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Gutemberg Medeiros

Teatro vivo de Anatol Rosenfeld

barbárie trouxe ao Brasil muitos fugitivos perseguidos pelo totalitarismo alemão. Pessoas dos mais diversos ofícios e saberes que somaram decisivamente ao aprimoramento do País. Na área cultural, profissionais de primeira linha como o ator Zbigniew Ziembiński, o tradutor Herbert Caro, os críticos Otto Maria Carpeaux e Paulo Rónai, o filósofo Vilém Flusser e tantos outros. A crítica teatral foi decisivamente beneficiada com a vinda do berlinense Anatol Rosenfeld (1912-1973), de quem a Editora Perspectiva lança mais uma coletânea de textos publicados em jornais e revistas e inéditos em livro: Estética e teatro alemão, organizado pela pesquisadora Nanci Fernandes e Jacob Guinsburg.

Há um antigo posicionamento de que o texto dramatúrgico é teatro morto. Ele só vive durante o breve acontecimento no tablado, a encenação. Se a peça em letras já foi vista assim, que dirá da crítica. Mas os tempos mudaram e, cada vez mais, estabelece-se a importância desse tipo de registro a sequestrar da fugacidade arte tão necessária. Especialmente no Brasil, quem tem papel dos mais importantes é a Editora Perspectiva de Jacob Guinsburg, também Professor Emérito da USP de Estética Teatral.

teatro kafka
Cena da peça O que fazer com o que Kafka fez com a gente? – Foto: Juliana Merengue/Flickr

Na fundação desta casa publicadora, Rosenfeld já estava no conselho editorial a propor publicações, seu próprio trabalho e até traduções. Ambos eram amigos de anos e desde o falecimento do berlinense mantém a sua rica produção ao editar seus artigos – totalizando 22 títulos. O legado de Rosenfeld é manter viva a produção teatral brasileira e a reflexão sobre as mais diversas correntes dessa arte no mundo, especialmente a alemã.

Da sua vasta produção, merece especial destaque a coletânea Brecht e o teatro épico, sobre esse fundamental dramaturgo e pensador contemporâneo de quem Rosenfeld viu encenações em sua Berlim no fim dos anos de 1920. Ou ainda Thomas Mann, com ensaios elucidando os mais diversos aspectos deste escritor. Obra de referência é História da literatura e do teatro alemães abarcando desde as fundações até os anos 50, em evidente poder de síntese e reflexão, sem reducionismos.

Montagem de Mamae Coragem
Montagem de Mamãe Coragem, de Bertolt Brecht – Foto: Domínio Plúblico/Wikimedia Commons

Porém, um dos aspectos mais interessantes expressos em sua produção é o da sua militância intelectual em se abster completamente de modelos antigos de ver o mundo a partir dos prismas de alta ou baixa cultura. Difícil imaginar um crítico teatral subir o morro para ver uma encenação de grupo de comunidade carente. Pois Rosenfeld o fez na cidade de Santos nos anos de 1960. Ele buscava o novo no tablado peneirando o que emergia no teatro amador, revelando o de melhor em atores, diretores e autores. Esta sua postura inovadora na crítica pode ser vista na coletânea Prismas do teatro, onde aborda a fase rica do teatro brasileiro entre 1964 e 1973. Rosenfeld ainda foi um dos primeiros – com Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi – a revelar o então jovem dramaturgo Plínio Marcos em Navalha na carne.

Mas talvez a maior contribuição dele como crítico foi no contato direto com criadores a incentivá-los a ir cada vez mais além. Ele percebia no outro potencialidades que o próprio não suspeitava. O mais perfeito exemplo disso foi na sua relação com a escritora Hilda Hilst.

montagem de Navalha na carne
Cena de montagem de Navalha na carne, de Plínio Marcos, um dos dramaturgos que Rosenfeld revelou – Foto: Juliana Merengue/Flickr

Entre 1967 e 1969, a então apenas poeta sentiu que precisava ter uma via de comunicação mais direta com seu tempo para focar a crescente barbárie da ditadura civil-militar e tentou o teatro ao escrever nove peças. A cada texto finalizado, enviava cópia ao seu amigo Alfredo Mesquita, diretor da Escola de Arte Dramática, que, por sua vez, repassava a professores para montagens com seus alunos. A partir daí, seus textos encontraram outros grupos amadores. E foi nesse terreno no qual Rosenfeld descobriu Hilda e escreveu críticas em O Estado de S. Paulo. Ele viu ali uma rica produção, o teatro da palavra e das ideias, chegando depois a compará-la com o expressionista alemão Ernst Toller.

Não satisfeito, o crítico sentiu que pulsava também uma ficcionista. Ao buscar as suas publicações, só encontrou as de poesia e desconfiou que sua prosa poética inovadora estivesse reclusa na gaveta, sem encontrar editor. Então foi em busca da autora e cobrou esta produção. Hilda lembrava que já o conhecia como leitora do Estadão e ficou maravilhada com as críticas sobre seu teatro. Mas respondeu-lhe que jamais pensara em escrever prosa.

Hilda Hilst
Rosenfeld acompanhou Hilda Hilst em sua trajetória na poesia e no drama e incentivou sua experimentação na prosa – Foto: Yuri Vieira/Flickr

A partir daí, Rosenfeld não deu descanso à autora e continuou a cobrar essa vertente de escritura. Hilda chegou a quase perder a paciência, mas não tinha coragem de brigar com o novo amigo. Até que se decidiu e escreveu Fluxo, Floema, Osmo, Lázaro e O Unicórnio, logo enviando a Rosenfeld. Assim, acreditava que o crítico constatasse sua incompetência como ficcionista e a deixaria em paz. Para a sua surpresa, ele confirmou as suas suspeitas e levou à Perspectiva, enfeixando os textos no volume intitulado Fluxo-Floema (1970). Na introdução, Rosenfeld abre com afirmação das mais importantes em toda a fortuna crítica de Hilda: “É raro encontrar no Brasil e no mundo escritores, ainda mais neste tempo de especializações, que experimentem cultivar os três gêneros fundamentais da literatura – a poesia lírica, a dramaturgia e a prosa narrativa – alcançando resultados notáveis nos três campos. A este grupo pequeno pertence Hilda Hilst”. Ela sempre foi grata ao amigo, pois a fez se descobrir ficcionista.

A obra de Rosenfeld está nas livrarias, presente. Inclusive nesse lançamento Estética e teatro alemão, onde o leitor encontra reflexões sobre Büchner, teatro engajado, Tchékhov, Dürrenmatt, Ionesco, Peter Weiss, Gerhart Hauptmann, Kafka e outros tão contemporâneos e necessários quanto este crítico.

Gutemberg Medeiros é mestre e doutor pela ECA-USP e pós-doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP
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