármaco tende a promover um efeito sinérgico ou combinado, apontou Molina.

“Além de combater o câncer, um medicamento com esse sistema de liberação contendo um quimioterápico e outro agente terapêutico poderia diminuir os efeitos colaterais do tratamento”, disse.

O trabalho também recebeu financiamento da FAPESP por meio de uma bolsa de mestrado.

O artigo “Ureasil organic−inorganic hybrid as a potential carrier for combined delivery of anti-inflammatory and anticancer drugs” (DOI: 10.1021/acsabm.8b00798), de Beatriz B. Caravieri, Natana A. M. de Jesus, Lilian K. de Oliveira, Marina D. Araujo, Gabriele P. Andrade e Eduardo F. Molina, pode ser lido por assinantes da revista Applied Bio Materials em https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsabm.8b00798.

Elton Alisson
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

extremidade do dedo

Cientistas há muito procuram desvendar o mecanismo envolvido no processo de regeneração da ponta de um dígito amputada, acreditando que aí estaria a chave para a regeneração completa de membros lesionados, como ocorre com as salamandras.

Esses anfíbios, quando perdem uma pata ou a ponta do rabo, formam no lugar um blastema, conjunto de células indiferenciadas capazes de recriar todos os tecidos perdidos, originando um membro igual ao que existia no local. Nunca algo parecido foi observado em mamíferos.

Em um artigo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) contestam as expectativas otimistas. Em vez da chamada regeneração epimórfica, como a das salamandras, na qual até mesmo as articulações e a função do membro amputado são recuperadas, na ponta do dígito de mamíferos ocorre o crescimento de basicamente três tecidos que naturalmente realizam essa função quando danificados: unha, pele e osso.

Eles mostraram, portanto, que o processo observado nos dedos de mamíferos é muito mais simples do que se esperava e, por isso, não é modelo para a regeneração de membros.

O estudo foi apresentado na última segunda-feira (9/9), durante o 3rd Australia Brazil Chile Regenerative Medicine and Developmental Biology Symposium, que integra a programação da 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Campos do Jordão (SP).

O trabalho é assinado pela doutoranda Lucimara A. Sensiate e seu orientador, Henrique Marques Barbosa de Souza, ambos do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. O estudo teve Auxílio à Pesquisa da FAPESP na modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores.

“Vimos que a ponta do dedo é muito mais simples do que o dígito inteiro ou um braço, por exemplo. Ela não tem músculo, glândulas ou articulações, mas basicamente unha, pele e osso. Esses três tecidos têm uma capacidade natural de regeneração”, disse Souza.

O crescimento da ponta do dígito, portanto, não é uma regeneração no sentido estrito da palavra, mas uma sucessão de fenômenos bastante conhecidos. Assim como qualquer ferimento na pele, a lesão causada pela amputação cicatriza pela migração dos queratinócitos, células da pele que produzem queratina.

A unha parcialmente cortada retoma seu crescimento por ser dotada de uma grande quantidade de células-tronco que induzem esse fenômeno durante toda a vida do organismo. Entretanto, o crescimento mais importante neste processo é o crescimento do tecido ósseo, que ocorre naturalmente quando se sofre uma fratura, por exemplo. Esse crescimento se dá por meio das chamadas células osteoprogenitoras. Cientistas já haviam mostrado que a unha é fundamental para o crescimento ósseo após a amputação de dígitos de camundongos, induzindo o chamado crescimento distal no formato pontiagudo característico de falanges distais, a ponta do dedo.

Novo velho modelo

Para demonstrar o fenômeno, os pesquisadores fizeram experimentos com camundongos, o modelo animal mais usado para estudar a regeneração da ponta do dígito. Dois grupos de animais foram submetidos a dois tipos de amputação: distal e proximal.

A amputação distal elimina cerca de 25% da extremidade do dígito, mas resulta no crescimento da ponta, com morfologia semelhante a dígitos não amputados. Já na amputação proximal, o corte elimina em torno de 50% do dígito, mas a lesão se fecha sem que haja crescimento ósseo ou da unha.

