Eternos Caminhantes

Mostra no Museu Lasar Segall aborda a perseguição à arte moderna durante o Terceiro Reich

O Partido Nazista era composto de artistas frustrados. De acordo com o documentário sueco de 1989 Arquitetura da Destruição (dirigido por Peter Cohen), Adolf Hitler era um pintor medíocre com ambições na arquitetura. Joseph Goebbels, ministro da propaganda do Terceiro Reich, escreveu romance, poesia e textos para teatro. Alfred Rosenberg, o grande ideólogo nazista, pintava e se considerava um respeitável escritor e pensador. Baldur von Schirach, líder da Juventude Hitlerista, era tido como um importante poeta.

Assim, não é de se estranhar que, ao assumir o poder, os nazistas entraram no campo de batalha também no mundo das artes. E, aqui, foi declarada como grande inimiga a arte moderna. Influenciados por ideias como as do médico Max Nordau, autor do livro Degeneração (1892), Hitler e seus aliados identificaram nas obras e nos artistas de vanguarda sinais de mentes doentias e perigosas para a raça ariana. Ao romper com a perspectiva, a tradição da figuração do corpo humano e outros cânones, artistas plásticos produziam “arte degenerada”, incompatível com os anseios de representação do Terceiro Reich.

Um capítulo essencial desse confronto pode agora ser visto em A “Arte Degenerada” de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra, em cartaz no Museu Lasar Segall até 30 de abril de 2018. A curadoria é da professora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP Helouise Costa e do pesquisador do Museu Lasar Segall Daniel Rincon. A mostra é uma parceria entre as duas instituições.

Reprodução ampliada da pintura Autorretrato 3 (1927)
Reprodução ampliada da pintura Autorretrato 3 (1927): quadro foi vandalizado durante exibição no Brasil – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A exposição resgata outra mostra, que completa 80 anos em 2017. Em 19 de julho de 1937, o governo alemão inaugurou em Munique a mostra Arte Degenerada (Entartete Kunst, em alemão), que levava ao público cerca de 650 obras de arte moderna confiscadas de museus públicos espalhados pelo país. Selecionadas por uma comissão coordenada pelo presidente da Câmara de Artes Plásticas, Adolf Ziegler, sob orientação direta de Hitler, as peças serviam como exemplo das manifestações artísticas condenadas pelo regime. Dentre os 112 artistas com trabalhos expostos estavam Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Piet Mondrian, Max Ernst, Otto Dix e Lasar Segall.

Apesar de exibições difamatórias da arte moderna acontecerem desde a chegada dos nazistas ao poder, em 1933, a mostra de Munique era a primeira chancelada pelo governo central. Aberta ao público um dia após a inauguração da Grande Exposição de Arte Alemã, que acontecia do outro lado da rua, na suntuosa Haus der Kunst e apresentava a arte sancionada pelo regime, deveria ser o contraponto desta.

Daniel Rincon
Para o curador Daniel Rincon, a trajetória de Lasar Segall foi marcada pela defesa do Modernismo – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Sediada no prédio do Instituto de Arqueologia, trazia uma organização deliberadamente improvisada, com iluminação precária, painéis cobrindo janelas, quadros amontoadas de forma desleixada e inscrições nas paredes denunciando o caráter subversivo e degenerado das obras. Isso não impediu, contudo, que a exposição fosse um sucesso, excursionando por diversas cidades alemãs até 1941 e atraindo cerca de 3 milhões de pessoas.

A saga de Eternos Caminhantes

Lasar Segall (1889-1957) nasceu na comunidade judaica de Vilna, Lituânia, na época dominada pela Rússia czarista. Foi pintor, escultor, desenhista e gravurista. Iniciou sua carreira com influências impressionistas, mas ainda jovem aderiu ao Modernismo. Depois de morar na Alemanha, mudou-se para o Brasil, absorvendo referências do país em sua arte. Viveu um período em Paris e fixou-se definitivamente em São Paulo em 1932.

