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Discurso jornalístico padroniza comportamento da mulher no trabalho

Pesquisa investiga como o jornalismo aborda questões de gênero referentes a escolhas profissionais e carreira

“A mulher é guiada pela emoção e os homens pela razão” é o chavão popular que é ponto de partida para uma análise sobre os conceitos de feminilidade e masculinidade, discutidos, reconstruídos e ressignificados na pesquisa apresentada em artigo de Tatiane Leal para a revista Rumores. A autora discute a ideia de que a emoção, na mulher, sempre foi seu atributo natural e universal expresso nos comportamentos considerados típicos de todas as mulheres, e que se mostram parte de uma “retórica do controle direcionada ao gênero feminino: seus sentimentos devem ser manejados, a fim de serem transformados em capital produtivo, evitando que causem riscos à ordem social”.

A pesquisa investiga como as mídias, especificamente o jornalismo, abordam o tema, pondo em pauta a emoção no que diz respeito às escolhas profissionais e à carreira, tomando como objeto de análise matérias veiculadas nas revistas Veja, Época e Você S/A Edição para Mulheres, esta última sobre carreira e negócios. Nessas publicações, a questão gênero e trabalho é resumida na frase: “emoções femininas são potência transformadora no mundo do trabalho”, desde que controladas, para não oferecer perigo, em uma clara oposição dos gêneros: “os homens são seres racionais – portanto, constantes e confiáveis – as mulheres emocionais, potencialmente invejosas, escandalosas e fracas, ou seja, imprevisíveis”.

Nesse cenário, Tatiane Leal se refere às emoções como fenômenos nascidos de um contexto social e cultural a preconizar que a racionalidade masculina é tida como mais confiável, objetiva e profissional do que a sensibilidade feminina, restrita ao mundo do lar. De acordo com esse pensamento, os homens estão mais aptos para atuarem no mundo extramuros, ao passo que as mulheres, “como seres dóceis”, estão confinadas ao mundo intramuros, em meio às tarefas domésticas e à maternidade – um “prato cheio” para a manipulação das mídias a serviço de ganhos e capital, já que, “o sentimento torna-se aspecto essencial do comportamento econômico, e a vida afetiva passa a seguir a lógica das relações de consumo e troca”.

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No imaginário popular, mulheres são consideradas seres mais emotivos, ao mesmo tempo dóceis, escandalosas, fracas e imprevisíveis – Foto: congerdesign/Pixabay

Apesar de as revistas citadas acima afirmarem que as mulheres são mais sensíveis e emotivas do que os homens, observa-se a “novidade que aparece nesses discursos”: a valorização da emotividade, “não como característica associada à maternidade ou ao casamento, mas como diferencial na carreira”. Essa mesma sensibilidade está imbuída de qualidades e potencialidades para o sucesso no mundo do trabalho, como vemos, hoje, as mulheres ocuparem cargos que sempre foram reservados aos homens. Assim, as características femininas passaram a ser valorizadas no mundo corporativo e as mulheres são “talhadas para liderar”.

Se, nas revistas analisadas, as emoções femininas são atributos valorizados para a “construção de uma vida bem-sucedida”, ao mesmo tempo são manipuladas para se enquadrarem em um padrão de comportamento, pois, de acordo com a autora, sem “um rígido aparato de controle, mulheres seriam perigosas e inconstantes”. Estereótipos e preconceitos não faltam, já que a mulher é vista  como um ser instável, indigno de confiança, enfim, uma ameaça à garantia da obediência às normas sociais. Tatiane Leal ressalta a necessidade de analisar as atribuições de gênero como construídas pela cultura. “Assim, o imaginário do que é dado como natural é construído dentro de uma realidade cultural e perpassado por relações de poder”, conclui.

Tatiane Leal é doutoranda e mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na linha de pesquisa de mídia e mediações socioculturais, e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

LEAL, Tatiane. A mulher emocional: potências e riscos da feminilidade no discurso jornalístico. Rumores, São Paulo, v. 11, n. 21, p. 191-208, jul. 2017. ISSN: 1982-677X. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/Rumores/article/view/122149>. Acesso em: 30 ago. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP
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