Para incluir estruturas mais complexas em uma amputação distal, os pesquisadores realizaram ainda uma amputação distal em um ângulo oblíquo, retirando também uma estrutura denominada coxim, que, além da pele, possui glândulas, gordura e outros tecidos. Se os dígitos amputados distalmente possuíssem capacidade de regeneração epimórfica, o coxim do dedo também seria recuperado.

Passados 30 dias das amputações, os dígitos que haviam sofrido o corte distal (ângulo reto) tinham reconstituído a unha, a falange terminal e a pele, reproduzindo o formato original. No entanto, os dígitos que sofreram o corte distal oblíquo recuperaram todas estas estruturas, mas foram incapazes de regenerar o coxim.

“Isso mostra que estruturas que não possuem capacidade intrínseca de retomar crescimento não são induzidas a se regenerar após uma amputação”, disse o pesquisador.

Nas amputações proximais não houve nenhuma regeneração, apenas cicatrização. Os pesquisadores mostraram que nesse corte mais profundo é removida uma região conhecida como periósteo, rica em células produtoras de tecido ósseo. Trabalhos de outros grupos dão conta de que, na cabeça dos veados, o periósteo é essencial no renascimento da galhada dos animais, que cai de tempos em tempos. Isso mostra uma conexão entre essas células e o crescimento ósseo em mamíferos.

A células da região do periósteo são estimuladas por uma via de sinalização, mediada por proteínas da família Wnt, que induz células mesenquimais a se diferenciarem em células osteoprogenitoras e a secretarem matriz óssea. Trabalhos anteriores demonstraram que a presença dessa via de sinalização na base da unha é fundamental para o crescimento ósseo após amputações distais.

Em amputações proximais, tal sinalização não aconteceria e, por isso, o osso não cresce. Quando outros grupos de pesquisa forçaram a sinalização em amputações proximais, conseguiram reverter o fenótipo e o dígito apresentou o crescimento ósseo e, com isso, o formato similar ao dígito não amputado.

Outra evidência de que a regeneração da ponta do dígito é basicamente um crescimento ósseo é que, em estudos de outros grupos, foi aplicada em uma amputação proximal uma microesfera capaz de liberar BMP, proteína que induz crescimento ósseo usada para tratamentos dentários e de fraturas. Mesmo sem o periósteo, o osso cresceu em forma de ponta.

“Portanto, o que precisa acontecer após a amputação é basicamente a indução de crescimento ósseo. O resto [fechamento da lesão], nós observamos de forma muito similar em amputações distais e proximais”, disse o pesquisador.

“Por exemplo, a joanete é um calo ósseo que cresce na articulação, na base do dedão do pé, mas ninguém chama de dedo porque não tem articulação nem unha. O mesmo ocorre na ponta do dígito, que cresce novamente quando amputada. Não se trata de um dedo novo, mas de uma ponta óssea”, explicou Souza.

Com as novas conclusões, os pesquisadores esperam que a chamada “regeneração da ponta do dígito” passe a ser considerada apenas um modelo de crescimento ósseo. Com isso, o foco dos estudos de regeneração de membros em mamíferos pode seguir novos caminhos.

O artigo Bone growth as the main determinant of mouse digit tip regeneration after amputation (doi: 10.1038/s41598-019-45521-4), de Lucimara A. Sensiate e Henrique Marques Barbosa de Souza, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-019-45521-4.

André Julião, de Campos do Jordão
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

espécies

O Projeto BioGenoma da Terra (EBP, na sigla em inglês) estabeleceu, em seu primeiro ano de atuação, a fundação necessária para completar a primeira fase do projeto, cujo objetivo é sequenciar o DNA de todas as espécies eucarióticas da Terra.

A primeira fase da iniciativa envolve o sequenciamento, nos próximos três anos, de espécies que representem cada uma das cerca de 9,3 mil famílias de plantas, animais, protozoários, fungos e outros microrganismos Detalhes do projeto foram apresentados em um encontro realizado na Rockefeller University, em Nova York, no fim de agosto.

"Foi um ano de tremendo progresso para o EBP, com interesse ampliado e apoio da comunidade científica, de agências de financiamento, de entidades filantrópicas e do público em geral", disse Harris Lewin, professor da University of California, Davis e presidente do EBP.

