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Karina Okajima Fukumitsu

Suicídio: reflexões sobre o caminho de ser suicidologista

Karina Okajima Fukumitsu é psicóloga e pós-doutoranda pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP

A origem deste breve ensaio aconteceu quando duas pessoas, em momentos diferentes, me fizeram as seguintes perguntas: “Qual é a maior dificuldade que você enfrenta como suicidologista na prevenção ao suicídio?” e “qual o caminho para sermos suicidologistas?”. As questões ficaram saltitando em minha cabeça.

Para a primeira pergunta, minha resposta foi direta, até porque já tenho me disponibilizado para debruçar meus esforços em acolher o sofrimento existencial por meio do trabalho de ampliação das maneiras de enfrentamento às adversidades: “A maior dificuldade para a prevenção ao suicídio é a falta do acolhimento ao sofrimento existencial”.

A segunda resposta exigiu maior reflexão e tomou uma dimensão mais clara ao escrever este ensaio. O suicídio é um ato de comunicação que não pôde receber acolhimento em vida e que, por consequência, confirma concretamente a “descontinuidade do sentido de vida” (Fukumitsu, 2013, p. 19). Nesse sentido, o trabalho de prevenção ao suicídio envolve a ampliação da comunicação por meio da compreensão de três pontos principais. São eles: qual é o pedido da pessoa que tenta o suicídio? Qual é o desejo que não consegue ser concretizado em vida? Qual é a mensagem existencial de um ato suicida?

A comunicação do suicídio é um processo, portanto pode-se refletir que o ato suicida comunica as fragmentações decorrentes de um processo que tornou a vida intolerável, interminável e inescapável, os três Is apresentados na obra Clinical Manual of Assessment and Treatment of Suicidal Patients. Dentre as várias fragmentações, destaco restrições de oportunidades para a ampliação de ajustamentos criativos funcionais; apego inseguro; conflitos disfuncionais; rigidez de padrões interativos; e dificuldade na comunicação.

Muitas vezes não compreendemos as motivações de uma pessoa para se matar e, talvez, nunca seremos capazes de compreender a verdade em sua totalidade, sobretudo porque toda a verdade a respeito da pessoa foi juntamente com a sua morte.

Por que os principais propósitos da vida de alguns são o dinheiro, o poder e o status? Infelizmente, e cada vez mais, percebo que nossos valores estão invertidos e nossas convicções individuais são diluídas pelas convicções de outrem. Passamos muito tempo fora de nós mesmos e distantes de nossas reais necessidades. A exigência de termos que nos encaixar em estereótipos de que somos felizes e bem-sucedidos é o que nos torna reféns de mais exigências e, assim, não há espaço para tristeza, raiva e vários outros sentimentos inóspitos, fato este que agrava o sentimento de falta de pertencimento.

Shneidman (1993, p. 152, tradução nossa) afirma que “o terapeuta pode ter o foco nos sentimentos, especialmente os mais estressantes, tais como culpa, vergonha, medo, raiva, expectativas frustradas, amor não correspondido, falta de esperança, desamparo e solidão”. Outro ensinamento direciona nosso olhar para compreender onde a dor da pessoa que tenta se matar está localizada. Em outras palavras, “onde dói?”.

Psicoterapeuta há 24 anos e atendendo pessoas que tentam ou tentaram o suicídio, identifico que evitar a dor é causa de intensa perturbação. Nunca conseguiremos lidar com a dor se não olharmos primeiramente para a ferida que causa a dor. A ferida é sentida por não ser consentida. Ao olharmos para a ferida, damo-nos a chance de nos apoderarmos de nossas necessidades e nos tornamos responsáveis pelo nosso sofrimento.

Ao se compreender “onde dói”, rumamos para o trabalho de psicoeducação, para que a pessoa seja mais generosa com ela mesma, tenha compaixão por si, a fim de ampliar suas possibilidades, e se fortaleça.

O suicídio é um pedido de socorro individual e social. Por esse motivo, considero importantíssima a abertura de espaços para discussão sobre a vulnerabilidade humana. Todos nós temos dores e, portanto, todos nós sofremos. Sendo assim, é condição para a prevenção ao suicídio a criação de espaços para discutir sobre as condições de vulnerabilidade dos seres humanos, sobre os introjetos que nos tornam reféns do perfeccionismo e da ideia utópica de uma felicidade constante. Costumo falar que o que nos diferencia de um objeto é que temos a capacidade de ressignificar e de superar nossos problemas e dificuldades.

Apesar da dificuldade de abrirmos os olhos para o que nossa alma clama e para aquilo que se torna essencial em nossas vidas, este talvez seja um caminho fértil para que a pessoa possa voltar a se sentir viva. O caminho de um suicidologista deve percorrer uma trajetória de respeito, dedicação, escuta, compaixão, amor, empatia, cuidado, acolhimento, afeto, troca e presença.

Finalizo este artigo com dois pedidos e um convite:

Pedidos: não julgue quem se matou ou quem tentou o suicídio e não teve a morte consumada, e não ofereça explicações reducionistas, lembrando que “quem está longe julga e quem está perto compreende” (Fukumitsu, 2012, p. 70). Se há suicídio, há dor.

Convite: crie espaços para acolher sua dor e seja acolhedor da dor do outro para que possamos transformar dor em amor.

Referências

Chiles J. A; Strosahl K. D. (2005). Clinical Manual of Assessment and Treatment of Suicidal Patients. American Psychiatric Publishing, Inc.

Fukumitsu, K. O. (2013). Suicídio e Luto: história de filhos sobreviventes. São Paulo: Digital Publish & Print Editora.

______. “Xiquexique nasce em telhado: reflexões sobre diferença, indiferença e indignação”. In: Revista de Gestalt, v. 17, São Paulo, 2012, pp. 69-71.

Shneidman, E. (1993). Suicide as Psychache: a clinical approach to self-destructive behavior. New Jersey: Jason Aronson.

Karina Okajima
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