Entre 1937 e 1938, já residindo no Brasil, Segall teve 49 obras confiscadas de museus públicos alemães. Dessas, 11 participaram da exposição Arte Degenerada: três pinturas a óleo e oito gravuras. A mostra do Museu Lasar Segall traz 24 gravuras e a única tela que sobreviveu aos nazistas, Eternos Caminhantes, de 1919.

Fachada da exposição Arte Degenerada
Fachada da exposição Arte Degenerada (Entartete Kunst), em Munique, em 1937: tratamento dado à mostra foi deliberadamente desleixado, para reforçar a ideia de obras incompatíveis com os ideais do Reich – Foto: Reprodução

“A trajetória dela resume todos os percalços sofridos pela arte moderna na Alemanha”, afirma Daniel Rincon. Segundo o curador, Eternos Caminhantes foi adquirida ainda em 1919 pelo museu público de Dresden para ser a primeira obra de arte moderna de sua coleção. Em 1924, contudo, com a troca de direção da instituição, a tela foi recolhida para seus depósitos, só ressurgindo ao público em 1933, incluída em uma das primeiras exposições locais de “arte degenerada”. A partir de então, tornou-se presença constante em mostras nazistas de difamação do Modernismo.

Por volta do final da guerra, a obra desapareceu. “Segall e sua família consideravam que ela tinha sido destruída”, conta Rincon, “e assim pensaram até 1954, quando recebem uma carta de um negociante de artes húngaro radicado em Paris, Emerich Hahn, dizendo que estava em posse da obra e oferecendo-a para a família”.

De acordo com a mensagem de Emerich Hahn, cuja tradução integra a mostra, Eternos Caminhantes foi encontrada pelas tropas francesas ao final do conflito, no porão de uma alta autoridade nazista. Confiscada e levada para a França como restituição de guerra, foi vendida a Hahn por um escritório estatal, em nome das reparações de guerra. Em seu verso a tela trazia a inscrição JÜDE (judeu), feita pelos alemães. Segall não chegou a rever a obra, que desembarcou no Brasil apenas em 1958, um ano após a morte do artista.

gravuras
Das 49 obras de Segall confiscadas pelos nazistas, 41 delas eram gravuras: cerca de um terço das 20 mil obras apreendidas pelo regime também eram nesse suporte – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Segundo Rincon, essa reconstituição da recepção que Eternos Caminhantes teve nos museus alemães é um exemplo do trabalho que ele e Helouise Costa desenvolveram ao longo da mostra.

“Esse foi um exercício interessante, porque detectamos uma intensa articulação entre a República de Weimar e o Modernismo na Alemanha”, revela o pesquisador, referindo-se ao período da história alemã compreendido entre o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a chegada do Partido Nazista ao poder, em 1933. Até 1919, explica Rincon, os museus públicos alemães tinham resistência em adquirir obras de arte moderna, principalmente trabalhos de vanguarda. “A partir da República de Weimar, essas obras começam a chegar com facilidade aos museus e em poucos anos eles juntaram quase 20 mil obras de arte moderna, entre elas as de Segall”, afirma.

Esse também é o número aproximado de obras confiscadas pelo regime nazista, consideradas “degeneradas” e associadas à decadência. Cerca de um terço delas foi destruído, segundo Rincon, como é o caso da pintura a óleo Viúva. Para lembrar a perda causada pelos atos do Terceiro Reich, a exposição traz uma moldura vazia simbolizando a obra. O mesmo recurso é usado para destacar a tela No Ateliê, cujo paradeiro é desconhecido.

A experiência brasileira

Além das obras tomadas pelos nazistas, a exposição do Museu Lasar Segall dedica espaço para resgatar eventos acontecidos no Brasil envolvendo a perseguição e a defesa da arte moderna. A trajetória do artista, na opinião de Rincon, é reveladora desse debate.