Segundo Lewin, membros do EBP e projetos afiliados têm liderado o caminho no “desenvolvimento de padrões e na entrega de genomas de referência de alta qualidade”. Entre os projetos afiliados ao EBP estão o G10K Vertebrate Genomes Project (VGP) e o Tree of Life.

O EBP é um consórcio internacional que reúne pesquisadores, universidades, institutos de pesquisa, agência de fomento e outras organizações de diversos países. A FAPESP participa com os programas de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA) e de Pesquisa em eScience e Data Science.

“O EBP tem uma importância monumental para o nosso futuro. Estou extremamente animado em ver o projeto ganhar impulso e tenho grande expectativa com a riqueza de conhecimento científico que será produzida ao longo da próxima década”, disse Sir Mike Stratton, diretor do Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido, uma das instituições participantes do projeto.

Em seu primeiro ano de atividades, o EBP conseguiu a adesão de diversos outros projetos de sequenciamento genômico, tais como: 1000 Fungal Genomes Project (1KFG), Global Invertebrate Genomics Alliance (GIGA), Global Ant Genomics Alliance (GAGA), 5,000 Insect Genome Project (i5K), Ag100 Pests, 10,000 Plant Genomes Project (10KP), 10,000 Bird Genomes (B10K), 200 Mammals Project, DNA Zoo, Australian Mammals Genome Project (OMG), LOEWE-Centre for Translational Biodiversity Genomics, The California Conservation Genomics Project, 1000 Chilean Genomes Project, Taiwan BioGenome Project, Smithsonian Global Genome Initiative (GGI), Global Genome Biodiversity Network (GGBN), Colombia EBP, Diversity Initiative for the Southern California Ocean e Open Green Genomes.

Mais informações sobre o EBP: www.earthbiogenome.org e https://twitter.com/EBPgenome.

Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

artérias

Um grupo de pesquisadores do Brasil e do Reino Unido busca maneiras de aumentar a durabilidade da ponte de safena, procedimento cirúrgico que consiste em usar parte de uma veia da perna para revascularizar o coração que teve o fluxo de sangue reduzido – condição que pode levar ao infarto se não tratada.

O projeto é financiado pela FAPESP por meio do programa São Paulo Researchers in International Collaboration (SPRINT).

Uma das chaves para evitar que a safena implantada se desgaste, exigindo nova intervenção, pode estar em uma proteína normalmente produzida por artérias, a CRP3 (sigla para cysteine and glycine-rich protein 3). Os pesquisadores do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) observaram que, quando implantada no coração, a veia safena passa a expressar a proteína. O efeito seria uma resposta ao aumento do fluxo sanguíneo em seu interior, se comparado ao da perna, contribuindo para que ela suporte a maior pressão mecânica.

A resposta adaptativa, contudo, não é suficiente para que a veia safena suporte o fluxo sanguíneo aumentado por muito tempo. O vaso acaba desenvolvendo lesões em sua parede ao longo do tempo. Na metade dos casos, surgem obstruções entre cinco e 10 anos depois do implante, tornando necessárias novas intervenções cirúrgicas.

“A ideia é que possamos modular a CRP3 ou outras proteínas que se mostrem importantes nesse processo de adaptação, de modo que as pontes de safena tenham uma durabilidade maior”, disse Ayumi Aurea Miyakawa, pesquisadora do InCor que coordena o estudo.

O trabalho foi apresentado nesta quarta-feira (11/9) durante a 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), que termina nesta sexta-feira (13/9) em Campos do Jordão.

Avanços

O primeiro trabalho do grupo, que mostrou a maior expressão de CRP3 na safena, foi publicado ainda em 2009. Por meio de um projeto financiado pela FAPESP, descobriu-se que, comparados a ratos normais, uma linhagem que não expressava a proteína tinha uma resposta pior quando a veia jugular era colocada em regime arterial – como acontece na ponte de safena. Os dados foram publicados em 2018, na revista Clinical Science.

“Nossa hipótese é que a CRP3 participa da mecanotransdução, processo pelo qual as células percebem e respondem ao estresse mecânico. A safena humana passa a produzir essa proteína para tentar compensar e responder a esse estresse”, explicou a pesquisadora.

Cadeia de proteínas

O grupo coordenado por Miyakawa busca agora entender como a CRP3 atua nas chamadas adesões focais. Constituídas por uma série de proteínas, as adesões focais estão envolvidas em vários processos bioquímicos, inclusive na percepção do estresse mecânico causado pelo fluxo mais intenso de sangue.

Para isso, os brasileiros iniciaram uma parceria com uma equipe da Universidade de Manchester, no Reino Unido, liderada pelo professor Christoph Ballestrem.

Trabalhos realizados pelo grupo de Manchester já haviam mostrado a importância de outras proteínas na resposta ao estresse mecânico. A vinculina e a talina, proteínas presentes nas adesões focais, são essenciais para a resposta de alterações mecânicas. Elas se ligam às integrinas, que conectam o meio extracelular com o intracelular, e desempenham o papel de perceber o estímulo físico e transformá-lo em respostas bioquímicas.

“Estamos mostrando que diversas proteínas presentes nas adesões focais controlam diferentes módulos de resposta ao estresse mecânico. A CRP3 e mesmo outras proteínas da família CRP pertencem a um terceiro módulo, que ainda não tínhamos estudado e é absolutamente crítico para a mecanotransdução”, disse Ballestrem, que apresentou os trabalhos do seu grupo na mesma sessão.

Para os pesquisadores, ainda é cedo para pensar em novos tratamentos. No entanto, entender melhor os mecanismos envolvidos na mecanotransdução é essencial para que novas estratégias terapêuticas sejam desenvolvidas.

“Por meio dessa colaboração, tentamos elucidar esses mecanismos. Se conseguirmos isso, poderemos manipulá-los e, assim, controlar o comportamento das células. Além de aumentar a durabilidade da ponte de safena, isso pode ser importante em novas terapias para fibrose, doenças cardiovasculares, entre outras”, disse Ballestrem.

André Julião, de Campos do Jordão
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

laboratório para vírus emergentes

Nesta segunda-feira (9/9), o Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná) inaugura as novas instalações do Serviço de Referência em Vírus Emergentes e Reemergentes da unidade, coordenado pela virologista Cláudia Nunes Duarte dos Santos. Desenvolvido desde 2009, o trabalho atua para além de atividades pontuais de laboratórios e ambulatórios, de forma integrada e propositiva junto ao Ministério da Saúde, nas esferas estadual e municipal, no âmbito da vigilância epidemiológica, prevenção e controle de doenças causadas por vírus, especialmente na região Sul do país.

Localizado na área laboratorial do campus da Fiocruz no Paraná, o espaço é exclusivo para a realização de diagnóstico de vírus zika, febre amarela, vírus do Oeste do Nilo, vírus da encefalite de Saint Louis, entre outras arboviroses de importância médica; e desenvolve suas ações em conjunto com o trabalho de pesquisa do Laboratório de Virologia da unidade regional. Participam da inauguração das novas instalações o representante da Coordenação Geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde (CGLAB/SVS/MS), André Luiz de Abreu, e o coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio da Cunha, entre outros convidados.

Protagonismo na pesquisa em virologia

Único atuando como sentinela na região Sul do país, o Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Paraná participa de forma significativa do esforço empregado pela Fundação no desenvolvimento de pesquisas relacionadas aos vírus emergentes e reemergentes. O grupo foi responsável pela confirmação, através do sequenciamento do genoma viral, em maio de 2015, da presença do vírus zika em oito amostras humanas vindas do Rio Grande do Norte.

Em 2016, a equipe divulgou resultados de uma pesquisa que reforçou a relação entre o vírus e as más-formações congênitas. O Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Paraná é um dos 50 Laboratórios de Referência da Fundação. Considerado referência em vírus emergentes na região Sul do país, oferece um conjunto de serviços para diagnóstico de infecções causadas por esses vírus e também por outros vírus emergentes como hantavírus em amostra de pacientes e roedores. Ademais, como uma das atribuições que definem um serviço de referência, dedica-se a desenvolvimento tecnológico para desenvolver reagentes ainda não disponíveis comercialmente para a identificação de novos vírus, assim como sua dinâmica de manutenção e transmissão na natureza, fortalecendo a vigilância epidemiológica e possuindo capacidade instalada para respostas rápidas a estes novos agentes.