“Segall acaba experimentando no Brasil algumas manifestações de desagrado e alguns ataques muito parecidos com os que vinha sofrendo na Alemanha”, revela o curador. Após uma breve passagem pelo país em 1912, o artista deixa a Europa em direção a São Paulo em 1923. “Quando chegou aqui e fez a primeira exposição em 1924”, continua Rincon, “um crítico de arte escreveu um texto chamado ‘Alucinação visual’, dizendo que Segall pintava como um interno do Juqueri. Esse tipo de repercussão negativa foi experimentada até os anos 1940.”

Conforme explica o curador, vindo da Alemanha como um artista já reconhecido, com obras em museus e coleções particulares, Segall teve de enfrentar no Brasil um público e uma crítica que ainda não estavam acomodados às propostas modernistas. Um exemplo concreto dessa incompreensão, que podia chegar à violência, é a pintura Autorretrato 3. Presente na mostra atual, ela foi vandalizada durante uma exposição em 1928, quando um visitante rasgou a tela no local do olho do retrato do artista.

Gravuras
Para o curador da exposição, Lasar Segall sempre esteve associado às correntes progressistas e democráticas – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Por outro lado, eventos em defesa da arte moderna e da democracia também aconteceram no País, conforme documenta a exposição. Um dos destaques é a mostra A Arte Condenada pelo Terceiro Reich, organizada em 1945 por Miércio Askanazy, imigrante judeu vindo da Polônia em 1939, responsável pela criação de uma das primeiras galerias de arte moderna do Brasil. Duas obras de Segall, Sonho e Mãe Cabocla, fizeram parte da exibição.

Rincon destaca ainda a mostra que o artista realizou em 1943, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, quando expôs quadros que denunciavam o massacre dos judeus, como a tela Pogrom. Para o curador, esse momento revela uma tomada de posição do artista em favor da democracia. “Ele fez um gesto político. Segall sempre esteve associado com essas correntes progressistas e democráticas.”

O ontem e o hoje

Visitar a exposição no Museu Lasar Segall não é só entrar em contato com a história, mas ser confrontado com as recentes polêmicas envolvendo as artes no Brasil. Os ataques nazistas à arte moderna trazem diretamente à memória do público eventos como o cancelamento da mostra Queermuseu pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, em setembro passado, após reações agressivas nas redes sociais.

A ideia original da exposição não era, contudo, fazer relações com o presente, segundo Rincon. “Para nós, que estávamos organizando esta exposição desde 2016, foi um choque. O interesse inicial era fazer uma exposição contando a história de uma coisa que já aconteceu e muita gente não conhece. A gente queria trazer à tona essa discussão que houve no passado em relação à recepção ao Modernismo.”

Exposição Lasar Segall
Vindo da Alemanha como um artista já reconhecido, Segall teve de enfrentar no Brasil um público e uma crítica que ainda não estavam acomodados às propostas modernistas – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

De acordo com o curador, muitas falas vistas hoje nas redes sociais são parecidas com os argumentos antimodernistas do começo do século 20. “Se você entrar na notícia daquela exposição no MAM, com toda aquela celeuma em torno do homem nu, se você ler os comentários dos leitores, é assustador ver a similaridade com os ataques que o Segall sofreu na Alemanha e no Brasil.” O curador se refere à recente performance do artista Wagner Schwartz, envolvendo nudez, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo.

Rincon lembra também a exposição Arte Degenerada de 1937. Conforme explica, muitas obras recebiam legendas contendo o valor pelo qual haviam sido compradas pelos museus públicos. “E, às vezes, ainda acrescentavam frases como ‘adquirido com os impostos dos trabalhadores alemães’”, comenta.

A exposição A “Arte Degenerada” de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra tem visitação gratuita, de quarta a segunda-feira, das 11 às 19 horas. O Museu Lasar Segall fica na Rua Berta, 111, na Vila Mariana, em São Paulo.

Luiz Prado
Jornal Da USP

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