Os Laboratórios de Referência da Fiocruz contribuem para o desenvolvimento de pesquisas que auxiliam na vigilância epidemiológica sanitária e ambiental. O objetivo principal é dar respostas a eventos que se constituem em emergência de saúde pública de importância nacional, prestando consultoria e assessoramento nas suas respectivas áreas de atuação. Os serviços destes laboratórios estão associados às atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e geram conhecimento, processos e produtos, tais como a definição de metodologias, validação diagnóstica, assistência em áreas específicas, desenvolvimento tecnológico, formação de recursos humanos e a previsão de cenários com importante capacidade de respostas às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Fiocruz Paraná

biossegurança

O Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) inaugurou o Laboratório de Nível de Biossegurança 3 (NB3), adequado à manipulação de microrganismos com alto grau de patogenicidade e que oferecem risco à vida humana e ao meio ambiente.

A construção da unidade foi planejada e coordenada pelo professor Carsten Wrenger, do ICB-USP. Terá, a princípio, duas linhas de pesquisa: uma focada em malária, pelo grupo de Wrenger, e outra dedicada ao estudo da bactéria intracelular Rickettsia rickettsii, pelo grupo da professora Andréa Cristina Fogaça.

O laboratório NB3 é composto por quatro ambientes: Unidade de Artrópodes (vetores); Unidade de Experimentação em Vertebrados (hospedeiros); Unidade de Imagens, que conta com um microscópio de tecnologia 4D da Zeiss; e Unidade de Cultura de Células e Tecidos, para a realização dos experimentos científicos e de diagnóstico envolvendo amostras humanas.

A instalação possui câmaras pressurizadas para garantir a contenção dos patógenos, além de câmeras de segurança, cujas imagens podem ser vistas em uma televisão por quem está dentro ou fora do laboratório. Também possui um sistema de descontaminação de efluentes e outro que usa radiação ultravioleta para descontaminação interna.

A inauguração ocorreu durante o Simpósio Estratégico sobre Biodefesa Microbiológica, no ICB, no dia 12 de setembro de 2019.

Agência FAPESP*
*Com informações da Assessoria de Comunicação do ICB-USP
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Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

astrócitos tratados com lítio

O uso de lítio no combate ao Alzheimer tem sido objeto de diversos grupos de pesquisa há mais de uma década. Novos resultados obtidos por cientistas do Brasil e dos Estados Unidos sugerem que os efeitos benéficos da droga para a memória podem estar relacionados à sua capacidade de retardar o envelhecimento celular, um dos fatores relacionados ao surgimento de doenças neurodegenerativas.

Os dados foram apresentados por Tânia Viel, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), na última terça-feira (10/9), durante a 34ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Campos do Jordão (SP). Parte da pesquisa foi conduzida durante o período que Viel passou no Buck Institute for Research on Aging, nos Estados Unidos, com apoio de bolsa da FAPESP.

Um estudo anterior do grupo havia mostrado que, quando administrado em doses muito pequenas, o metal, usado como estabilizador de humor em pacientes com transtorno bipolar e depressão, ajuda na manutenção da memória de idosos com Alzheimer.

Para testar o efeito do medicamento em células cerebrais humanas, Viel recorreu a uma técnica de reprogramação que permite transformar células adultas – do sangue ou do fibroblasto (camada mais interna da pele) – em células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês), que posteriormente foram induzidas a se diferenciar em astrócitos, o tipo celular mais abundante do sistema nervoso central.

Os astrócitos foram separados em dois grupos. À medida que sofriam o envelhecimento celular natural, uma parte era tratada com lítio, enquanto a outra não recebia nenhum tratamento.

“Observamos que o envelhecimento foi bastante reduzido nas culturas que receberam o lítio. O envelhecimento celular é um dos fatores relacionados ao aumento do câncer e de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson”, disse Viel.

Em outro teste, os cientistas observaram o funcionamento do cérebro de camundongos à medida que envelheciam. Foi usada no experimento uma linhagem de roedores que envelhece mais rápido – em apenas 12 meses, em vez dos 24 usuais.

“Os animais tratados com lítio desde pequenos mantiveram toda a formação da memória. Existe uma relação grande entre o aumento de ansiedade e a perda de memória na velhice. A redução da ansiedade nos animais pode estar relacionada à manutenção da memória”, explicou.

Idosos

Os resultados vão ao encontro de testes feitos anteriormente pela equipe. O estudo começou depois que um dos membros do grupo, a médica Marielza Nunes, passou a observar melhora na memória de idosos que tomavam microdoses de lítio como complemento alimentar. Alguns metais podem ser receitados para suprir deficiências nutricionais.

Os pesquisadores então sistematizaram um estudo clínico e selecionaram um grupo de pacientes idosos diagnosticados com Alzheimer. Metade dos voluntários recebeu as microdoses de lítio, de 1,5 miligrama por dia – em pessoas com transtorno bipolar, a dosagem é de pelo menos 60 miligramas. A outra parte dos pacientes tomou apenas placebo. Os idosos foram acompanhados por um ano e meio, com a realização regular de testes de memória.

“A partir do terceiro mês, a memória dos pacientes tratados com lítio estabilizou. No outro grupo, o desempenho foi decaindo. O tratamento foi mantido por mais um tempo, para termos certeza do efeito observado. A partir do momento que comprovamos essa diferença, passamos a dar lítio para todos”, disse Viel. Os resultados foram publicados na revista Current Alzheimer Research em 2013.

Os próximos passos da pesquisa envolvem modelos celulares e novos testes com pacientes. Como não se sabe exatamente as causas da doença, os pesquisadores vão testar o lítio no contexto das diferentes hipóteses que explicam o Alzheimer.

Em uma delas, as células cerebrais serão submetidas a um tratamento com o peptídeo beta-amiloide, encontrado em pacientes que desenvolvem a doença. O peptídeo causa uma desorganização das células e induz o envelhecimento. As células tratadas com beta-amiloide receberão doses de lítio para que seja observado se o medicamento pode reverter o processo de desorganização.

Em outro estudo, os pesquisadores vão induzir o envelhecimento em uma cultura de células usando peróxido de hidrogênio, conhecido por causar estresse oxidativo, um dos indutores do envelhecimento celular. A ideia é testar se o lítio pode reverter esse dano.

“Há várias formas de indução do envelhecimento cerebral que podem levar à doença de Alzheimer. Veremos o quanto conseguimos proteger as células com o medicamento”, disse.

A pesquisadora lembra que estudos anteriores do grupo mostram que um estilo de vida saudável, com atividades físicas e intelectuais, protege o cérebro da doença (leia mais em: agencia.fapesp.br/29740/).

Futuramente, grupos de idosos com e sem Alzheimer serão acompanhados para que se entendam as diferenças entre eles. Embora haja um fator genético, nem sempre pessoas predispostas desenvolvem a doença. Os pesquisadores querem entender quais são os agentes protetores do cérebro de idosos saudáveis.

André Julião, de Campos do Jordão
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

interação entre éxcitons e fônons

Energia é informação. Estender o intervalo de tempo no qual um sistema é capaz de reter energia, antes de perdê-la para o meio, constitui um objetivo fundamental para o desenvolvimento da informação quântica. Esse intervalo é denominado “tempo de coerência”. E vários estudos têm sido realizados com o objetivo de retardar o processo de decoerência.

Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW-Unicamp), em parceria com colegas do Departamento de Física da University of Michigan, nos Estados Unidos, e do Instituto Avançado de Nanotecnologia da Sungkyunkwan University, na Coreia do Sul, buscou entender o processo de decoerência na escala de tempos de femtossegundos (10-15 s). Artigo a respeito acaba de ser publicado em Physical Review Letters.

Na pesquisa, interações entre elétrons excitados (éxcitons) e a vibração da rede cristalina (fônons) foram observadas na escala de tempo de femtossegundos. A aplicação de uma técnica revolucionária de espectroscopia ultrarrápida, que permite alta resolução temporal e espectral, foi fundamental para a obtenção do resultado. O estudo teve o suporte da FAPESP no âmbito de um Auxílio à Pesquisa - Jovens Pesquisadores concedido a Lázaro Aurélio Padilha Junior e de um projeto SPRINT (São Paulo Researchers in International Collaboration) conduzido em parceria com a University of Michigan.

Padilha foi um dos coordenadores da pesquisa e o pós-doutorando Diogo Burigo Almeida, na época em Michigan, um dos autores principais. O processo experimental foi realizado com nanocristais semicondutores dispersos em solução coloidal em temperaturas criogênicas.

“Observamos que, quando o material é excitado [pela luz], a luz que ele emite muda de cor em tempo inferior a 200 femtossegundos. Isso se deve à interação do éxciton [o elétron excitado] com o fônon [a excitação da rede cristalina]. O elétron excitado transfere parte da energia que recebeu para a rede. Isso provoca mudança de frequência e, portanto, mudança de cor da emissão”, disse Padilha à Agência FAPESP.

O pesquisador acredita que esta foi a primeira vez que se observou tal tipo de fenômeno. “Não havia sido observado antes porque o deslocamento de energia do elétron para a rede é muito pequeno, de 26 mili-elétron-volts (26x10-3 eV), e o tempo do processo é extremamente curto, menor do que 200 femtossegundos (200x10-15 s). Já haviam sido observados fenômenos similares, porém, ocorrendo em escalas de tempo muito maiores e devido a outros processos. Acessamos relações físicas até então desconhecidas”, disse.

Seu grupo de pesquisa estuda nanomateriais semicondutores com tamanhos da ordem de 1a 10 nanômetros. Um desafio muito grande é que, quando se promove o crescimento desses materiais, cada unidade individual cresce de maneira um pouco diferente das outras. O resultado é que a faixa espectral na qual o conjunto do material emite luz depois de uma excitação se alarga, pois os vários componentes emitem em frequências um pouco diferentes umas das outras. Assim, a luz emitida apresenta uma definição de cor menos precisa. Quando se isola uma partícula única, o espectro da emissão luminosa se estreita, porém, o tempo de detecção do sinal é retardado. Há um ganho de resolução espectral, mas uma perda de resolução temporal.

“Há cerca de cinco anos, começamos a trabalhar com uma técnica que, em um conjunto de 1020 partículas, consegue pinçar subconjuntos com alguns milhares de partículas idênticas. Isso possibilitou que chegássemos agora a uma resolução espectral bastante fina, e por isso precisa, e a uma resolução temporal fina também. Assim, obtivemos para um coletivo de partículas a resolução espectral de uma partícula única, em tempo excepcionalmente curto”, disse Padilha.

Essa solução experimental permitiu que os pesquisadores acessassem processos físicos até então desconhecidos, como a interação ultrarrápida éxciton-fônon. Vale lembrar que, na física da matéria condensada, o fônon é uma quase-partícula associada a um quantum de vibração que se propaga pela rede cristalina.

Não há aplicação tecnológica imediata para os resultados obtidos. Mas o conhecimento das interações físicas que ocorrem na escala de tempo de femtosseguntos pode abrir caminho para que, em um futuro não muito distante, se torne possível controlar a estrutura de materiais de modo a que os elétrons retenham por mais tempo a energia dos impulsos elétricos ou luminosos que os excitam. E, desse modo, retardar o processo de “decoerência” de sistemas quânticos.

“Aumentar o tempo de coerência é uma questão-chave para o sucesso de dispositivos como o chaveador óptico ou o emissor de fóton único. O que se busca, na verdade, é reduzir ao mínimo o desperdício de energia. Quando o material muda de cor, isso significa que ele está perdendo energia. Descobrimos que essa perda é extremamente rápida. E é isso que queremos retardar”, disse Almeida.

O artigo Non-Markovian Exciton-Phonon Interactions in Core-Shell Colloidal Quantum Dots at Femtosecond Timescales, de A. Liu, D. B. Almeida, W. K. Bae, L. A. Padilha, and S. T. Cundiff, pode ser lido em https://journals.aps.org/prl/abstract/10.1103/PhysRevLett.123.057403.

José Tadeu Arantes
Agência FAPESP

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.